Rachel Valença. Foto: Nicholas Barbosa

Rachel Valença

Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

Samba solidário

Leandro Santos. Foto: Reprodução/Facebook

Leandro Santos. Foto: Reprodução/Facebook

O último fim de semana foi de alívio e alegria para Leandro Santos de Oliveira. Um habeas corpus restituiu para ele a volta à liberdade.

Leandro foi preso no dia 27 de maio, acusado de um crime ocorrido em 2017, que não cometeu. É vítima de mais uma dessas terríveis injustiças que se perpetuam a todo momento contra gente pobre e negra. Dizem que a justiça é cega. Pode ser. Mas a injustiça enxerga bem e escolhe a dedo suas vítimas.

O assunto se tornou quase banal, por sua recorrência. Mas o caso de Leandro nos toca de perto, porque deu oportunidade de se ver a beleza que existe ainda nessa comunidade que costumamos chamar de mundo do samba. O chamado mundo do samba tem suas fragilidades, seu lado negativo e às vezes mesquinho e podre. Mas mostrou que sabe ser solidário quando é preciso.

Leandro, morador de São Cristóvão, era apenas um garoto quando conheceu o barracão do Paraíso do Tuiuti e se encantou pelo que lá se fazia. Já não queria mais ser apenas passista, queria fazer parte de tudo aquilo, daquele mundo mágico e cativante. O carnavalesco Paulo Menezes, que começava sua carreira na época, fim dos anos 1990, foi capaz de ver no garoto o talento e a paixão pelo trabalho de aderecista de escola de samba. Como tantos meninos e meninas de nossas comunidades de samba, Leandro teve no barracão o aprendizado profissional que nenhum estabelecimento de ensino formal lhe oferecia.

Ao longo dos anos, trabalhou para diversas escolas, sob orientação de carnavalescos diversos. É alegre, simpático, brincalhão, mas deixou claro em tudo que fez, em todos os lugares onde esteve, que nele se pode confiar. Leandro é um cara do bem.

O que se viu, quando a notícia de sua prisão se tornou pública, foi a formação de uma rede espontânea de solidariedade. Paulo Menezes divulgou um vídeo sobre a idoneidade de seu ex-aprendiz. Chiquinho, do Babado da Folia, um dos mais bem-sucedidos empreendedores do carnaval carioca, fez o mesmo. Conhece Leandro há anos, sabe de sua correção e de sua sólida estrutura familiar, de sua formação.

O carnavalesco Edson Pereira amealhou recursos dos amigos para contratar advogado e acompanhou de perto o desenrolar do processo. E Milton Cunha ajudou com boa vontade para que o assunto chegasse ao noticiário televisivo, o que ajuda muito a informar a opinião pública sobre essas injustiças contundentes.
Leandro é inocente, vários fatos o comprovam. Mas nós, que o conhecemos, nem precisamos de fatos para ter essa certeza. Leandro continua a ser, para mim, o garoto animado que depois de dar duro no barracão dia e noite ainda encontrava forças para se acabar de sambar na quadra, como passista.

Os quase 90 dias que passou na prisão, sem dever nada à justiça, são um total absurdo. O que consola um pouco é que não foram em vão: serviram para mostrar que no samba, onde não faltam disputas, rivalidades e baixarias, há também solidariedade e fraternidade. Obrigada, Chiquinho, Paulo Menezes, Edson Pereira, Milton Cunha, e mais quem tenha ajudado a restituir ao Leandro a liberdade.

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