Economia global e integração regional no mundo de Donald Trump

Donald Trump. Foto: Reprodução de TV

Donald Trump. Foto: Reprodução de TV

O terremoto Donald Trump trouxe novas ondas de choque para uma economia global já combalida. Para surpresa dos que imaginavam mudanças na sua agenda após a posse, o novo presidente dos Estados Unidos cumpriu a primeira promessa de campanha: pôr fim à Parceria Trans-Pacífica (TPP), que reuniria 40% do produto interno mundial. A iniciativa de unir as economias desenvolvidas e emergentes através do Estreito de Bering doravante está nas mãos dos chineses, que têm para a região uma proposta bem menos ambiciosa em termos de normas trabalhistas e de meio ambiente. O repúdio de Trump a tratados multilaterais e blocos comerciais não se resume ao TPP. Ainda em Janeiro, Estados Unidos, México e Canadá se reunirão para “rediscutir” a Área de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA). Tudo indica que o próximo alvo será o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), com a União Europeia.

Com essas iniciativas no plano global e regional, a nova administração traz más notícias para uma economia global que não se recuperou da crise de 2008. A tendência de criação de mega-acordos de comércio e investimento fora do marco da Organização Mundial do Comércio (OMC) durante os mandatos de Barack Obama perderam espaço diante da proliferação de iniciativas bilaterais. Trump não acena reformular as instituições de Bretton Woods (velha demanda dos emergentes). Dessa forma, as deficiências atribuídas à OMC (lentidão, inflexibilidade normativa) foram substituídas por um maior grau de incerteza e imprevisibilidade numa economia global de baixo crescimento.

Mecanismos de governança das consequências indesejáveis da crise (depauperamento das classes médias e trabalhadores, imensa concentração de renda) perderam fôlego diante do imperativo de recuperação econômica. Ao invés da coordenação de economias emergentes e desenvolvidas (em tentativas como o G-20), tivemos medidas anticíclicas e parcerias público-privadas envolvendo os “campeões nacionais”. Os múltiplos desequilíbrios resultantes tornaram mais atraente a autarquia.

A perda da centralidade do dólar (que vinha desde a Segunda Guerra Mundial e se acentuou com o fim da paridade com o ouro em 1971) e a ascensão de competidores emergentes aumentou as chances de políticas de recuperação econômica às custas dos vizinhos (beggar-thy-neighbour). Os governos dos EUA buscaram coordenar o valor do dólar com as principais moedas europeias e o Yen japonês durante a Guerra Fria. Com a queda do Muro de Berlim, esse pacto de cavalheiros lentamente se rompeu. O cenário se tornou mais dramático após a criação do Euro (2002).

Com a maior parte dos dividendos das empresas norte-americanas auferidos no exterior, o governo Trump força uma barganha autorrealizável: ao romper normas com multilaterais e enfraquecer blocos comerciais, produz busca intensiva por ativos em dólar, em detrimento das demais moedas. Sob a aparência de uma onda de “reinvestimento” na matriz produtiva norte-americana (como a mudança de fábricas de automóveis para o norte do Rio Grande), Trump agrada ao eleitorado que o alçou à Casa Branca (velhas áreas industriais do “Rust Belt”). Danos globais, porém, se acentuam.

Após a crise, o ímpeto dos emergentes (“motores do crescimento global”) arrefeceu. As instituições emergentes (como o Novo Banco de Desenvolvimento, “Banco dos BRICS”) operam à sombra de Bretton Woods sem que as economias desenvolvidas tenham se recuperado. Essa situação conduziu a uma acomodação desconfortável entre as economias: normas multilaterais foram relaxadas mas a economia global não prosperou. Todos se tornaram mais vulneráveis às instabilidades.

Esperanças de que a China dê as cartas da nova ordem econômica mundial subestimam o grau de interconexão entre a grande economia emergente e a persistência da crise na Europa, Japão e EUA, bem como as concepções normativa emergentes. A maior parte do crescimento econômico chinês pós-Deng Xiaoping se deveu a parcerias no qual o investimento externo tem papel central. À medida que as firmas chinesas obtiveram paridade produtiva e tecnológica com congêneres ocidentais, a expansão de investimentos chineses no Extremo Oriente e outras regiões operou de acordo com noções de “interdependência assimétrica” (duojihua). Relacionamentos assimétricos implicam divisão funcional, especificidade e complementaridade, ao invés de normais universais difusas (como as normas multilaterais que se tornaram padrão após a Segunda Guerra Mundial).

Nesse sentido, a declarações de Xi Jinping em Davos não surpreendem. A globalização defendida pela China se refere ao movimento de capitais, não de pessoas. O investimento externo é um combustível inestimável para o crescimento sustentado chinês. Por sua vez, a restrição à mobilidade humana (e a consequente precarização dos direitos trabalhistas) está na agenda tanto da União Europeia quanto dos EUA de Trump.

Para a América Latina, o enfraquecimento de blocos regionais e normas multilaterais sob Donald Trump é danoso, no momento em que as principais economias da região se encontram em recessão.
O MERCOSUL se vê às voltas com turbulências políticas, enquanto seu peso econômico diminui. O bloco representa apenas 1/7 do comércio dos membros e menos de 10% de sua produção industrial é oriunda de cadeias regionais de produção. A integração centrada nos governos nacionais tornou o bloco refém das marés políticas. Com o fim da “onda rosa”, a permanência da Venezuela chavista se tornou insustentável, levando à suspensão do país no MERCOSUL e à paralisia do bloco (Nicolás Maduro assumiria a presidência rotativa do bloco no segundo semestre de 2016).

Foi nesse contexto que autoridades comerciais de Brasil e Estados Unidos se reuniram, dando início a tratativas para um acordo bilateral de livre comércio (à revelia do MERCOSUL). Ao mesmo tempo, outro membro do bloco (o Uruguai) buscava um acordo bilateral de comércio e investimento com a China. Ironicamente, a grande esperança da integração mercosulina é um acordo de livre comércio com a União Europeia do Brexit – travado há décadas por disputas entre Brasil e Argentina. À medida que acordos flexíveis com países extrabloco se tornam mais atraentes, o bilateralismo punitivo de Donald Trump parece inevitável no médio prazo para Brasil, Argentina (e México, via NAFTA).

Se na América Latina a integração regional está em cheque, no cômputo global, os efeitos do nacionalismo econômico e do bilateralismo punitivo é um mundo menos próspero e mais desigual.

*diretor de Assuntos Internacionais, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Tocantins (UFT), em colaboração voluntária ao SRzd

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