Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Hollywood e o impacto do novo Coronavírus

“O Homem Invisível” integra o Dark Universe da Universal Pictures (Foto: Divulgação).

Quando as primeiras notícias sobre um vírus desconhecido que estava assolando a cidade de Wuhan, na China, começaram a surgir, o temor de sua propagação em âmbito global caminhava lado a lado com certa descrença, sobretudo de autoridades de diversos países. A rápida disseminação do novo Coronavírus (Covid-19) instaurou medo e caos nos quatro cantos do planeta, inclusive na Europa, que, hoje, é o epicentro da pandemia.

 

Ainda sem tratamento específico, a Covid-19 transformou a rotina e a paisagem de cidades em cenários que remetem automaticamente aos de filmes de ficção-científica cujas tramas abordam a tentativa de sobrevivência da raça humana num cenário pós-apocalíptico. Neste ponto, há quem diga que os roteiristas, não apenas de Hollywood, atuaram como videntes, considerando o vasto catálogo do subgênero chamado de cinema catástrofe. Enquanto a realidade oferece o choque e a insegurança outrora pertencentes às produções cinematográficas, a população se une num momento no qual sacrifícios e privações individuais se tornam necessários pelo bem, saúde, segurança e vida de todos.

 

Muitos países decretaram quarentena, permitindo o funcionamento somente de serviços essenciais, como supermercados e farmácias. Com isso, outros setores da economia estão sentindo os efeitos colaterais da pandemia, entre eles, o cinema, que teve filmagens interrompidas e lançamentos adiados por tempo indeterminado, dentro e fora de Hollywood, causando demissões. Além disso, o fechamento das salas de exibição está preocupando executivos, sobretudo nos Estados Unidos, porque elas são as responsáveis pelo lucro que mantém as engrenagens da indústria funcionando. Criadas como espaços de socialização, algo que todos precisam evitar em tempos tão difíceis, as salas nunca fecharam em massa. Nem mesmo durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), quando os mercados europeus e asiáticos foram diretamente impactados pelo conflito, obrigando Hollywood a olhar para a América Latina, no movimento conhecido como “política da boa vizinhança”.

 

Com as salas fechadas, cinéfilos de idades e nacionalidades distintas têm como opção os serviços oferecidos por plataformas de streaming, principalmente Netflix e Amazon Prime Video – no Brasil, o Globoplay está aberto gratuitamente para ajudar a aliviar o estresse da quarentena, assim como canais da TV por assinatura. Esta movimentação dos clientes obrigou a indústria a se reinventar para amenizar o impacto econômico, como a Universal Pictures. Fundado por Carl Laemmle em 1912, o estúdio, que atualmente pertence à rede de televisão NBC, decidiu antecipar os lançamentos em Video On Demand de produções que ainda estavam em cartaz, como “A Caçada” (The Hunt – 2020), “Emma” (Idem – 2020) e “O Homem Invisível” (The Invisible Man – 2020). Outros estúdios seguiram o exemplo da Universal, “quebrando” o acordo instituído entre eles e as redes de cinema de que os títulos só chegariam ao streaming entre 70 e 90 dias após entrarem em cartaz. A Disney antecipou a animação “Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica” (Onward – 2020), e a Paramount, “Sonic – O Filme” (Sonic the Hedgehog – 2020), enquanto a Warner Bros. disponibilizará “Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa” (Birds of Prey – 2020), “Luta por Justiça” (Just Mercy – 2020) e “The Way Back” (Idem – 2020). No entanto, as companhias não confirmaram os lançamentos em VOD fora do território americano.

 

“Trolls 2” está confirmado para 08 de outubro nos cinemas brasileiros (Foto: Divulgação).

A decisão dos estúdios não gerou estresse com as redes de cinema americanas, mas outra medida da Universal causou incômodo: a de lançar “Trolls 2” (Trolls World Tour – 2020), novo fruto da parceria com a DreamWorks Animation, em VOD nos Estados Unidos em 10 de abril, simultaneamente com as salas, caso estejam abertas – a companhia afirmou que o longa entrará em cartaz no Brasil em 08 de outubro. “Para os distribuidores que tinham filmes em exibição nos cinemas quando precisamos fechar, entendemos perfeitamente que eles precisariam acelerar seus lançamentos domésticos. Eles já haviam colocado esses filmes nos cinemas, mas os cinemas precisavam ser fechados; portanto, eles fizeram movimentos mais rápidos em casa para tentar monetizar esses filmes e dar às pessoas algo para assistir em casa durante essa crise. ‘Trolls 2’ é uma história muito diferente. Para todos os filmes que estavam agendados para lançamento em abril e maio, todos os outros distribuidores anunciaram adiamentos. Mas eles ainda pretendem lançar filmes com atraso nos cinemas. Alguns desses adiamentos têm novas datas específicas. E alguns foram adiados por datas não especificadas… Todos os outros estúdios demonstraram sua crença de que o modelo das salas de exibição ainda é essencial para seus negócios, apenas tiveram que adiar as datas de lançamento por causa do vírus”, disse John Fithian, presidente da National Association of Theatre Owners, ao The Hollywood Reporter, completando que as redes não estarão com as portas abertas em 10 de abril e que os “exibidores não esquecerão isso”.

