Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Oscar 2019: a polêmica pós-cerimônia

Baseado numa história real, “Green Book – O Guia” recebeu três estatuetas, incluindo a de melhor filme (Foto: Divulgação – Crédito: Aaron Poole / ©A.M.P.A.S.).

Há anos tentando manter-se longe de polêmicas, sobretudo relacionadas aos dois temas que a colocaram no olho do furacão em 2016, diversidade e representatividade, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) se vê novamente diante de um tsunami de críticas por ter coroado “Green Book – O Guia” (Green Book – 2018) melhor filme na noite do último domingo, dia 24, em detrimento de “Infiltrado na Klan” (BlacKkKlansman – 2018).

 

Espécie de “Histórias Cruzadas” (The Help – 2011) de 2018, “Green Book – O Guia” é dirigido por Peter Farrelly, homem branco que construiu sua carreira em comédias de grande apelo popular como “Debi & Lóide: Dois Idiotas em Apuros” (Dumb and Dumber – 1994). Farrelly assina o roteiro ao lado de dois homens igualmente brancos, Brian Hayes Currie e Nick Vallelonga, filho de um dos retratados, Tony Lip Vallelonga, interpretado por Viggo Mortensen. Apesar de contar com negros no time dos produtores, como Octavia Spencer e Kwame Parker, o filme da DreamWorks tem mais brancos em sua equipe e optou por uma abordagem mais sutil que suprime a violência gráfica em prol da mensagem de transformação do indivíduo para quebrar a barreira do preconceito por meio da amizade, do amor e da coragem. Mas a trama é focada mais em Vallelonga do que em Dr. Shirley, personagem que deu a Mahershala Ali sua segunda estatueta do Oscar de melhor ator coadjuvante, o que incomodou familiares do músico que afirmaram que ele não gostaria de ver sua vida exposta na tela grande. Após o Oscar, Nick Vallelonga disse que não havia procurado a família de Shirley para respeitar um pedido do próprio pianista, que, segundo ele, antes de morrer, lhe orientou a escrever a trama da forma como foi apresentada à plateia.

 

Mahershala Ali e Viggo Mortensen são os alicerces de “Green Book – O Guia” (Foto: Divulgação).

 

Tendo como alicerces as atuações de Viggo Mortensen e Mahershala Ali, “Green Book – O Guia” derrotou “Infiltrado na Klan” num processo de votação complexo no qual cada membro envia sua lista em ordem de preferência e ganha o título que obtiver 50% dos votos mais um, algo que raramente acontece na primeira rodada, exigindo o seu prosseguimento até que algum dos indicados alcance o número necessário de votos. Ou seja, ganha aquele que menos desagradar aos votantes. Mas ninguém pode dizer que se surpreendeu com o resultado do Oscar porque a temporada americana se encaminhou de forma favorável ao filme de Farrelly, sobretudo em sua reta final, pois o longa venceu o maior indicativo da categoria principal da AMPAS, o PGA Awards, concedido pelo Sindicato dos Produtores dos Estados Unidos (Producers Guild of America – PGA).

 

“Infiltrado na Klan”: Adam Driver e John David Washington, um dos esnobados desta edição do Oscar (Foto: Divulgação).

 

Laureado com o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes do ano passado, “Infiltrado na Klan” não recebeu tantos prêmios na temporada americana e nunca foi apontado como favorito à estatueta de melhor filme, apesar de ser um dos títulos mais impactantes da disputa. Isto também se deve ao fato de o filme de Spike Lee ter perdido não apenas o PGA Awards, mas os outros dois termômetros do prêmio da AMPAS: o Globo de Ouro e o Actor (SAG Awards). O primeiro, entregue pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (Hollywood Foreign Press Association – HFPA), ficou com “Bohemian Rhapsody” (Idem – 2018) e “Green Book – O Guia” nas respectivas categorias de melhor filme de drama e filme de comédia / musical. Concedido pelo Sindicato dos Atores dos Estados Unidos (Screen Actors Guild – SAG), o Actor de melhor elenco ficou com “Pantera Negra” (Black Panther – 2018).

 

Vencedor do Golden Boy de design de produção, figurino e trilha sonora, “Pantera Negra” é uma produção hollywoodiana grandiosa e que se encaixa perfeitamente nas exigências de diversidade e representatividade, contendo um discurso poderoso, principalmente próximo ao final quando o vilão interpretado por Michael B. Jordan fala sobre seus antepassados escravizados. Mas o filme de Ryan Coogler tinha como empecilho o preconceito de parte dos membros da Academia que o encara somente como um blockbuster de super-herói, ignorando o seu conteúdo rico e complexo, algo que se confirmou quando Julia Roberts abriu o envelope e anunciou o filme eleito.

 

Spike Lee recebeu o Oscar de roteiro adaptado das mãos de Samuel L. Jackson e Brie Larson (Foto: Divulgação – Crédito: Terekah Najuwan / ©A.M.P.A.S.).

