Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

‘A Boa Esposa’: liberdade e emancipação

“A Boa Esposa” é protagonizado por Juliette Binoche (Foto: Divulgação).

Ainda há quem acredite na fórmula para o casamento perfeito, que tem como principal elemento o ideal de esposa calcado, entre tantas outras coisas, na abnegação e servidão eternas, ignorando dois fatores essenciais para relações matrimoniais: amor e respeito mútuos. Se isto é exigido por parte da sociedade em 2021, imagine no passado, sobretudo nos anos 1960, quando muitos tabus e regras começaram a ser quebrados por mulheres, sobretudo as mais jovens. É exatamente sobre isso que fala “A Boa Esposa” (La bonne épouse – 2020, França), uma das estreias desta quinta-feira, dia 17, nos cinemas brasileiros.

 

“A Boa Esposa” é dirigido por Martin Provost (Foto: Divulgação).

Ambientado em 1968, o longa conta a história de Paulette (Juliette Binoche), diretora do Instituto Van Der Beck, que nada mais é do que uma escola interna para moças que, no decorrer de dois anos, aprenderão lições “essenciais” para se tornarem esposas “exemplares”. Infeliz no casamento, Paulette faz o possível para convencer as garotas da importância de seguir os sete pilares que guiam a instituição, como por exemplo, a execução impecável de tarefas domésticas e nunca se colocar em primeiro lugar em nenhuma circunstância, deixando suas necessidades de lado. Mas um evento inesperado a faz rever tais conceitos e estreitar laços com as alunas, dando passos largos rumo à liberdade à qual sempre teve direito, mas nunca lutou para conquistar.

 

Abordando temas sérios com leveza e humor, “A Boa Esposa” tece crítica direta à maneira arcaica com a qual muitas mulheres ainda são tratadas por seus maridos e uma parcela significativa da sociedade. Para isso, faz um interessante retrato da década de 1960, mais precisamente do período que antecedeu a revolução estudantil de 1968, mostrando a hipocrisia e o machismo que reinavam absoluto, sufocando meninas e mulheres de todas as idades, muitas delas forçadas a viverem relações de conveniência para agradar às famílias.

 

Dirigido com destreza por Martin Provost, “A Boa Esposa” tem como grande trunfo a comunhão de todo o elenco, que tem como destaques Yolande Moreau (Gilberte), Marie Zabukovec (Annie Fuchs) e Juliette Binoche. Vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por “O Paciente Inglês” (The English Patient – 1996), Binoche explora as diferentes camadas de Paulette de maneira a apresentar ao público sua gradual transição como o desabrochar de uma das inúmeras flores cultivadas nos jardins do Instituto. É uma construção de personagem bastante perspicaz, principalmente por equilibrar drama e humor quase caricatural nas medidas exatas, brincando com convenções sociais, algo que também é explorado com afinco pela personagem de Moreau, a solteirona que desconhece seus direitos, inclusive salariais, o que já não acontece com a jovem vivida por Zabukovec, que representa a ruptura com o conservadorismo.

 

Previsível e divertido, “A Boa Esposa” não tem como objetivo dissecar eventos históricos, utilizando a sátira como elemento essencial da narrativa para apresentar ao público como as jovens de outrora lidavam com a imposição de se tornarem esposas modelo, assim como tantas outras mulheres, reconhecidamente infelizes e amarguradas, se permitiram aprender com garotas que não estavam dispostas a abrir mão de seus sonhos e felicidade em prol de convenções alicerçadas em “bons casamentos”. É um filme sobre emancipação feminina que também fala sobre novas oportunidades, contando com um desfecho que tem absolutamente tudo para dividir opiniões dos espectadores.

 

Assista ao trailer oficial legendado:

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