 

Com o seu centro de produção paralisado, Hollywood começa a se preocupar também com a próxima temporada de premiações, que certamente sentirá os efeitos da pandemia, uma vez que o calendário das estreias está completamente alterado. E isto poderá afetar o Oscar 2021, agendado para 28 de fevereiro, por causa das regras de elegibilidade da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS), principalmente a de que o filme precisa ficar em cartaz comercialmente em Los Angeles por pelo menos uma semana. Neste ponto, os títulos que poderão sofrer com mais intensidade os impactos da crise são os independentes, que não têm o orçamento das produções dos grandes estúdios para que possam bancar suas respectivas campanhas rumo ao palco do Dolby Theatre, e todos aqueles produzidos fora dos Estados Unidos, que lutarão por uma vaga entre os finalistas ao Oscar de melhor filme internacional.

 

David Rubin na 8a edição do Governors Awards, em 12 de novembro de 2016 (Foto: Divulgação / Crédito: Richard Harbaugh – ©A.M.P.A.S.).

“A Academia está focada em ajudar nossa equipe, nossos membros e o setor a navegar com segurança por essa crise econômica e de saúde global. Estamos no processo de avaliar todos os aspectos desse cenário incerto e quais mudanças podem precisar ser feitas. Temos o compromisso de ser ágeis e com visão de futuro”, disse a AMPAS em nota oficial, afirmando que tem discutido o futuro do setor e que fará novos anúncios em breve.

 

Na última sexta-feira, dia 20, a Academia informou aos seus membros que eles terão mais tempo para indicar nomes para apreciação e posterior convite para integrar o quadro. Agora, os integrantes da AMPAS têm até o próximo dia 03 para o envio de suas indicações. De acordo com o The Hollywood Reporter, o presidente David Rubin pediu que seus colegas ajudem uns aos outros neste momento de crise: “Agora é a hora dos membros da Academia cuidarem uns dos outros. Todos sabemos o trabalho em equipe necessário para fazer um filme. Essa mesma solidariedade nos ajudará a superar isso. Continue a reservar um tempo para conversar com os colegas, para saber sobre o bem-estar deles e para oferecer assistência da maneira que for possível”.

 

Enquanto a AMPAS analisa o cenário de restrições impostas pela pandemia, a organização do Festival de Cannes anunciou seu adiamento. Inicialmente previsto para ser realizado entre os dias 12 e 23 de maio, o evento, um dos mais conceituados do cinema mundial, ainda não tem nova data definida, mas os organizadores esperam remarcá-lo para o final de junho, início de julho.

 

O setor também enfrenta dificuldades no Brasil, adiando estreias e fechando inúmeras salas, inclusive por decreto de governadores. No Rio, onde o funcionamento das salas foi interrompido há pouco mais de uma semana, as principais redes, Kinoplex e Cinemark, adotaram medidas distintas. Enquanto a primeira deu férias coletivas aos seus funcionários, a segunda deu como opções a adesão ao Plano de Demissão Voluntária (PDV) ou ao Programa de Qualificação Profissional Remunerado, de acordo com a Revista Veja.

 

Ainda é cedo para tentar dimensionar os efeitos da pandemia sobre a indústria hollywoodiana, englobando também a televisão, a longo prazo, pois a luta contra o novo Coronavírus está apenas começando. É um inimigo invisível que paralisou Hollywood, e o mundo, como jamais visto.

 

Conforme dito anteriormente, este é um momento de sacrifícios e privações, pois não há tratamento específico nem vacina para o Covid-19. Por isso, a quarentena é de suma importância para a contenção do vírus. Fique em casa para o seu bem e de seus entes queridos. Saia somente se não tiver outra opção.

 

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