Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

‘Cicatrizes’: drama sérvio mostra as consequências do rapto de bebês

“Cicatrizes” é baseado numa história real (Foto: Divulgação).

Indicado da Sérvia para concorrer a uma vaga entre os finalistas da categoria de melhor filme internacional do Oscar 2020, “Cicatrizes” (Šavovi – 2019) chega nesta quinta-feira, dia 13, às salas de exibição de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Brasília e Curitiba.

 

Baseado na história real de Drinka Radonjic, costureira de Belgrado (Sérvia) que teve seu filho recém-nascido sequestrado no hospital e, posteriormente, vendido, o longa faz um duro retrato das consequências de um crime que era bastante comum na cidade entre o final dos anos 1980 e início dos 1990. Atualmente, mais de 500 famílias tentam descobrir o paradeiro de suas crianças, raptadas no mesmo padrão, enquanto as mães eram dopadas no pós-parto e então comunicadas do falecimento dos bebês, sem que pudessem vê-los e sepultá-los, recebendo atestados de óbito falsos e a informação de que os corpos haviam sido descartados como “lixo hospitalar”.

 

Snezana Bogdanovic e Marko Bacovic em cena (Foto: Divulgação).

 

Segundo longa-metragem de Miroslav Terzic, o primeiro foi o thriller “Ustanicka ulica” (Idem – 2012), “Cicatrizes” conta esta página trágica da história de Belgrado, pouco explorada pela mídia, por meio de Ana (Snezana Bogdanovic). Durante 18 anos, Ana buscou evidências de que seu filho estava vivo, o que afetou diretamente sua relação com o marido e a filha, que se sente renegada pela mãe. Com passagem por instituição psiquiátrica e pressionada por médicos e autoridades locais, Ana segue uma pista entregue pela Associação de Crianças Desaparecidas, entrando numa jornada ainda mais dolorosa e perigosa.

 

Sem nenhum desafio técnico, “Cicatrizes” tem no roteiro seu principal alicerce, esmiuçando o drama da protagonista sem enveredar pela pieguice, assumindo o tom sóbrio da primeira à última cena, mas sem aprofundar o suficiente a relação fraturada entre mãe e filha, sobretudo quando a jovem assume papel de liderança na busca pelo irmão. Com isso, o espectador é apresentado a um sistema que tem no horror seu elemento principal, destruindo e traumatizando famílias em prol do dinheiro, tendo como ponto de partida o local que deveria ser protegido a todo custo: o berçário.

 

No entanto, a trama funciona graças à atuação de Snezana Bogdanovic. A atriz constrói Ana de maneira a equilibrar força e obstinação, deixando transparecer somente com o olhar a dor de uma mãe que teve seu maior bem arrancado. É um trabalho contido, mas que se agiganta na tela com o desenrolar da trama, principalmente nas sequências em que o silêncio é utilizado como ferramenta essencial da narrativa.

 

Contando com uma fotografia de cores frias para expressar a falta de calor humano nesta trama sobre uma mulher desacreditada por todos, “Cicatrizes” é uma produção que se desenvolve sem pressa para explicar ao espectador a realidade na qual Ana está inserida. É um filme interessante que cumpre o seu objetivo de denunciar o horror vivido por famílias que há anos não têm resposta nem apoio.

 

Assista ao trailer oficial legendado:

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