Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Chadwick Boseman Forever

“Pantera Negra” se tornou o principal exemplar de representatividade do cinema comercial em 2018 (Foto: Divulgação).

A notícia da morte precoce de Chadwick Boseman na última sexta-feira, dia 28, em decorrência de câncer de cólon aos 43 anos de idade, pegou a todos de surpresa. Diagnosticado na mesma época em que sua carreira deslanchou de fato, o ator se tornou exemplo para milhões de pessoas mundo afora, sobretudo por dar vida ao super-herói negro que hoje é um dos pilares do Universo Cinematográfico da Marvel (UCM): T’Challa / Pantera Negra. Hoje, não é possível dissociar o ator do personagem.

 

Desde a confirmação de sua morte, Chadwick Boseman tem recebido inúmeras homenagens, inclusive de seus colegas de elenco do UCM, que se manifestaram em suas respectivas redes sociais, destacando a grandeza e o talento do homem por trás do personagem. “Você fará falta e nunca será esquecido. Descanse no poder e na paz, meu amigo”, disse Brie Larson, Carol Danvers / Capitã Marvel. “Tudo o que tenho a dizer é que as tragédias acumuladas este ano só se tornaram mais profundas com a perda de #ChadwickBoseman. Que homem e que talento imenso. Irmão, você foi um dos grandes de todos os tempos e sua grandeza estava apenas começando”, afirmou Mark Ruffalo, Bruce Banner / Hulk, completando, “Descanse no poder, Rei”.

 

“A morte de Chadwick é absolutamente devastadora. Ele era nosso T’Challa, nosso Pantera Negra e nosso querido amigo. Cada vez que ele pisava no set, irradiava carisma e alegria, e cada vez que aparecia na tela, ele criava algo verdadeiramente indelével. Ele incorporou muitas pessoas incríveis em seu trabalho, e ninguém era melhor em dar vida a grandes homens. Ele era tão inteligente, gentil, poderoso e forte quanto qualquer pessoa que retratou. Agora ele ocupa seu lugar ao lado deles como um ícone para todos os tempos. A família Marvel Studios lamenta profundamente sua perda, e estamos de luto esta noite com sua família”, disse Kevin Feige, presidente da Marvel.

 

A estreia no UCM aconteceu em “Capitão América: Guerra Civil” (Captain America: Civil War – 2016), quando Boseman já havia interpretado duas personalidades que abriram portas para negros nos Estados Unidos, quebrando a vergonhosa barreira do preconceito racial: o primeiro jogador de baseball afro-americano Jackie Robinson e o cantor James Brown em “42: A História de uma Lenda” (42 – 2013) e “Get on Up: A História de James Brown” (Get on Up – 2014), respectivamente. Dirigido por Anthony e Joe Russo, o ator se destacou logo em suas primeiras cenas como o então Príncipe T’Challa / Pantera Negra, da fictícia Wakanda, que inicialmente se opôs a Steve Rogers / Capitão América (Chris Evans), aliando-se a Tony Stark / Homem de Ferro (Robert Downey Jr.). Com o público conquistado, Chadwick Boseman surgiu imponente no filme solo do personagem, “Pantera Negra” (BlackPanther – 2018), que será exibido na faixa “Tela Quente”, da Rede Globo, nesta segunda-feira, dia 31, após a novela “Fina Estampa” (2011).

 

“Pantera Negra” é grande sucesso de público e crítica (Foto: Divulgação).

Com direção de Ryan Coogler, “Pantera Negra” mostra T’Challa assumindo o trono de Wakanda após a morte de seu pai, o Rei T’Chaka (John Kani), na explosão do prédio da ONU, mostrada em “Capitão América: Guerra Civil”. Cumprindo todo o ritual de coroação, o novo Rei vive o dilema de manter a tradição para proteger o país e seu povo ou dividir com o mundo seus conhecimentos e sua maior riqueza: o metal vibranium. Mas a caçada por um antigo inimigo o coloca diante de uma ameaça ainda maior: o renegado Erik Killmonger (Michael B. Jordan), sedento por vingança.

 

“Pantera Negra” apresenta uma trama complexa calcada em dinâmica familiar, religiosidade, importância de ancestrais e, acima de tudo, a influência de seus espíritos. Não apenas isto, o longa utiliza o passado de Killmonger para levar às telas uma discussão social, saindo da zona de conforto dos blockbusters e elevando o filão de super-herói a outro patamar, algo que pode ser observado com veemência por meio do discurso poderoso principalmente próximo ao final, quando o vilão interpretado por Michael B. Jordan fala sobre seus antepassados escravizados.

