Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

‘O Sequestro de Daniel Rye’ mostra as atrocidades cometidas por terroristas na Síria

“O Sequestro de Daniel Rye” é baseado em fatos reais (Foto: Divulgação).

A ascensão do Estado Islâmico na década passada chocou o mundo devido à barbárie imposta por seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi, também chamado de Califa Ibrahim, e seus seguidores / apoiadores, assumindo a posição de grupo terrorista mais perigoso dos anos 2010. Em 2013, o ginasta e fotógrafo dinamarquês Daniel Rye foi sequestrado pela organização terrorista, que o confundiu com um agente da CIA, submetendo-o a sessões de tortura por 13 meses. Sua história é contada em “O Sequestro de Daniel Rye” (Ser du månen, Daniel – 2019, Dinamarca / Noruega / Suécia), que estreia no Brasil nesta sexta-feira, dia 11, em VoD.

 

Baseado no livro “The ISIS Hostage”, de Puk Damsgaard, o longa começa mostrando as aspirações de Daniel Rye (Esben Smed) no esporte, para, então, contar como ele chegou à Síria devastada pela Guerra Civil, iniciada em 2011, para fotografar pessoas comuns numa área longe do conflito. Num cenário violento e instável no qual negociações de valores estipulados para os resgates são consideradas insultos pelo Estado Islâmico, o horror se fortalece concedendo aos prisioneiros e seus familiares sentimentos como medo e impotência, principalmente quando o governo do país tem como política não negociar com terroristas, dificultando ainda mais a solução do caso, mantido em sigilo pelos envolvidos. Neste ponto, o longa leva o espectador a refletir acerca do posicionamento de países que se recusam a interceder por cidadãos na mesma situação que Rye.

 

Com cenas rodadas na Jordânia, Suécia e Dinamarca, “O Sequestro de Daniel Rye” chama a atenção pelo desenvolvimento da trama, alicerçada no roteiro consistente, assinado por Anders Thomas Jensen, que explora tanto o drama de Daniel quanto o de sua família, que enfrenta dificuldades para conseguir os US$ 700 mil dólares exigidos pelo Estado Islâmico para a soltura do fotógrafo – posteriormente a quantia chegou a dois milhões de euros. Contando com cenas de violência gráfica, o longa trabalha com eficiência o ódio dos extremistas pelo ocidente, principalmente pelos Estados Unidos, e por todos que não seguem seus preceitos, mostrando os efeitos nocivos até mesmo à população local, que luta diariamente pela própria sobrevivência.

 

Esben Smed e Toby Kebbell em cena de “O Sequestro de Daniel Rye” (Foto: Divulgação).

 

Com direção e produção executiva de Niels Arden Oplev e Anders W. Berthelsen, que interpreta com segurança o negociador Arthur, “O Sequestro de Daniel Rye” tem como um de seus trunfos a comunhão do elenco cujo destaque é Smed, que mergulha nos danos psicológicos sofridos pelo personagem durante os 13 meses sob a ameaça constante dos jihadistas, numa atuação impecável e impactante que lhe cobrou imensa entrega física. Outro destaque é Toby Kebbell, responsável por interpretar o jornalista James Foley, decapitado pelo grupo que não apenas filmou a ação, como a divulgou na internet. Apesar de só aparecer na tela na segunda metade do longa, Kebbell conquista seu espaço por construir o personagem equilibrando sobriedade e força para esconder o medo muitas vezes exposto somente pelo olhar. É um trabalho complexo que sintetiza um misto de sentimentos em meio às atrocidades diárias movidas pelo ódio que utiliza a religião como escudo – “O que mais temo é me entregar ao ódio deles. E não preciso disso porque tudo que sinto é amor”, diz o personagem de Kebbell em determinado momento do filme.

 

Discreto no que tange à trilha sonora, inserida com precisão cirúrgica pela montagem de Lars Therkelsen e Anne Østerud, “O Sequestro de Daniel Rye” é uma produção forte que se desenvolve sem pressa para abordar as atrocidades cometidas por extremistas que distorcem preceitos religiosos para utilizá-los como combustível para a chamada Guerra Santa, assim como a relação de irmandade estabelecida entre os reféns que precisam se apoiar uns nos outros em meio ao horror. É um filme importante em termos de História, sobretudo por permitir ao espectador melhor compreensão do modus operandi do Estado Islâmico e dos fatos que antecederam a decapitação de James Foley, contados paralelamente ao drama de Daniel Rye.

 

Assista ao trailer oficial legendado:

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