Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Mostra de Cinema de São Paulo: ‘Coronation’

“Coronation” é um dos selecionados da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (Foto: Divulgação).

Em 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou sobre casos de pneumonia misteriosa que estavam se espalhando rapidamente em Wuhan, China. Chamada de Covid-19, a infecção causada pelo novo coronavírus teve seu primeiro caso oficialmente detectado 30 dias antes do alerta da OMS, mas autoridades chinesas não comunicaram sobre o risco nem taxas de transmissão e letalidade, impedindo que a população se protegesse de maneira adequada. Naquela noite de revéillon, o mundo, em festa, não sabia o que chegaria em 2020: uma pandemia que, até o momento, contabiliza mais de 40 milhões de infectados, sendo 1,1 milhão de vítimas fatais ao redor do globo. Lutando para sobreviver em meio ao caos e à dor, Wuhan se tornou protagonista tanto da pandemia quanto do documentário “Coronation” (Idem – 2020), exibido pela 44a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 

“Coronation” é produzido e dirigido por Ai Weiwei (Foto: Divulgação).

Produzido e dirigido por Ai Weiwei, o longa começa mostrando Wuhan como uma cidade quase fantasma de maneira a remeter imediatamente ao cenário pós-apocalíptico inerente às ficções-científicas ou à Pripyat (Ucrânia) após a explosão de um dos reatores da usina nuclear de Chernobyl. Partindo do princípio de que uma imagem vale mais que mil palavras, o cineasta conduz o documentário priorizando cenas de bastidores de hospitais que não carecem de legendas nem explicações, pois falam por si só. Somente após a ambientação do espectador, Weiwei trilha pelo caminho político, tecendo forte crítica ao Partido Comunista Chinês, no poder desde 1949.

 

Contrapondo a fé cega de uma senhora idosa no Estado e no Partido, ignorando as mundialmente reconhecidas atrocidades do mesmo, com depoimentos de familiares de vítimas da Covid-19, impedidos de conceder a elas uma despedida digna ou de se responsabilizarem por seus restos mortais, “Coronation” acaba por dialogar, mesmo que não intencionalmente, com “One Child Nation” (Idem – 2019), produção original Amazon Studios sobre a Política do Filho Único, dirigida por Nanfu Wang e Jialing Zhang. É como se, no plano crítico ao Partido Comunista Chinês e ao seu rígido sistema de monitoramento e controle da população, um complementasse o outro.

 

Desta forma, Ai Weiwei expõe denúncias de manipulação de dados de testes e, também, de pacientes recuperados que são obrigados a permanecer nos hospitais com o intuito de abastecer a máquina de propaganda governamental, mostrando que as autoridades conseguiram controlar a crise sanitária, o que sabe-se ser uma falácia – “Vitória para Wuhan, vitória para Hubei, vitória para a China”, dizem os “três slogans”, repetidos por pessoas com gestos extremamente robotizados.

 

Abordando o descaso para com os doentes cujos testes deram negativo, mas as tomografias apontaram resultados positivos para a Covid-19, “Coronation” tem um impacto ainda maior sobre aqueles que, de um jeito ou de outro, foram diretamente afetados por um vírus de forte poder de destruição, inclusive em pessoas sem comorbidades, pois não dá para prever como cada organismo se comportará à exposição / infecção. Isto pode ser observado com mais afinco em sua primeira metade, quando a câmera passeia pelos centros de tratamento intensivo dos hospitais.

 

“Coronation” é um documentário importante sobre tempos tão difíceis, marcados pelo medo, dor e descaso, que serão lembrados também pela crise econômica que se abateu em todo o planeta. Como disse uma das entrevistadas, “para a geração que viveu essa pandemia, sua sombra ficará em nossos corações para sempre”.

 

*A Mostra de Cinema de São Paulo acontece até o dia 04 de novembro, reunindo 198 títulos de 71 nacionalidades, disponibilizados na plataforma Mostra Play ao custo de R$ 6. Além disso, 30 produções serão oferecidas gratuitamente nas plataformas digitais Spcine Play e Sesc Digital, assim como sessões no Belas Artes Drive-in (Memorial da América Latina) e Cinesesc Drive-in (unidade Sesc Parque Dom Pedro II). Clique aqui para conferir a programação completa dos filmes da Mostra.

 

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