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Notícias atualizadas sobre o Carnaval do Rio de Janeiro.

A dor da gente não sai no jornal, por Rachel Valença

Confete e serpentina. Foto: Reprodução de Internet

Confete e serpentina. Foto: Reprodução de Internet

Na última sexta-feira, ao ler os jornais diários, me veio à memória uma antiga canção da década de 1960 que termina com este verso: “a dor da gente não sai no jornal”.

É que procurei em vão alguma nota ou obituário que desse conta da morte, na véspera, de Jorge Mendes Carneiro. Nada, nem uma palavra. Sua morte, natural, sem violência nem surpresa, decorrente de uma doença longa e penosa, não interessava senão a um grupo restrito de pessoas, que, tal como eu, o conheceram de perto.

Jorjão, como o chamávamos, era importante apenas para nossa bolha, para gente como nós, apaixonados por samba e carnaval. É a nós que ele fará falta. Muita falta. Jorjão era dono de um repertório inigualável de histórias pitorescas sobre o Carnaval, em geral muito divertidas, que ele contava com graça especial. Como observador sensível, atentava para fatos que passariam despercebidos ao comum dos mortais e os reproduzia com humor e muita sabedoria.

Tomo de empréstimo, com todo o respeito, a observação de Luiz Fernando Reis sobre ele: nosso assunto era um só. Nada de confidências amorosas, nada de vida profissional, nada de política. Só Carnaval. Era disso que falávamos o tempo todo, e garanto que nunca faltava assunto.

Jorge Mendes Carneiro. Foto: Reprodução das redes sociais

Foram muitos anos dessa amizade calcada na paixão comum pelo samba, pelas escolas de samba. Primeiro na pioneira lista de discussão [email protected], criada por Felipe Ferreira no final da década de 1990, a seguir na fundação do prêmio [email protected], depois em desfiles (no Rio ou em outras cidades, onde integramos comissões julgadoras), ensaios técnicos, festas, quadras, ensaios de rua, feijoadas, enfim, em todo e qualquer lugar em que houvesse, samba, alegria, bom humor.

Jorjão escreveu suas histórias e tinha o sonho de publicá-las em livro. Sempre fui entusiasta da ideia, porque me saltava aos olhos a importância dos bem-humorados relatos como documento de uma época e como registro não apenas de coisas positivas, mas até de briguinhas e podridões que podem ter valor educativo. Além das quase 60 histórias narradas, o livro inclui ainda um Cadastro Geral das Escolas de Samba, com todos os dados sobre desfiles de escolas de samba desde seu início, na década de 1930, até 2017, ano da publicação da obra.

Sempre fui entusiasta da publicação. Fui, creio, a primeira leitora, fiz sugestões, colaborei como pude. Isso acabou por me valer o convite para prefaciar o livro, e uma dedicatória, mais generosa do que mereço, aqui no meu exemplar. Acho que estava certa em insistir e cobrar a concretização do projeto: as histórias do Jorjão, suas argutas observações sobre os acontecimentos do carnaval, suas risadas… Nada disso está mais disponível. Fica a lembrança do amigo querido e esse Bastidores do Carnaval para perpetuar seu amor incondicional pelo samba, traduzido em críticas divertidas e nem por isso menos contundentes.

Rachel Valença. Foto: SRzd

Rachel Valença tem formação em Letras, com graduação na Universidade de Brasília e mestrado em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense, com dissertação intitulada Palavras de Purpurina, sobre a retórica do samba-enredo. Formou-se também em Jornalismo pela Faculdade Hélio Alonso.

Publicou vários livros sobre Carnaval e participa ativamente do Carnaval carioca, tendo sido por oito anos membro do Conselho do Carnaval da Cidade do Rio de Janeiro. Integrou a equipe de elaboração do dossiê das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro: partido-alto, samba de terreiro, samba de enredo, para registro, junto ao IPHAN, do samba do Rio de Janeiro como patrimônio cultural imaterial, em 2007. É colunista do SRzd desde 2011. A partir de 2014 passou a fazer parte do júri do prêmio Estandarte de Ouro, do jornal O Globo.

Crédito das fotos: portal SRzd
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal SRzd

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