Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

‘O Direito de Viver’ beira o amadorismo

“O Direito de Viver” estreia em circuito limitado no Brasil (Foto: Divulgação).

No início da década de 1970, a Suprema Corte dos Estados Unidos se viu no centro da sempre polêmica discussão acerca da legalização do aborto e, inevitavelmente, do direito da mulher sobre seu próprio corpo. Na América conservadora de Nixon, o caso ganhou grande repercussão, tornando-se uma questão política e, por que não dizer, religiosa. Conhecido como Roe contra Wade, o julgamento levou meses, com sete dos nove juízes votando pela legalidade da interrupção da gestação. Nesta quinta-feira, dia 07, um longa-metragem sobre o episódio chega às telas de cinema de Brasília e dos estados de São Paulo e Paraíba, “O Direito de Viver” (Roe v. Wade – 2019), estreia de Cathy Allen e Nick Loeb na direção.

 

Conhecido por seu posicionamento contra o aborto, Loeb transformou este longa numa espécie de projeto pessoal rodado num momento tão conturbado para os Estados Unidos quanto o retratado: o último ano de mandato do então presidente Donald Trump, publicamente contrário ao aborto. Roteirizado e produzido por Loeb, Allen e Ken Kushner (produtor executivo), “O Direito de Viver” teve a controvérsia como guia até mesmo nos bastidores, pois parte da equipe se demitiu à medida que percebeu se tratar de um filme de cunho conservador que defende, entre tantas outras coisas, o cerceamento da liberdade de escolha da mulher. E tamanha instabilidade no processo de produção se refletiu no resultado final, bastante constrangedor, para dizer o mínimo.

 

“O Direito de Viver” enfrentou problemas em sua produção (Foto: Divulgação).

 

O constrangimento, aqui, independe da opinião de seus realizadores e da maneira com a qual a religião é utilizada pela trama proposta, pois se trata de um título carente de linguagem cinematográfica, coerência narrativa e boas atuações, principalmente a de Loeb (Dr. Bernard Nathanson, responsável por realizar milhares de abortos), caricato ao extremo. Com isso, “O Direito de Viver” abraça a comédia ao optar por uma teatralidade forçada em interpretações que, assim como direção de arte e caracterizações dos personagens, são dignas de uma novela mexicana, especialmente quando o protagonista entra numa “jornada redentora” – o México, por sinal, é abordado de forma a parecer o paraíso (ou seria inferno?!) para mulheres que desejam interromper suas gestações, julgando-as sem nem ao menos explorar os motivos que as levaram a tomar essa difícil decisão.

 

Ineficaz como drama e, sobretudo, como filme de tribunal, “O Direito de Viver” desperdiça a chance de proporcionar ao espectador uma experiência capaz de levá-lo a refletir sobre o tema abordado devido à parcialidade da condução de seus diretores, que, tecnicamente, realizam um trabalho que beira o amadorismo.

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