 

“Infiltrado na Klan” tinha como barreiras não apenas o fato de ser uma produção polêmica que dividiu opiniões, mas também as críticas de seu realizador à AMPAS, principalmente em 2016, no chamado “#OscarSoWhite” (Oscar tão branco, numa tradução literal), pouco tempo depois de ter sido homenageado com um Oscar honorário. E os membros da instituição não têm a memória da Dory, logo, isto certamente pesou contra o cineasta até mesmo na categoria de melhor direção, que sagrou Alfonso Cuarón vencedor por “Roma” (Idem – 2018) – este, sim, apontado pelos bolões de apostas pré-Oscar como dono da estatueta de melhor filme apesar dos resultados do PGA Awards, Globo de Ouro e SAG Awards. Mesmo assim, Spike Lee saiu do Dolby Theatre com o Golden Boy de melhor roteiro adaptado, dividido com Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott. Contudo, Spike Lee, assim como qualquer outro indicado, queria as outras duas estatuetas, direção e filme. E ao perder a segunda, se levantou e saiu do auditório no meio do discurso de agradecimento da equipe de “Green Book – O Guia”. “Achei que estava sendo colocado de escanteio e que o árbitro havia tomado uma decisão ruim”, disse Lee na sala de imprensa após a cerimônia.

 

O mexicano Alfonso Cuarón com as três estatuetas recebidas por “Roma”: filme estrangeiro, direção e fotografia (Foto: Divulgação – Crédito: Mike Baker / ©A.M.P.A.S.).

 

O burburinho causado pela polêmica “Green Book – O Guia” versus “Infiltrado na Klan” ofuscou até a derrota de “Roma” e seu real significado: Hollywood não abraçou o streaming como o esperado para celebrar o filme feito para a tela grande da sala de exibição. Produção original Netflix, o longa mexicano apostou muito dinheiro na campanha rumo ao Oscar principal nas semanas que antecederam a cerimônia. Líder de indicações desta edição, 10 ao todo, ao lado de “A Favorita” (The Favourite – 2018), “Roma” fala sobre minorias e as dores do abandono de duas mulheres pelos homens que amam, uma delas, a jovem protagonista grávida. Pertencente à grife Alfonso Cuarón, um dos motivos de ter chegado tão longe, o filme é tecnicamente primoroso e suas indicações também representam um manifesto de Hollywood ao governo do presidente Donald Trump e suas políticas migratórias, como a construção de um muro na fronteira com o México, lembrado durante todo o Oscar.

 

Criticando Trump sempre que possível, a cerimônia do Oscar assumiu o tom político e se preocupou com diversidade e representatividade, algo que pode ser observado principalmente em categorias técnicas, todas apresentadas ao vivo, mantendo a tradição. No entanto, isto é um reflexo da própria indústria, que, gradativamente, se abre a profissionais que antes seriam relegados ao segundo plano. A prova disso é “Pantera Negra” e suas três estatuetas, duas delas entregues às primeiras mulheres negras das categorias de design de produção / direção de arte e figurino. Cravando suas garras nos livros de História da Academia, o filme produzido pela Marvel em parceria com a Disney foi o responsável pelo aceno tardio da AMPAS ao cinema comercial, a real fonte de renda que mantém de pé a indústria que a instituição ama celebrar.

 

Lady Gaga e Bradley Cooper durante a performance de “Shallow” (Foto: Divulgação – Crédito: Aaron Poole / ©A.M.P.A.S.).

Não há como negar que em meio ao tom político, o aceno ao cinema comercial e ao pop fez bem à Academia que há anos luta para recuperar os índices de audiência nos Estados Unidos. Isto porque “Pantera Negra” e Lady Gaga, indicada na categoria de melhor atriz por “Nasce Uma Estrela” (A Star is Born – 2018) e vencedora do Oscar de canção original por “Shallow”, são os responsáveis pelo aumento de 14% da audiência em relação ao ano passado. Estrelando o momento mais bonito desta edição ao cantar “Shallow” com Bradley Cooper, seu colega de cena e diretor em “Nasce Uma Estrela”, Lady Gaga prendeu seus little monsters em frente à televisão, assim como a Marvel, que teve alguns de seus astros no palco do Dolby Theatre para entregar prêmios – Chris Evans, Tessa Thompson, Michael B. Jordan, Samuel L. Jackson, entre outros.

 

Realizada sem grandes percalços, a cerimônia do Oscar 2019 parecia sinalizar momentos de paz à Academia após muitas tormentas, mas a polêmica que ronda a vitória de “Green Book – O Guia” não lhe permitiu momentos de alívio, pois incomodou parte do auditório do Dolby Theatre e do público de casa. No fim das contas, se analisarmos com calma, a abertura do Queen com “We Will Rock You” e “We Are the Champions” acabou apontando o desdobramento da maior festa do cinema, que sacudiu Hollywood apesar de chamar a todos de campeões. E que venha o próximo Oscar!

 

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