Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Oscar 2021: pandemia, streaming e diversidade

A 93a edição do Oscar será realizada em 25 de abril (Foto: Divulgação / Crédito: Krislam Chin – The Academy).

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) divulgou na última segunda-feira, dia 15, a lista de indicados mais diversa e inclusiva da História do Oscar. Sem informar muitos detalhes sobre a cerimônia, que, este ano, será realizada em duas locações distintas, o Dolby Theatre e a Union Station, ambas em Los Angeles, com testes de PCR e poucos convidados (apresentadores, indicados e um acompanhante, cada) em virtude da pandemia de Covid-19, a instituição refutou a possibilidade de evento remoto, alegando queda das taxas de contágio e transmissão nos Estados Unidos, antigo epicentro da crise sanitária e, por que não dizer, humanitária, após o início da vacinação em massa da população, o que permitiu o retorno gradual de atividades em todo o país – apenas as entrevistas com os vencedores serão remotas, ou seja, não haverá sala de imprensa, segundo comunicado emitido pela Academia.

 

Agendada para 25 de abril, a cerimônia do Oscar 2021 promete cumprir o “dever de casa” no que tange à pauta inclusiva, principalmente nas categorias principais, algo pleiteado há tempos. Contudo, não é incorreto afirmar que a AMPAS atingiu sua meta acerca de questões que a incomodam desde que se viu no olho do furacão em 2016, no chamado “#OscarSoWhite” (“Oscar tão branco”, numa tradução literal), tendo a pandemia como facilitadora, não por oportunismo, que fique bem claro, mas por conta das circunstâncias, uma vez que a Covid-19 interrompeu as atividades dos centros de produção e das salas de cinema ao redor do globo, causando adiamentos e cancelamentos de estreias em efeito dominó. E, obviamente, isto se refletiu na atual temporada de premiações, que tem como alguns destaques títulos produzidos por e para o streaming, fonte primária de entretenimento seguro desde o início do caos e terror impostos pelo novo coronavírus.

 

Sem títulos de peso dos estúdios tradicionais dominando o circuito exibidor em 2020, as plataformas digitais ganharam força na corrida pelo Oscar 2021, potencializando a eterna discussão acerca da manutenção do modelo tradicional de cinema, calcado na experiência proporcionada pela tela grande e, também, pelas salas enquanto locais de socialização. Num primeiro momento, a sensação era de colapso iminente do cinema como o conhecemos, temor que aumentou consideravelmente quando a Universal Pictures quebrou a janela de exibição e lançou “Trolls 2” (Trolls World Tour – 2020) em PVOD nos Estados Unidos em maio do ano passado, algo que outros estúdios também aderiram posteriormente. Mas existe um fator que não foi considerado à época: o cinema é um meio de comunicação capaz de se adaptar para garantir a própria sobrevivência. Foi assim com a chegada e popularização da televisão, do videocassete e dos sites de downloads ilegais de filmes. E será assim com o streaming, sobretudo no cenário pós-pandêmico, quando a população estiver sedenta pela retomada de antigos hábitos culturais e de consumo – ao menos a parcela que tem respeitado o isolamento social e os protocolos de segurança da Organização Mundial de Saúde (OMS), saindo de casa apenas para atividades essenciais, como trabalho, por exemplo.

 

Produzido pela DreamWorks SKG e pela Paramount Pictures, “Os 7 de Chicago” estreou diretamente na Netflix (Foto: Divulgação).

 

Com isso, produções originais do streaming ou distribuídas por tais plataformas, como “Os 7 de Chicago” (The Trial of the Chicago 7 – 2020), fruto da parceria entre a Paramount Pictures e a DreamWorks SKG, que teve seu direito de exibição vendido para a Netflix, entraram na disputa sem a polêmica dos anos anteriores, inclusive possibilitando maior visibilidade às minorias. Isto pode ser observado com mais afinco nas categorias destinadas a atores, principais e coadjuvantes, que refletem tanto a “invasão” das plataformas digitais quanto a preocupação com questões como representatividade, diversidade e inclusão.

 

Cada uma das quatro categorias de atores contém três indicados por filmes que estrearam diretamente nas plataformas digitais – Netflix, Amazon e Hulu. Além disso, dentre os 20 indicados, seis são negros (Viola Davis, Andra Day, Leslie Odom Jr., Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield e Chadwick Boseman, este último, postumamente), dois são de origem asiática (Steven Yeun e Youn Yuh-jung) e um de descendência de paquistanesa (Riz Ahmed).

 

Na corrida pelo Oscar de melhor direção também fica nítida a preocupação da AMPAS com as questões citadas acima, pois, pela primeira vez na História, duas mulheres disputam a estatueta: Emerald Fennell e Chloé Zhao, também de origem asiática, como seu adversário Lee Isaac Chung – Fennell e Zhao ainda concorrem ao prêmio de melhor roteiro, original e adaptado, respectivamente. Os outros dois diretores nomeados ao Golden Boy são David Fincher e o dinamarquês Thomas Vinterberg.

 

Apelidada de Oscar do streaming, a 93a edição do Oscar pode desagradar profissionais que consideram telefilmes os títulos originais do streaming e, portanto, se posicionam de forma contrária à sua candidatura, mas deixa a AMPAS numa situação confortável no que diz respeito às novas demandas da sociedade, que colocaram a indústria do entretenimento, e a própria Academia, contra a parede há alguns anos. Não há como saber se isto será uma tendência nas próximas edições, pois isto apenas o tempo poderá dizer, principalmente pelas mudanças internas, inclusive em regras de elegibilidade, implementadas pela instituição, que também deseja recuperar a audiência da maior festa da comunidade hollywoodiana. Mas, no momento, representa a calmaria tão sonhada pela Academia.

 

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