Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Especial Oscar 2021

A 93a edição da cerimônia de entrega do Oscar será realizada no dia 25 de abril de 2021 (Foto: Divulgação – Crédito: Richard Harbaugh / ©A.M.P.A.S.).

O Oscar 2021 é o mais diverso e inclusivo da História (Foto: Divulgação – Crédito: Krislam Chin / ©A.M.P.A.S.).

No próximo domingo, dia 25, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) realizará a 93a cerimônia de entrega do Oscar, mas em múltiplas locações, dentro e fora dos Estados Unidos. Como se trata do prêmio mais cobiçado do cinema mundial, um especial com análises das categorias principais (melhor filme, direção, ator, atriz, ator coadjuvante e atriz coadjuvante) e um pequeno perfil de seus indicados será publicado ao longo da semana, começando nesta segunda-feira, dia 19, pela categoria de melhor atriz coadjuvante.

 

Inicialmente agendada para 28 de fevereiro deste ano, a cerimônia do Oscar 2021 foi adiada para o próximo dia 25 em decorrência da pandemia do novo coronavírus, que interrompeu as atividades dos centros de produção e fechou salas de exibição em diversos países, impactando diretamente o cronograma de estreias, que continua sofrendo com adiamentos, pois a situação ainda não está sob controle, mesmo nas nações nas quais a população está sendo vacinada em massa, como os Estados Unidos, por exemplo.

 

Os adiamentos em efeito dominó influenciaram diretamente a temporada de premiações, pois produções de peso foram retiradas do cronograma e ainda não chegaram ao circuito, concedendo mais espaço aos títulos “menores” que insistiram em manter o lançamento comercial e, principalmente, aos lançamentos das plataformas digitais, que também receberam filmes produzidos por estúdios tradicionais após acordos milionários de exibição, como por exemplo, “Os 7 de Chicago” (The Trial of the Chicago 7 – 2020), fruto da parceria entre a Paramount Pictures e a DreamWorks SKG, lançado pela Netflix em outubro do ano passado. Neste caso específico, mais do que a aguardada temporada que chega ao fim com a cerimônia do Oscar, o longa de Aaron Sorkin precisava ser exibido em 2020 por seu contexto histórico e político, chegando à gigante do streaming no período que antecedeu a eleição à presidência dos Estados Unidos, que deu a Joe Biden a vitória sobre Donald Trump.

 

Produzido pela DreamWorks SKG e pela Paramount Pictures, “Os 7 de Chicago” estreou diretamente na Netflix (Foto: Divulgação).

 

Este efeito dominó, que segue a pleno vapor em 2021, acarretou o afrouxamento das regras de elegibilidade do Oscar pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS). A decisão foi tomada pelo Conselho Diretor da instituição em abril do ano passado, tornando elegíveis títulos lançados diretamente no streaming sem a necessidade de exibição comercial em Los Angeles por pelo menos sete dias consecutivos e três sessões diárias – posteriormente, a AMPAS também estendeu o prazo de elegibilidade desta edição de 31 de dezembro de 2020 para 28 de fevereiro de 2021.

 

Contudo, esta alteração da “Regra Dois, Elegibilidade” é válida somente neste Oscar e para produções que já haviam sido agendadas no circuito comercial, seguindo estritamente as seguintes regras, de acordo com o comunicado oficial da instituição: “1. O filme tem de ser disponibilizado na Academy Screening Room (plataforma de streaming da AMPAS) no prazo de 60 dias após sua exibição ou lançamento em VOD; 2. O filme deve atender a todos os outros requisitos de elegibilidade”. Ou seja, isto não significou uma abertura para quaisquer produções originais de plataformas de streaming como a Netflix e a Amazon Prime Video, por exemplo. Além disso, a Academia também decidiu que títulos comprovadamente inscritos / selecionados em festivais de cinema que foram adiados ou cancelados em decorrência da pandemia poderiam disputar uma vaga dentre os indicados ao Oscar 2021 desde que fossem disponibilizados aos membros e seguissem as outras regras de elegibilidade.

 

David Rubin na 8a edição do Governors Awards, em 12 de novembro de 2016 (Foto: Divulgação / Crédito: Richard Harbaugh – ©A.M.P.A.S.).

“A Academia acredita firmemente que não há maneira melhor de experimentar a magia dos filmes do que assisti-los na sala de exibição. Nosso compromisso com isso é inalterado e inabalável. No entanto, a pandemia historicamente trágica do COVID-19 exige esta exceção temporária à elegibilidade de nossos prêmios. A Academia apoia nossos membros e colegas durante este período de incerteza. Reconhecemos a importância de seu trabalho ser visto e comemorado, especialmente agora, quando o público aprecia filmes mais do que nunca”, afirmaram o presidente da Academia, David Rubin, e o CEO Dawn Hudson, em comunicado oficial à época, reiterando que tal mudança perderia validade a partir da reabertura dos cinemas, seguindo os critérios e diretrizes do governo para garantir a segurança do espectador.

