Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

R.I.P., Sidney Poitier

“Uma Voz nas Sombras” colocou Sidney Poitier nos livros de História (Foto: Divulgação).

Há quase dois anos, a partida precoce de Chadwick Boseman, vítima de câncer de cólon aos 43 anos, mostrou a devoção de seus fãs, de diversas nacionalidades e idades. Tanta adoração se deve à queda de importante barreira que assombrou e, por que não dizer, ainda assombra a capital mundial do cinema, a do preconceito racial. Imortalizado como o Rei t’Challa / Pantera Negra dos filmes do Universo Cinematográfico da Marvel (UCM), Boseman chegou ao panteão hollywoodiano porque seu caminho foi pavimentado por outros profissionais que tiveram de lutar muito para provar o óbvio: talento e caráter não são definidos pela cor da pele. Dentre esses atores, um ocupa lugar de suma importância, Sidney Poitier, que faleceu nesta sexta-feira, dia 07, aos 94 anos de idade.

 

“O Ódio é Cego” é dirigido por Joseph L. Mankiewicz (Foto: Divulgação).

Nascido em Miami, no estado americano da Flórida, em 20 de fevereiro de 1927, Poitier foi criado nas Bahamas, retornando aos Estados Unidos aos 15 anos de idade para morar com o irmão em sua cidade natal, quando foi confrontado pelo preconceito racial. Três anos mais tarde, seguiu para Nova York, onde, após diversos trabalhos, começou a participar de audições para peças de teatro, estreando na Broadway num pequeno papel em “Lysistrata”. Dos palcos para os sets de filmagens, não demorou muito. Seu primeiro filme foi “Sepia Cinderella” (Sepia Cinderella – 1947), de Arthur H. Leonard, mas em participação não-creditada, assumindo papel de destaque em seu segundo trabalho cinematográfico, o drama “O Ódio é Cego” (No Way Out – 1950), de Joseph L. Mankiewicz, após convite do produtor Daryl F. Zanuck, que implicou na escolha entre Broadway ou Hollywood.

 

Mais do que um ator, Sidney Poitier foi um pioneiro que lutou por respeito e igualdade, dentro e fora dos sets, numa época em que a questão dos Direitos Civis era amplamente discutida pela sociedade americana, dividida e testemunhando episódios de violência extrema oriunda do ódio racial. Por este motivo, a trajetória de Poitier numa indústria tão competitiva como a de Hollywood, que durante muitos anos funcionou tendo o preconceito enraizado, é especial e merece ser aplaudida de pé. Para compreender melhor, é necessário voltar no tempo e destacar outra personalidade que, assim como o ator, quebrou barreiras: Hattie McDaniel, a Mammy, de “…E O Vento Levou” (Gone With the Wind – 1939), de Victor Fleming.

 

Hattie McDaniel e Vivien Leigh em cena de “…E O Vento Levou” (Foto: Divulgação).

 

Filha de escravos, Hattie McDaniel ganhou notoriedade ao interpretar a escrava de uma família sulista tradicional no clássico protagonizado por Vivien Leigh (Scarlett O’Hara). Impedida de participar da estreia do filme em Atlanta, McDaniel se tornou a primeira atriz negra a ser indicada e agraciada com a estatueta do Oscar, na categoria de coadjuvante por “…E O Vento Levou”. Mas nem tudo foram flores para ela, que não pôde participar da cerimônia em sua plenitude, entrando no auditório somente quando os nomes das atrizes coadjuvantes foram anunciados. O ano era 1940, a Segunda Guerra Mundial já devastava a Europa e o mundo ainda não havia aprendido o suficiente acerca do quão nocivo é o preconceito (em todas as suas formas). Tal qual McDaniel, Sidney Poitier também deixou seu nome no livro de História da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS), mas o intervalo entre a vitória da atriz e a primeira indicação do ator, o primeiro negro a concorrer ao Golden Boy, foi de 19 anos – Poitier foi indicado à categoria de melhor ator por “Acorrentados” (The Defiant Ones – 1958), de Stanley Kramer, mas perdeu para David Niven por “Vidas Separadas” (Separate Tables – 1958), de Delbert Mann.

 

“Adivinhe Quem Vem Para Jantar” tem direção de Stanley Kramer (Foto: Divulgação).

Sob a direção de Ralph Nelson, Sidney Poitier deu vida a Homer Smith, personagem que o tornou o primeiro negro a vencer a estatueta do Oscar de melhor ator, em “Uma Voz nas Sombras” (Lilies of the Field – 1963), um dos principais títulos de uma filmografia que conta com clássicos como “O Sol Tornará a Brilhar” (A Raisin in the Sun – 1961), de Daniel Petrie, “No Calor da Noite” (In the Heat of the Night – 1967), de Norman Jewison, “Adivinhe Quem vem para Jantar” (Guess Who’s Coming to Dinner – 1967), de Stanley Kramer, e “Ao Mestre, com Carinho” (To Sir, with Love – 1967), de James Clavell. Em 2002, a Academia voltou a reconhecer o trabalho de Sidney Poitier, mas com o Oscar honorário entregue por Denzel Washington, que, na mesma noite, se tornou o segundo negro a receber o Oscar de melhor ator, por “Dia de Treinamento” (Training Day – 2001), de Antoine Fuqua – vencedor do Golden Boy de ator coadjuvante por “Tempo de Glória” (Glory – 1989), Washington, vale lembrar, não apenas produziu o último filme de Chadwick Boseman, “Ma Rainey’s Black Bottom” (George C. Wolfe – 2020), como também financiou a faculdade do eterno Pantera Negra. A homenagem da AMPAS a Poitier aconteceu cinco anos após o seu último trabalho no cinema, “O Chacal” (The Jackal – 1997), de Michael Caton-Jones, estrelado por Bruce Willis e Richard Gere. Na televisão, sua última atuação foi no telefilme “Construindo um Sonho” (The Last Brickmaker in America – 2001), de Gregg Champion.

 

Não há como dimensionar a perda de Sidney Poitier para o cinema, pois o ator exerceu papel fundamental abrindo muitas portas para inúmeros profissionais, algo reconhecido por Barack Obama, que, em 2009, enquanto presidente dos Estados Unidos, lhe concedeu a Medalha da Liberdade, a homenagem mais alta concedida a civis naquele país. É um baque para a indústria, especialmente no momento no qual a luta por representatividade, diversidade e inclusão ganha cada vez mais força.

 

Assista ao vídeo oficial da AMPAS com a vitória de Sidney Poitier no Oscar 1964:

Assista ao vídeo oficial da AMPAS com a homenagem a Sidney Poitier no Oscar 2002:

 

 

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