Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Oscar 2020: Hollywood, ‘Parasita’ e streaming

Equipe de “Parasita” comemora a vitória no Oscar 2020 (Foto: Divulgação – Crédito: Blaine Ohigashi / ©A.M.P.A.S.).

Na noite do último domingo, dia 09, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) realizou a 92a cerimônia de entrega do Oscar. Mais uma vez, a instituição buscou se manter longe das polêmicas que a assombram desde o chamado “#OscarSoWhite” (“Oscar tão branco”, uma tradução literal), em 2016. Para isto, organizou a maior festa do cinema mundial tendo representatividade, diversidade e inclusão como temas que dominariam a noite. E dominaram.

 

Nesta edição, as categorias principais do Oscar colocaram a AMPAS novamente no olho do furacão, pois dentre os indicados havia somente uma atriz negra. Na disputa de melhor direção, um cineasta asiático, Bong Joon-ho, e nenhuma mulher. Isto acarretou uma enxurrada de críticas, mesmo que ignorando o fato de que a Academia reflete a atual situação da indústria cinematográfica hollywoodiana, que está tentando se adequar às novas exigências da sociedade num processo tardio e gradativo.

 

Mas este ano, a Academia tinha a seu favor títulos de peso, inclusive um que chamou os holofotes para si na última edição do Festival de Cannes ao deixar a Croisette com a Palma de Ouro: “Parasita” (Gisaengchung – 2019, Coreia do Sul), longa que vai virar minissérie da HBO e tem Mark Ruffalo como o nome mais cotado para protagonizá-la, de acordo com o Collider. Produzido, dirigido e roteirizado por Bong Joon-ho, o longa sul-coreano leva às telas temas sérios e urgentes com humor, mas de maneira a colocar todos os elementos numa panela de pressão, permitindo que o drama e o suspense ganhem espaço na narrativa até a explosão do ato final, que bebe um pouco da fonte de Quentin Tarantino. Isto se dá graças ao roteiro engenhoso que contrapõe riqueza e miséria numa estética rebuscada, trabalhando a metáfora de superfície versus subsolo com propriedade.

 

O sul-coreano Bong Joon-ho e as quatro estatuetas recebidas por “Parasita” (Foto: Divulgação – Crédito: Jeff Lipsky / ©A.M.P.A.S.).

O retrato tragicômico da desigualdade social na Coreia do Sul deixou sua marca registrada na História da AMPAS ao se tornar o primeiro longa-metragem de língua não-inglesa a receber a estatueta do Oscar de melhor filme, levando, ainda, as de direção, roteiro original e filme internacional. A vitória de “Parasita”, merecida numa disputa muito acirrada, foi uma maneira de a Academia abafar as críticas dos últimos anos acerca da falta de representatividade, inclusão e diversidade. Neste contexto, era o filme certo no momento ideal, transmitindo a mensagem de que Hollywood olha além de seu centro de produção e pode, sim, consagrar títulos internacionais.

 

Além disso, a filmografia de Bong Joon-ho conta com dois outros longas-metragens bem recebidos pela crítica e de elencos internacionais: “Expresso do Amanhã” (Snowpiercer – 2013) e “Okja” (Idem – 2017). Estes filmes ajudaram a pavimentar o caminho do cineasta e de “Parasita” rumo ao palco do Dolby Theatre, permitindo que um dos termômetros da categoria principal, o Actor de melhor elenco no SAG Awards, concedido pelo Sindicato dos Atores dos Estados Unidos (Screen Actors Guild – SAG), prevalecesse em detrimento dos principais indicativos do prêmio, o The Darryl F. Zanuck Award no PGA Awards, do Sindicato dos Produtores dos Estados Unidos (Producers Guild of America – PGA), e o Globo de Ouro de melhor filme de drama, da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (Hollywood Foreign Press Association – HFPA).

 

Este movimento da Academia para expandir seu olhar para o mercado internacional não é novidade, mas nunca havia acontecido nesta intensidade. Nem mesmo no ano passado, quando “Roma” (Idem – 2018), de Alfonso Cuarón, liderou a corrida com 10 indicações ao lado de “A Favorita” (The Favourite – 2018), de Yorgos Lanthimos. O DNA mexicano de “Roma” parecia ideal para a instituição, sobretudo no contexto político no qual o reconhecimento ao longa surgia como uma espécie de manifesto da indústria contra o governo do presidente Donald Trump e suas controversas medidas migratórias, dentre elas, a construção de um muro na fronteira entre Estados Unidos e México.

 

Vencedor das estatuetas de melhor direção, fotografia e filme estrangeiro (hoje, filme internacional), “Roma” teve como obstáculo o fato de ser uma produção original Netflix, algo que divide a comunidade hollywoodiana e, consequentemente, a Academia. E isto impediu sua consagração como melhor filme no Oscar 2019, problema este que “Parasita” não precisou enfrentar.

