Corações Unidos faz homenagem aos Garis em seu enredo para o Carnaval Virtual 2020

O GRESV Corações Unidos apresentou seu enredo para o Carnaval Virtual 2020 em busca do grupo especial: “Garis” de autoria de seu novo carnavalesco Bill Oliveira William.

GARIS

Autor: Bill Oliveira William.

“Gari não é lixo! São esses homens e mulheres que passam dia e noite vasculhando as ruas, à cata de entulhos. Compenetrados, cabeças baixas, tentando esconder-se dos olhares de pessoas que passam.  Atentos ao que estão fazendo, no nosso benefício, eles apenas trabalham (…) nunca nos aproximamos deles. Vemos estas pessoas como se fossem portadores de doenças transmissíveis pelo simples olhar, pelo sorriso, pelas mãos sujas e calejadas, pelas roupas surradas.”

Rivaldo Cavalcante

 

Introdução – A Origem

A Europa na Idade Média vivia na sujeira, o banho era pecado e não se sabia nada sobre germes e bactérias. Esta sujeira foi também importada para o Brasil Colonial. A corte mal-educada contribuía com seus maus hábitos para a propagação de diversas doenças inclusive da Peste Negra, que poucos sabem, aqui também desembarcou!

No final do século 19, as ruas do Rio de Janeiro podiam-se encontrar toda sorte de resíduos orgânicos e inorgânicos espalhados por todos os lados, assim como em todas as cidades Europeias a sujeira dominava estes tempos tenebrosos. Havia ainda o famoso hábito pouco refinado de esvaziar o penico pela janela ao grito de “Água vai!”, fato que ocorria dia e noite! Imaginem só o cenário!

Pedro II desesperado diante do reinado da imundície em sua corte tropical, tinha pesadelos com este Rio sujismundo, dominado por mosquitos que transmitiam Varíola e Febre Amarela. Uma verdadeira visão do inferno onde a única limpeza que a cidade recebia era feita pelos urubus!

Neste cenário medonho surge Pedro Aleixo Gari, um francês inovador que estava vivendo no “Novo Mundo” e trazia soluções para o rei e toda a sua corte! Hoje em dia poucos registros existem sobre sua biografia completa, e pouca gente ouviu falar dele, mas mesmo assim seu nome até hoje inspira limpeza saúde e bem-estar!

Para eliminar o lixo das ruas, durante o primeiro Império, contratou-se então “o tal Gary”, que a partir do dia 11 de outubro de 1876, começou a remoção de lixo das casas e praias do Rio de Janeiro. A partir de então juntamente com sua equipe de varredores e coletores tornaram-se heróis da população. Ele contratou alguns homens simples e com eles recolhia o lixo das ruas levando tudo para a Ilha de Sapucaia, a região que hoje compreende a Ilha do Governador. A coisa deu tão certo, que tempos depois, mesmo a empresa tendo sido extinta, o sobrenome de Gary, “pegou” popularmente como apelido do varredor de rua, eram chamados a “Turma do Gary” e foi o que consolidou este apelido do coletor do lixo urbano. Gary deu Gari!

O apelido gari também pegou em todas as cidades que a exemplo do Rio de Janeiro, contratou homens para recolherem o lixo e limparem as ruas. Inicialmente a pé e depois montados em animais ou com carrocinhas coletoras contendo um pequeno tonel fechado para tapar o mal cheiro. Estas carrocinhas eram puxadas por mulas ou cavalos. O trabalho desses coletores de lixo aos poucos já foram inspirando a população da época a ter hábitos mais higiênicos nos espaços públicos.

Este foi também o início do saneamento básico no Rio de Janeiro que na época ainda tinha seu esgoto coletado em barris pelos “homens tigres”, escravos que levavam os detritos fecais para serem atirados ao mar da Baia de Guanabara, e estes detritos ao escorrer por seus corpos os marcam com listras que lembravam tigres. Daí o apelido deles. Outra cena de horror comum naquela época!

Podemos entender que através da limpeza feita por Gary e seus homens, a cidade teve condições de se abrir ao progresso. Era o início da Revolução Industrial lá na Europa, e que aqui também ela chegava ainda lentamente, trazendo a iluminação a gás, a Maria Fumaça e a tecnologia a vapor para as fábricas.

Assim quando no início do século 20 o samba começa a descer o morro e ganhar a cidade já encontra as ruas varridas pelos Garis.

 

Capítulo 1 – Os Garis Naturais

Observar a natureza com seus ciclos, biomas e reinos, nos permite entender melhor o pensamento ecológico que se reflete nos garis e deles também emana, e pode ser um atrativo a mais para educar as crianças, uma maneira divertida de ensiná-las a preservação da vida. Já que a natureza não desperdiça nada e até recicla suas fontes e recursos de energia.

