Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

‘Proibido Nascer no Paraíso’: documentário sobre gestantes noronhenses chega à Globoplay

“Proibido Nascer no Paraíso” estreia diretamente no streaming (Foto: Divulgação).

No início dos anos 1990, a Rede Globo exibiu uma série adulta que expôs toda a beleza natural de um dos locais mais exclusivos do Brasil: Fernando de Noronha, localizado a cerca de 360 quilômetros da costa brasileira. Enquanto o público se envolvia com a trama de “Riacho Doce” (1990), disponível na Globoplay, as imagens chamavam a atenção para além do romance proibido do casal protagonista, vivido por Vera Fischer e Carlos Alberto Riccelli, ajudando a impulsionar a campanha em prol do turismo no arquipélago. Mas, à época, as mulheres tinham o direito de ter seus bebês no local, algo que desde 2004 é proibido.

 

“Proibido Nascer no Paraíso” é dirigido por Joana Nin (Foto: Divulgação).

Inicialmente agendado para estrear no circuito comercial em 11 de março, “Proibido Nascer no Paraíso” (2021) chega à Globoplay neste sábado, dia 1o, discutindo o assunto que há anos incomoda e revolta os noronhenses. Com direção de Joana Nin, o documentário expõe toda a dificuldade enfrentada por gestantes no arquipélago de Fernando de Noronha – “Parir nesta ilha se transformou numa espécie de transgressão”.

 

Destino dos sonhos de muitos brasileiros, mesmo daqueles que não têm como bancar uma viagem tão dispendiosa, Fernando de Noronha não realiza partos desde fevereiro de 2004, exceto algumas raras exceções, por proibição local. Sem infraestrutura, principalmente UTI neonatal, o Hospital São Lucas, o único de média complexidade, recomenda as gestantes a terem seus filhos no continente, embarcando, com todas as despesas pagas pelo governo, no máximo aos sete meses de gestação, retornando à ilha um mês após o nascimento do bebê. Polêmica, a medida, segundo moradores, é um ato político que visa ao impedimento da criança solicitar o direito à terra, que, hoje, vale milhões.

 

Partindo deste princípio, “Proibido Nascer no Paraíso” traça um perfil do lado B de Fernando de Noronha, que não é discutido abertamente no continente. Antiga base militar para brasileiros e americanos durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), a “Esmeralda do Atlântico”, como é conhecido o arquipélago, impõe restrições que cassam o direito da mulher noronhense sob o argumento de priorização da segurança para mãe e bebê, algo contestado pelos habitantes do local, que atribuem o decreto à exploração turística por grandes empresários.

 

Com isso, “Proibido Nascer no Paraíso” assume roupagem jornalística para focar não apenas na questão da obrigatoriedade de os partos serem realizados em Recife (Pernambuco), como também do crescimento do turismo enquanto pote de ouro no final do arco-íris, transformando o arquipélago na “Ilha de Caras”, como diz uma gestante revoltada por não receber autorização para ter o filho no local onde nasceu. Neste ponto, Nin enfatiza o tom crítico tendo a exuberante paisagem como combustível para a narrativa – “Quanto menos gente tiver para lutar pelos seus direitos, mais eles (empresários) vão ter espaço”, afirma Babalu.

 

Contrapondo a simplicidade dos habitantes e a riqueza dos visitantes, que chegam, aproximadamente, a 100 mil por ano, “Proibido Nascer no Paraíso” é um documentário interessante por expor o cerceamento dos direitos da mulher e da criança, que, hoje, mesmo nascida em Recife e registrada como noronhense, algo permitido por lei recentemente, precisa de autorização para residência permanente, como se fosse um simples turista numa terra que tem suas raízes familiares fincadas no solo. Autorização esta nem sempre concedida.

 

Assista ao trailer oficial:

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