 

Mas a opção de disponibilizar títulos na Academy Screening Room, criada em 2019 para facilitar o processo de votação, uma vez que a instituição adicionou membros de diversas nacionalidades, sobretudo após o Oscar 2016, chamado de #OscarSoWhite (“Oscar tão branco”, numa tradução literal), gerou fortes críticas à AMPAS por parte de concorrentes e integrantes. Desconsiderando o fato de que parte dos membros com direito a voto assiste aos filmes em casa desde a criação e popularização das fitas VHS e do posterior envio de DVD’s e blu-ray’s por parte dos distribuidores, tais profissionais alegaram, entre outras coisas, distrações inerentes ao ambiente domiciliar, manifestando sua preocupação principalmente em relação às categorias técnicas, como som, por exemplo, pois os sistemas domésticos não têm a mesma qualidade daqueles utilizados nas salas de exibição.  o que, segundo eles, poderia comprometer o julgamento dos votantes em produções que têm na técnica um complemento imprescindível da narrativa, agregando valor à obra analisada.

 

Esta foi a primeira polêmica em torno da cerimônia deste ano, que será realizada em locações distintas, tendo a Union Station e o Dolby Theatre, ambas em Los Angeles, como principais palcos – segundo o The Hollywood Reporter, a Union Station sediará a cerimônia propriamente dita, com rodízio de pessoas na plateia no decorrer do evento, que contará com equipe de desinfecção; e o complexo do tradicional teatro ficará com os números musicais, previamente gravados para serem exibidos no pré-show especial “Oscars: Into the Spotlight”, apresentado pelos atores Ariana DeBose e Lil Rel Howery – “Húsavík (My Home Town)”, de “Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars” (Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga – 2020), é a única canção cuja performance não será gravada no complexo Dolby, mas em Húsavík, Islândia. Ainda de acordo com a publicação, a Academia também está produzindo um pós-show, chamado de “Oscars: After Dark”, que exibirá os melhores momentos da cerimônia.

 

Área externa do Dolby Theatre durante  o Oscar 2020 (Foto: Divulgação – Crédito: Troy Harvey / ©A.M.P.A.S.).

 

A insistência em manter a cerimônia no formato presencial em meio à pandemia causou uma enxurrada de críticas, pois, dentre os indicados, há pessoas que integram o grupo de risco da Covid-19 e teriam, inevitavelmente, de se expor, alguns deles até mesmo em longas viagens, para que pudessem comparecer ao Oscar. Com isso, os produtores da cerimônia, Jesse Collins, Stacey Sher e Steven Soderbergh, decidiram buscar outras locações, mas apenas o BFI Southbank e o estúdio do Canal Plus, respectivamente em Londres (Inglaterra) e Paris (França), foram confirmados até o momento, segundo o The Hollywood Reporter e a Variety.

 

A recusa tanto da Academia quanto dos produtores da cerimônia em realizar um evento híbrido ou totalmente remoto, como tem acontecido em premiações de outras instituições, como a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (Hollywood Foreign Press Association – HFPA), implica numa logística complicada, considerando não apenas a enorme diferença de fuso horário entre a costa oeste americana e a Europa, onde será madrugada de 26 de abril, mas também os protocolos de segurança rígidos que terão de ser seguidos por todos os envolvidos (equipe, apresentadores, indicados e acompanhantes, um para cada apresentador e/ou concorrente – acompanhantes não serão permitidos em Paris, onde as medidas restritivas estão mais severas, proibindo, inclusive, comidas e bebidas) – somente as entrevistas com os vencedores serão remotas, ou seja, não haverá sala de imprensa, segundo comunicado emitido pela instituição há algumas semanas. De acordo com o The Hollywood Reporter, a AMPAS tem trabalhado sob a consultoria do Dr. Erin Bromage, médico e professor da Universidade de Massachusetts, Dartmouth, que segue as orientações das autoridades de Los Angeles, sobretudo no que tange à quarentena. Obrigatória a todos os participantes do Oscar, a quarentena poderá ser reduzida se a pessoa tiver viajado de classe executiva ou primeira classe, estiver vacinada e/ou trabalhando sob forte esquema de segurança para a Covid-19, chamado de “bolha”.

 

Segundo a Variety, em 06 de abril deste ano, todos os envolvidos na cerimônia, inclusive indicados e convidados, serão classificados como trabalhadores essenciais, levando em consideração os protocolos instituídos para produções cinematográficas e televisivas e, para os produtores, o Oscar deste ano se enquadra na primeira. Esta classificação, ainda de acordo com a Variety, permitirá o deslocamento de cada indivíduo, que, além da quarentena obrigatória (iniciada em 17 de abril para quem viajou de países com altos índices de casos e óbitos, e começando no próximo dia 20 para residentes / viajantes dos Estados Unidos e países com índices menores. Na Inglaterra, a quarentena é de 10 dias para todos os estrangeiros), terá de passar por pelo menos três testes para Covid-19, sendo dois deles de PCR, na semana que antecede o evento.

