Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

‘Quanto Vale?’ pode colocar a Netflix na corrida pelo Oscar 2022

“Quanto Vale?” é produzido e protag

Ferida ainda aberta para a sociedade americana, os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 originaram diversas produções cinematográficas e televisivas. A poucos dias de completarem 20 anos, os atentados chegam ao catálogo da Netflix com um título sobre as suas consequências para sobreviventes e familiares de vítimas fatais: “Quanto Vale?” (Worth – 2020), disponível desde a última sexta-feira, dia 03.

 

Com direção de Sara Colangelo, “Quanto Vale?” é baseado na história do advogado Ken Feinberg (Michael Keaton), escolhido pelo governo dos Estados Unidos para ser Mestre Especial do Fundo de Compensação às Vítimas, ou seja, responsável por decidir quanto cada sobrevivente ou morto valeria em cifras aos cofres do país à época presidido por George W. Bush. Instituindo uma fórmula na qual familiares de executivos de grandes empresas receberiam mais do que os de um auxiliar de limpeza, por exemplo, usando como justificativa o “custo da hipoteca” diferenciado, Feinberg teve de enfrentar o ceticismo e passar a enxergar pessoas e histórias por trás de cada número da estatística da penosa lista de vítimas e desaparecidos – muitos corpos não foram encontrados sob as torres gêmeas do World Trade Center. Além disso, o advogado precisou a lidar com a cobrança daqueles que adoeceram em decorrência do trabalho nos escombros, principalmente pela exposição à poeira tóxica e ao amianto, inclusive bombeiros.

 

“Quanto Vale?” foi exibido no Festival de Sundance 2020 (Foto: Divulgação / Crédito: Netflix).

Produzido por Keaton, “Quanto Vale?” tem estrutura narrativa similar à de outra produção baseada em fotos reais e protagonizada pelo ator, “Spotlight – Segredos Revelados” (Spotlight – 2015), vencedor das estatuetas do Oscar de melhor filme e roteiro original. Isto se deve à maneira com a qual Colangelo conduz este longa, introduzindo as questões abordadas gradativamente para levar o espectador à reflexão num trabalho respeitoso e impecável. Afinal, em ambos os filmes, os números representam pessoas com histórias e trajetórias distintas, que não podem ser ignoradas nem minimizadas por divisão de classes sociais.

 

Outro ponto que remete bastante a “Spotlight – Segredos Revelados” é a dinâmica entre Michael Keaton e Stanley Tucci, que interpreta Charles Wolf, viúvo de uma das vítimas de 11 de setembro que questiona a fórmula adotada por Feinberg, impondo alterações ao Fundo e iniciando uma revolução interna no renomado advogado, algo que cresce à medida que ele se permite conhecer e escutar os familiares e sobreviventes do maior atentado terrorista da História. Enquanto Keaton surge em cena como um homem que, apesar de designado para defender os interesses do governo e salvar a economia do risco de colapso representado pelas indenizações, passando de insensível a humano, Tucci condensa toda a dor da perda apenas no olhar. São dois gigantes num jogo cênico impecável, tendo como coadjuvante Amy Ryan, no papel de Camille Biros, sócia de Feinberg que luta para que todos tenham os mesmos direitos assegurados pelo governo, inclusive imigrantes ilegais e homossexuais que não puderam oficializar suas respectivas uniões.

 

Exibido no Festival de Sundance 2020, “Quanto Vale?” se torna ainda mais potente devido ao momento de seu lançamento, não apenas pela proximidade do 20o aniversário dos atentados que mudaram o mundo, mas pela dor imposta pela pandemia de Covid-19, uma tragédia que chega aos jornais em forma de números em estatísticas. Impossível dissociar a barbárie dos ataques da crise humanitária atual nas cenas que questionam o valor de vidas perdidas, o que mexe ainda mais com a emoção do espectador, pois, novamente, por trás de cada número diariamente contabilizado há nomes, histórias e perdas incalculáveis para os familiares.

 

Produção original Netflix com condições suficientes de entrar na corrida pelo próximo Oscar, “Quanto Vale?” não é fácil de assistir e proporciona ao espectador a inevitável sensação de socos no estômago por diversas vezes, mas é necessário para apresentar à nova geração um evento sombrio da História que, mesmo duas décadas mais tarde, ainda contabiliza vítimas tanto pelo trauma quanto pela longa exposição à toxidade sob os escombros.

Comentários

 




    gl