Sendo assim é bem possível que o visionário Aleixo Gari tenha se inspirado neste equilíbrio na natureza e seguramente ele trazia da França os conhecimentos sobre a importância da higiene pessoal e do local onde habitamos, bem como o conhecimento sobre os micro-organismos nocivos a saúde humana. Coisas que aqui no Brasil do final de 1800 nada se sabia!

Esta observação dos sistemas geológicos nos leva a perceber que existem os “Garis Naturais” que realizam a faxina no meio ambiente!

Estes limpadores do ecossistema são desde animais como os urubus, as formigas, as baratas e os micro-organismos decompositores que existem no solo e no mar; como também elementos como os populares fogo, terra, água e ar, e até mesmo as estações do ano!

Um exemplo interessante desta reciclagem de elementos são as tempestades elétricas e cachoeiras, ambas melhoram a qualidade da água e renovam o oxigênio facilitando o trabalho dos vegetais.

Hoje sabemos que até mesmo as alterações climáticas do planeta e as estações do ano são uma maneira que a natureza tem de evitar pragas e matar micróbios ao passo que renovam as águas e o ar e dão vida aos vegetais e animais que por sua vez fazem parte de um ciclo de vida e morte que adubam e nutrem o solo, propiciando assim condições para que a vida siga sua evolução.  A vida na natureza é perfeita e autossuficiente!

Está tudo interligado no corpo planetário e tudo possui sua função. Cientistas estudam mais a fundo este imenso e complexo bioma planetário há mais de dois séculos e estes estudos ganharam novo fôlego em 1972 com a Hipótese Gaia, de James Loveloch, que tenta provar que o planeta em si é um grande “organismo vivo” pois ele, ou ela, sabe se reciclar para renovar a vida em si mesmo e se preservar.

 

Capitulo 2 – A Evolução da Profissão e seus Benefícios para a Sociedade

 

Nasce a Margarida

O que poucos sabem é que a “mulher gari”, surgiu em São Paulo no início da década de 70, onde pela primeira vez se incorporou mulheres à limpeza urbana na época das primeiras obras do Metro da cidade, pois os homens estavam todos trabalhando na obra do trem subterrâneo e faltou mão de obra para limpar as ruas. “A experiência pioneira foi feita com absoluto sucesso e, logo em seguida, repetida em outras regiões. Mas antes mesmo de o teste ser feito em São Paulo, havia uma preocupação em encontrar um nome popular que servisse para as mulheres que eram chamadas de varredoras ou serventes. Pensou-se na cor branca, que é sinônimo de limpeza, e na flor, que representa a mulher. Imediatamente, margarida foi considerada o mais adequado, inclusive porque nesse nome está contida a palavra gari”.

 

O Nascimento da COMLURB e do Uniforme Laranja

A década de 70 viria com grandes revoluções ao mundo e para os Garis ela foi um período repleto de mudanças e novidades! Em maio de 1975 a Companhia Municipal de Limpeza Urbana, COMLURB, assume a limpeza das ruas do Rio e está a frente desta função até hoje. Depois da turma do Gary a coleta do lixo e a varredura das ruas havia pulado de mão em mão sem grandes resultados.

Uma das medidas tomadas de imediato pela COMLURB foi a mudança dos uniformes que até então eram cinzas, cor que causava vários problemas ao trabalhador nas ruas, especialmente atropelamentos, fato que acabou matando centenas de garis! A cor cinza ainda deixava estes trabalhadores “invisíveis”, ninguém ligava ou se importava com eles, todos ignoravam sua presença tão importante.  Para isto a COMLURB, convidou o designer Rafael Rodrigues, com sua parceira a também designer Maria del Carmen Zilio, famosos criadores de logomarcas da época, para juntos mudarem o uniforme e a cara dos garis para sempre. A dupla tinha a função de desenvolver algo mais chamativo, e foi o que fizeram. Até hoje é usado o uniforme de laranja com as faixas brancas nos braços e pernas.

 

Conceitos e Mensagens Positivas que os Garis Inspiram

Os Garis estão associados a diversas mensagens e ações positivas como a Reciclagem do lixo; Reciclagem que se transforma em arte nas mãos de artesãos; Coleta seletiva tão urgente e pouco praticada; A consciência socioambiental e a saúde dos centros urbanos.

Observar e valorizar estas associações positivas é com toda certeza um novo paradigma para a profissão.

Por causa desta percepção da mensagem positiva que os garis agregam,  a marca Gari vem se tornando um forte símbolo de cuidado urbano, ambiental e de evolução social.

