Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Martin Scorsese critica filmes de super-heróis

Martin Scorsese em evento realizado pela AMPAS em 18 de maio de 2011 (Foto: Divulgação – Crédito: Peter Dressel / ©A.M.P.A.S.)

Responsável por grande parte do faturamento que mantém as engrenagens da indústria cinematográfica funcionando, o filão de super-heróis foi criticado por ninguém menos que Martin Scorsese. Dono de uma das filmografias mais interessantes do cinema mundial, o vencedor do Oscar de melhor direção por “Os Infiltrados” (The Departed – 2006) disse à revista Empire que tentou, mas não gosta de tais filmes, sem citar nem a DC nem a Marvel.

 

“Eu tentei, sabe? Mas aquilo não é cinema. Honestamente, o máximo que consigo considerá-los é, apesar de serem bem feitos, com atores fazendo o melhor que podem, são como parques temáticos. Não é cinema, com humanos tentando conceber emoções e experiências psicológicas para outros seres humanos”, afirmou o cineasta que está divulgando seu próximo filme, “O Irlandês” (The Irishman – 2019), produção original Netflix estrelada por Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci, que será exibida em algumas salas para cumprir as exigências de instituições responsáveis por prêmios importantes, dentre elas, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS), do Oscar – o longa será lançado pela gigante do streaming em 27 de novembro.

 

James Gunn no set de “Guardiões da Galáxia” (Foto: Divulgação).

 

Um dos nomes mais importantes do Universo Cinematográfico da Marvel (UCM), e, agora, também da DC, pois é o diretor e roteirista de “Esquadrão Suicida 2” (Suicide Squad 2 – 2021), James Gunn foi ao Twitter responder as críticas de Scorsese. “Martin Scorsese é um dos meus cinco cineastas vivos favoritos. Fiquei indignado quando as pessoas criticaram ‘A Última Tentação de Cristo’ sem ter assistido ao filme. Estou triste por ele estar julgando os meus filmes da mesma maneira”, disse o cineasta que completou em outro post: “Isso é triste. Sempre vou amar o Scorsese e ser grato por sua contribuição ao cinema. Não vejo a hora de assistir ‘O Irlandês’”.

 

Martin Scorsese acaba por engrossar o coro contra o filão, que, no passado recente, já foi criticado por James Cameron, que reinou absoluto no topo das maiores bilheterias da História por 22 anos com “Avatar” (Idem – 2009) e “Titanic” (Idem – 1997), desbancados por “Vingadores: Ultimato” (Avengers: Endgame – 2019), atual líder com US$ 2,796 bilhões arrecadados ao redor do globo, segundo o Box Office Mojo. “Espero que nós comecemos a cansar dos Vingadores logo, logo. Não que eu não goste dos filmes, mas é que vamos lá, gente, existem outras histórias para serem contadas além das dos machos alfas sem família que desafiam a morte durante duas horas e meia e destroem cidades no processo. Chega, gente! Podemos ver que o mercado nos leva para um tipo de ficção-científica agora que é completamente escapista e não requer consultores técnicos — um exemplo disso seria ‘Guardiões da Galáxia’. É apenas divertido. Nós não nos importamos como as espaçonaves funcionam ou sobre qualquer outra coisa. E então você tem as ficções-científicas cientificamente responsáveis como ‘Perdido em Marte’ ou ‘Interestelar’”, disse Cameron à Vanity Fair no ano passado.

 

A crítica de Cameron aos heróis da Marvel ganhou as manchetes meses após o diretor ter criado polêmica com um filme da concorrente DC / Warner, “Mulher-Maravilha” (Wonder Woman – 2017), de Patty Jenkins. Em agosto de 2017, em entrevista ao The Guardian, o cineasta afirmou que o longa estrelado por Gal Gadot era “um passo para trás” se comparado à Sarah Connor, personagem da franquia idealizada por ele, “O Exterminador do Futuro” (The Terminator – iniciada em 1984), interpretada por sua ex-esposa, Linda Hamilton. “Todos os tapinhas nas costas de ‘auto parabenização’ que Hollywood tem feito sobre ‘Mulher-Maravilha’ foram tão equivocados. Ela é um ícone objetificado, e é apenas a Hollywood masculina fazendo a mesma coisa de sempre!”, disse Cameron, que recebeu uma resposta de Jenkins logo em seguida.