 

Chadwick Boseman e Viola Davis são os protagonistas de “A Voz Suprema do Blues” (Foto: Divulgação / Crédito: Netflix).

Apesar das polêmicas impostas pelo cenário pandêmico, a Academia conseguiu fugir do olho do furacão das críticas que a assombram há anos no que diz respeito a questões como representatividade, diversidade e inclusão. E no que tange à lista de indicados, a mais diversa e inclusiva da História, pode-se dizer que a instituição fez o dever de casa, tendo a pandemia como facilitadora, não por oportunismo, que fique bem claro, mas por conta das circunstâncias, uma vez que a Covid-19 afetou diretamente o cronograma de estreias e, consequentemente, a atual temporada, conforme citado acima. E isto provavelmente se repetirá nos resultados do próximo domingo, pois este promete ser o Oscar mais comprometido com representatividade em relação aos vencedores – entre os 20 atores, principais e coadjuvantes, indicados, seis são negros (Viola Davis, Andra Day, Leslie Odom Jr., Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield e Chadwick Boseman, este último, postumamente), dois são de origem asiática (Steven Yeun e Youn Yuh-jung) e um de descendência de paquistanesa (Riz Ahmed).

 

Esta preocupação por representatividade e inclusão também fica nítida na categoria de melhor direção, que, pela primeira vez na História, tem duas mulheres competindo: a britânica Emerald Fennell e a chinesa Chloé Zhao, primeira mulher de origem asiática a disputar esta categoria, que tem outro descendente de asiáticos concorrendo, Lee Isaac Chung – os outros dois diretores nomeados ao Golden Boy são David Fincher e o dinamarquês Thomas Vinterberg.

 

Favorita à estatueta de melhor direção, Chloé Zhao pode levar o prêmio principal, de melhor filme, por “Nomadland” (Idem – 2020), que é o título mais forte da disputa por ter vencido dois dos principais indicativos desta categoria, o Globo de Ouro e o PGA Award, concedidos, respectivamente, pela HFPA e pelo Sindicato dos Produtores dos Estados Unidos (Producers Guild of America – PGA). “Nomadland” rendeu à cineasta quatro indicações ao Oscar: filme, direção, edição (montagem) e roteiro adaptado. Caso vença as quatro, Zhao empatará com Walt Disney como a pessoa que recebeu mais prêmios numa única noite, mas com a ressalva de que o criador do Mickey Mouse ganhou por títulos distintos em 1954 – o longa “O Deserto Vivo” (The Living Desert – 1953) e os curtas “The Alaskan Eskimo” (Idem – 1953), “Bear Country” (Idem – 1953) e “Toot Whistle Plunk and Boom” (Idem – 1953). E se receber apenas três Golden Boys, Zhao se tornará a segunda mulher a repetir tal feito numa única edição, empatando com Fran Walsh por “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” (The Lord of the Rings: The Return of the King – 2003).

 

A cineasta Chloé Zhao e a atriz Frances McDormand no set de “Nomadland” (Foto: Divulgação).

 

Apelidada de Oscar do streaming, a cerimônia poderá não ser totalmente do streaming porque “Nomadland” não é produzido nem distribuído por nenhuma plataforma digital, mas pela Searchlight Pictures, que pertence à Walt Disney Studios. Se este favoritismo se concretizar no próximo domingo, as plataformas que há tempos sonham com a estatueta principal, sobretudo a Netflix, que não economiza para atingir seu objetivo e tem batido na trave com frequência, levarão um “banho de água fria”, pois o resultado servirá para demonstrar a força dos estúdios junto à Academia, prevalecendo o modelo tradicional de cinema, afetado pela crise econômica oriunda da sanitária. Este recado será dado até mesmo se o vencedor for “Os 7 de Chicago”, concebido para a tela grande e lançado pela Netflix, conforme dito anteriormente.

 

É importante lembrar que, durante a reunião do Conselho Diretor, realizada em abril do ano passado, a AMPAS optou por unificar as categorias de mixagem de som e edição de som. Agora, o prêmio entregue será o de melhor som, reconhecendo o esforço de toda a equipe. Com isso, o número de categorias do Oscar cai de 24 para 23.

 

Na última segunda-feira, dia 12, a Academia divulgou a primeira uma lista de apresentadores confirmados, mas sem especificar em quais locações cada um deles estará. Entre eles, Angela Bassett, Bong Joon-Ho, Don Cheadle, Laura Dern, Regina King, Marlee Matlin, Joaquin Phoenix, Brad Pitt, Reese Witherspoon, Renée Zellweger e Zendaya.

 

No Brasil, a 93ª cerimônia de entrega do Oscar será transmitida ao vivo pelo canal por assinatura TNT e pela Rede Globo (após o “Big Brother Brasil”).

 

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