Este Super Trabalhador que encanta as crianças com sua imagem de super-homem da limpeza. Nos lembra até um certo herói da década de 90 chamado Capitão Planeta. É tão necessário hoje em dia que mensagens assim voltem para as crianças assistirem na televisão. E os Garis podem ser associados a esta imagem do Super Guardião da Cidade. Assim surge o Super Gari! Ensinando que nós todos podemos ser heróis do salvamento planetário começando a cuidar de nossos espaços urbanos como extensões de nossas casas e assim criando responsabilidade pelo que fazemos com estes locais públicos que são nossos.

Em tempos de tantas decepções com nossos políticos, os Garis inspiram ainda uma faxina nacional em todos os poderes públicos, em todos os governos e instituições. Nosso povo sofrido sonha com uma Faxina no Congresso Nacional!  E porque não limpar o país dos preconceitos e da separação que estamos vivendo graças a estas loucuras provocadas por um governo separatista e preconceituoso? É preciso reciclar a mente e o coração da nação!

 

Limpeza Urbana é Saúde para todos!

Uma pessoa que possua cultura ecológica, sabe que suas atitudes em sua casa refletem em todo o planeta. Deve-se entender ainda que a rua é parte de nossa casa, assim como as praças, pontes, ruas, enfim, a cidade é uma extensão do nosso lar. E, portanto, devemos manter tudo limpo.  É importante lembrar que quase 50% do lixo que atirados nas ruas vão parar na natureza, em florestas, rios e nos mares. Sem contar o impacto ambiental que as cidades geram na natureza, com a poluição do ar e com os esgotos que até hoje não recebem tratamento! Vamos fazer a nossa parte? Vamos cuidar do nosso lixo pessoal? Uma cidade limpa está livre de pragas e o impacto ambiental que ela gera é muito menor. Interessante que a consciência ecológica nasce junto com a consciência humanitária.

Estes são os valores que os Garis nos agregam.

 

Capítulo 3 – O Sorriso que conquistou o mundo!

No final de cada desfile de escola de samba cabe a eles limpar o que ficou de cada escola e abrir caminhos para a próxima desfilar.

E em 1997 o gari Renato Luiz Feliciano Lourenço, ficou conhecido como Renato Sorriso quando sambou ao final dos desfiles de cada escola de samba do grupo especial e ao ser repreendido por seu chefe, o público vaiou fortemente, pois queria vê-lo sambar mais. Conquistou fama mundial e fez com que os Garis ganhassem mais popularidade a cada ano.

Agora em 2020 a Corações Unidos reconhece os valores do Gari no carnaval virtual e presta-lhe uma inédita e merecida homenagem. Dando a ele os créditos de ser um novo personagem do carnaval ao lado dos eternos Pierrô, Arlequim, Colombina, Piratas, Marinheiros, Diabos, Malandros e Mulatas… É o Rei Momo que vem coroar o Gari em nosso desfile, como um embaixador real do samba e do carnaval do Brasil! Ele que na folia vira rei, é um rei da rua é um rei da alegria!

Evoé Momo! Evoé Garis!

 

Referências Bibliográficas

1) AIZEN, Mário e PECHMANN, Roberto M. Memória da limpeza urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Coopin, Comlurb, 1985.

2) CEMPRE. Reciclagem: ontem, hoje e sempre (coordenação editorial: Sérgio Adeodato), São Paulo, 2008.

3) CORBIN, A. Sabores e odores: o asfalto e o imaginário social nos séculos dezoito e dezenove. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

4) EIGENHEER, Emílio Maciel (org). Lixo hospitalar: ficção legal ou realidade sanitária? Rio de Janeiro: Semads, 2002.

6) GAMA-ROZA. Algumas ideias sobre o saneamento do Rio de Janeiro. Typ. Imp. e Const. de J. de Villeneuve, Rio de Janeiro, 1879.

7) KARASCH, Mary C. A vida dos escravos no Rio de Janeiro. 1808- 1850, São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

8) MACEDO, Joaquim M. de. Memórias da Rua do Ouvidor. São Paulo:

Companhia Editora Nacional, 1952.

9) CAODAGLIO, Ariovaldo e CYTRYNOWICZ, Roney. Limpeza Urbana na Cidade de São Paulo. Narrativa UM Projetos e Pesquisas de História Monica Musatti Cytrynowicz Roney Cytrynowicz; São Paulo, Junho, 2012.

10) LOVELOCK, James. Homage to Gaia: The Life of an Independent Sientist. Oxford University Press, 2001

 

INFORMAÇÕES DA DISPUTA DE SAMBA:

– Em breve

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