 

Grande exemplo de diversidade e representatividade na História do cinema, o filme arrecadou US$ 1,34 bilhão e se tornou a segunda maior bilheteria de 2018, de acordo com o Box Office Mojo, perdendo apenas para “Vingadores: Guerra Infinita” (Avengers: Infinity War – 2018), dirigido pelos irmãos Russo e também estrelado por Boseman. A verdade é que ninguém imaginava o quão longe “Pantera Negra” chegaria, inclusive em termos de crítica e temporada de premiações, totalizando 265 indicações, vencendo 109 prêmios, dentro e fora dos Estados Unidos. Grande vencedor do Actor de melhor elenco no SAG Awards, concedido pelo Sindicato dos Atores dos Estados Unidos (Screen Actors Guild – SAG), um dos principais termômetros do Oscar de melhor filme, “Pantera Negra” chegou ao Dolby Theatre, em Los Angeles, como um dos favoritos à estatueta mais cobiçada do cinema mundial.

 

Chadwick Boseman e Letitia Wright em cena de “Pantera Negra” (Foto: Divulgação).

 

Indicado às estatuetas de melhor filme, design de produção (Hannah Beachler e Jay Hart), figurino (Ruth E. Carter), edição de som (Benjamin A. Burtt e Steve Boeddeker), mixagem de som (Steve Boeddeker, Brandon Proctor e Peter J. Devlin), trilha sonora (Ludwig Göransson) e canção original (“All the Stars”, de Sounwave, Kendrick Lamar, Anthony Tiffith e SZA), o longa venceu apenas as de figurino, design de produção e trilha sonora original. São prêmios importantes que ganharam destaque por seus vencedores, sobretudo de figurino e design de produção, pois foram entregues a duas mulheres negras, algo inédito nestas categorias. Contudo, não é exagero afirmar que “Pantera Negra” foi vitimado pelo preconceito dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) ao filão de super-heróis, o mais lucrativo da Hollywood contemporânea, responsável por manter as engrenagens da indústria funcionando a pleno vapor, numa edição cujo resultado gerou bastante polêmica. Na última sexta-feira, a instituição se manifestou no Twitter, homenageando o ator: “Uma perda incomensurável. De ‘Pantera Negra’ a ‘Da 5 Bloods’, Chadwick Boseman trouxe força e luz para a tela, todas as vezes”.

 

A parceria com os irmãos Russo no cinema rendeu dois frutos em 2019: “Vingadores: Ultimato” (Avengers: Endgame – 2019), o filme mais lucrativo da História, US$ 2,797 bilhões, segundo o Box Office Mojo, e “Crime Sem Saída” (21 Bridges – 2019), este último dirigido por Brian Kirk e produzido por Boseman e pelos Russo. Disponível no catálogo da Amazon Prime Video, “Crime Sem Saída” entrou em cartaz no circuito comercial de forma discreta em dezembro, faturando US$ 49,9 milhões em todo o mundo.

 

Este ano, Chadwick Boseman fez uma pequena, mas importante, participação em “Destacamento Blood” (Da 5 Bloods – 2020), apontado como uma das promessas da próxima temporada de premiações. Dirigido por Spike lee, o longa sobre veteranos da Guerra do Vietnã é uma produção original Netflix, plataforma responsável pelo último filme do ator, “Ma Rainey’s Black Bottom” (George C. Wolfe – 2020). Produzido por Denzel Washington e estrelado por Viola Davis e Boseman, o filme ainda não tem data de lançamento definida, mas o evento de apresentação agendado para esta segunda-feira foi adiado pela companhia.

 

“Ele era uma alma gentil e um artista brilhante, que vai ficar conosco pela eternidade através de suas icônicas performances durante sua curta mas ilustre carreira. Deus abençoe Chadwick Boseman”, disse Washington, que financiou a faculdade de Boseman, ao The Hollywood Reporter na última sexta-feira.

 

Conciliando os sets de filmagens com cirurgias e sessões de quimioterapia sigilosas, Chadwick Boseman acabou ganhando o título de herói da vida real, pois, mesmo acometido por uma doença grave, seguiu se esforçando profissionalmente, inclusive realizando cenas de ação, para deixar seu nome no panteão da indústria cinematográfica. Com isso, o ator apenas corroborou o fato de ser um exemplo para fãs de todas as nacionalidades e idades, principalmente crianças que puderam se identificar com o personagem que o imortalizou, o Rei T’Challa.

 

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