 

“A inabilidade de James Cameron em entender o que a Mulher-Maravilha é, ou o que ela representa, para mulheres em todas as partes do mundo não é surpreendente, uma vez que ele, embora um grande cineasta, não é uma mulher. Mulheres fortes são incríveis. Seu elogio ao meu filme ‘Monster – Desejo Assassino’, e nosso retrato de uma mulher forte embora abalada, foi muito apreciado. Mas se as mulheres tiverem que sempre ser duras, intensas e problemáticas para serem fortes, e se não tivermos a liberdade para ser multidimensional ou celebrar um ícone feminino mundial porque ela é bonita e amável, aí mostra que não evoluímos muito. Eu acredito que a mulher pode e deve ser TUDO, assim como os protagonistas masculinos devem ser. Não há modo errado ou correto de uma mulher poderosa. E a grande audiência feminina que tornou este filme o sucesso que ele é pode claramente escolher e julgar seus ícones do progresso”, respondeu, à época, Patty Jenkins em sua conta no Twitter.

 

Steven Spielberg foi reeleito no Conselho Diretor da AMPAS (Foto: Divulgação, cerimônia do Governors Awards em 2017 – Crédito: Richard Harbaugh / ©A.M.P.A.S.).

 

Vencedor de três estatuetas do Oscar, melhor filme e direção por “A Lista de Schindler” (Schindler’s List – 1993) e direção por “O Resgate do Soldado Ryan” (Saving Private Ryan – 1998), Steven Spielberg não chegou a criticar os super-heróis, apenas demonstrou sua preocupação com a preferência do público por blockbusters, filão que ajudou a criar e popularizar com “Tubarão” (Jaws – 1975) – “Haverá uma implosão — ou uma grande crise. Haverá uma implosão, onde três, quatro, ou meia-dúzia de filmes de grande orçamento irão fracassar, e isso mudará o paradigma”, disse o cineasta há alguns anos, quando teve certa dificuldade em emplacar “Lincoln” (Idem – 2012).

 

No entanto, em 2015, Spielberg demonstrou que os filmes protagonizados por super-heróis eram o foco principal de sua preocupação, comparando o fenômeno ao do faroeste na Hollywood clássica. “Eu ainda me sinto daquela maneira. Nós estávamos lá quando os filmes de faroeste morreram, e chegará um tempo em que os filmes de super-heróis seguirão pelo mesmo caminho que o dos de faroeste. Não quer dizer que não haverá uma época em que os faroestes voltarão e os filmes de super-heróis também voltarão. É claro (que isso vai acontecer), mas agora os filmes de super-heróis estão vivos e prósperos. Eu apenas estou dizendo que esses ciclos têm um tempo finito na cultura popular. Chegará um dia em que essas histórias mitológicas serão suplantadas por algum outro gênero que, possivelmente, algum jovem cineasta está pensando em descobrir para todos nós”, afirmou o cineasta.

 

Responsável por franquias lucrativas como “Indiana Jones” (Idem – iniciada em 1984) e “Jurassic Park” (Idem – iniciada em 1993), inclusive pelo spin-off “Jurassic World” (Idem – iniciada em 2015), Steven Spielberg atualmente trabalha na pós-produção do remake de “Amor, Sublime Amor” (West Side Story – 1961), clássico estrelado por Natalie Wood, a Debbie do faroeste “Rastros de Ódio” (The Searchers – 1956) – o novo longa tem lançamento previsto para dezembro de 2020. Membro do Conselho Diretor da AMPAS, Spielberg está no centro de outro assunto que tem causado bastante polêmica em Hollywood, pois é um dos nomes mais poderosos na campanha contra a inclusão de títulos originais de plataformas de streaming, dentre eles, os da Netflix, na disputa em pé de igualdade com os produzidos diretamente para a tela grande em premiações como o Oscar – lembrando que a grande aposta da Netflix para o Oscar 2020 é “O Irlandês”, o que o coloca em posição contrária à de seu amigo de longa data, Martin Scorsese, que, junto dele e de cineastas como George Lucas, concederam novo gás à indústria quando o conservadorismo do cinema clássico deu lugar às novas exigências do público, sobretudo jovem, enfraquecendo consideravelmente os gêneros do faroeste e do musical.

 

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