 

Laura Dern venceu a estatueta de melhor atriz coadjuvante por “História de um Casamento”, da Netflix (Foto: Divulgação – Crédito: Phil McCarten / ©A.M.P.A.S.).

 

 

A questão do streaming também tomou conta da temporada de premiações que se encerrou com a cerimônia do Oscar no último domingo. Principal plataforma digital, a Netflix totalizou 24 indicações nesta edição, mas faturou apenas duas estatuetas: melhor atriz coadjuvante para Laura Dern por “História de um Casamento” (Marriage Story – 2019) e documentário para “Indústria Americana” (American Factory – 2019).

 

Maior aposta da Netflix, “O Irlandês” (The Irishman – 2019) concorreu a 10 estatuetas, mas saiu sem nenhuma, o que demonstra o enfraquecimento de tais produções, chamadas de telefilmes por diversos profissionais, inclusive integrantes do Conselho Diretor da AMPAS, como Steven Spielberg, que liderou uma campanha por regras de elegibilidade mais rígidas no ano passado. Isto traz novamente à tona a discussão sobre a necessidade de se criar uma categoria específica para títulos produzidos por e para plataformas de streaming, separando-os daqueles oriundos de estúdios tradicionais ao menos na categoria de melhor filme. E esta discussão tem como principal ponto o fato de que muitos profissionais consideram as plataformas uma ameaça ao modelo tradicional de cinema, ou seja, à experiência da sala de exibição cujo lucro obtido pela venda de ingressos é necessário para a manutenção da indústria.

 

Outro fator que aumenta a discussão em torno da participação de plataformas de streaming em premiações também envolve a questão financeira, pois, segundo divulgado na imprensa americana no ano passado, as companhias não pagam as mesmas taxas e impostos que os estúdios tradicionais e, portanto, podem gastar o dinheiro economizado não apenas em outras produções, mas em campanhas como a do Oscar. Isto tem incomodado executivos de estúdios, sobretudo após a adesão da Netflix à Motion Picture Association of America (MPAA), que pressiona para que todos sigam as mesmas regras, inclusive no que tange à transparência dos números.

 

Indicado por “O Irlandês”, Martin Scorsese na cerimônia do Oscar 2020 (Foto: Divulgação – Crédito: Valerie Durant / ©A.M.P.A.S.).

 

No entanto, a derrota de “O Irlandês” também se deve em parte aos comentários de seu realizador, Martin Scorsese, sobre os filmes de heróis, sem citar DC nem Marvel, que pertence à Disney, proprietária, também, da ABC, emissora que detém os direitos de transmissão da cerimônia do Oscar nos Estados Unidos. Estas produções são responsáveis pela maior parcela de lucro do cinema contemporâneo, mantendo a indústria de pé, sobretudo as do Universo Cinematográfico da Marvel (UCM), e foram chamadas de “parques temáticos” por Scorsese em entrevista concedida à revista Empire no ano passado, durante a promoção do longa da Netflix. A crítica do cineasta não foi bem recebida em Hollywood e, no decorrer da temporada de premiações, ficou claro que ela havia exercido influência sobre os votantes de diversas instituições, pois “O Irlandês” começou a temporada com o status de favorito.

 

Cynthia Erivo se apresenta com a foto de Harriet Tubman no telão (Foto: Divulgação – Crédito: Blaine Ohigashi / ©A.M.P.A.S.).

 

A AMPAS realizou uma cerimônia de tom inclusivo, tecendo críticas a ela própria por meio de seus apresentadores, que a todo instante lembraram a falta de representatividade na História da instituição, não apenas nesta edição. O tom de autocrítica ficou óbvio nos primeiros minutos, ainda durante a performance de Janelle Monáe, e foi um acerto da instituição, que, dentre outras coisas, prestou homenagem à Harriet Tubman ao mostrar sua imagem no telão durante a apresentação musical de Cynthia Erivo, indicada ao Oscar de melhor atriz por interpretar a ex-escrava e ativista em “Harriet” (Idem – 2019). Porém, os produtores derraparam ao convidar Shia LaBeouf para entregar o prêmio de melhor curta em live-action ao lado de Zack Gottsagen, ator que entrou para a História como o primeiro apresentador com Síndrome de Down do Oscar. Esnobado pela Academia por “Honey Boy” (Idem – 2019), filme inspirado na sua vida, LaBeouf demonstrou impaciência para com o colega, com quem contracenou em “O Falcão Manteiga de Amendoim” (The Peanut Butter Falcon – 2019), e recebeu inúmeras críticas.

 

No fim das contas, a comunidade hollywoodiana fez o jogo certo, mexendo suas peças em prol do futuro, num cenário no qual a indústria necessita de projetos originais e criativos que sejam sinônimo de excelência, algo oferecido por Bong Joon-ho. Tudo isso, transmitindo a mensagem de manutenção das salas de exibição, que representam tradição ao mesmo tempo em que geram o lucro necessário para manter as engrenagens da indústria funcionando a pleno vapor.

 

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