Som alto dos trios elétricos no Carnaval pode causar problemas auditivos

A Sociedade Brasileira de Otologia (SOB) faz um alerta aos foliões sobre os riscos que a exposição, por períodos prolongados, a sons acima de 85 decibéis pode causar à audição. A iniciativa faz parte da Campanha Nacional da Saúde Auditiva, realizada há três anos pela SBO. A campanha tem como objetivo prevenir, informar e educar a população mostrando a importância de cuidar bem da saúde auditiva.

A permanência em ambiente com atividade sonora de 85 decibéis de intensidade, sem a proteção adequada, não pode ultrapassar 8 horas por dia. Esse tempo cai para 4 horas em lugares com 90 decibéis; 2 horas em locais com 95 decibéis; e 1 hora onde a intensidade chega a 100 decibéis.

‘Nosso objetivo não é impedir que as pessoas se divirtam, mas alertá-las para os riscos da exposição ao som alto, que pode acarretar conseqüências desastrosas para a saúde dos ouvidos e comprometer a qualidade de vidaâ?, afirma o otorrinolaringologista Luiz Carlos Alves de Sousa, presidente da Sociedade Brasileira de Otologia.

Problemas no Carnaval da Bahia

Foi o que aconteceu com o paulista Marco Aurélio de Souza e Silva, 49 anos. Quando comprou o pacote de viagens para curtir as férias e o carnaval na Bahia, em 1992, ele não imaginava os riscos que correria após passar horas curtindo a festa atrás do Trio Elétrico na capital baiana.

Logo após o primeiro dia de folia, depois de 6 horas seguindo o trajeto do bloco, Marco sentiu-se atordoado e voltou ao hotel com um incômodo. ‘A sensação era a mesma de quando você sai de uma boate, um cansaço estranho e atordoado pelo som intenso, seguido de zumbido. Fui dormir e achei que ia passarâ?, afirma.

No dia seguinte, ainda ouvindo zumbidos, resolveu novamente seguir o Trio Elétrico e, após mais 6 horas de folia e som que pode chegar a 130 decibéis, Marco percebeu que o zumbido havia aumentado e não desaparecia. Fez as malas e voltou para o interior de São Paulo, onde os médicos diagnosticaram que houve perda auditiva em torno de 30% em freqüências agudas em ambos ouvidos.

‘Algumas vezes, uma simples e única exposição a um som muito intenso pode ser suficiente para levar a um dano auditivo irreversível. Isso ocorre porque o som de alta intensidade lesa as células sensoriais no ouvido interno, causando perda auditiva proporcional ao dano gerado, podendo levar a zumbidos e distorção sonora, o que aconteceu no caso do Marcoâ? relata o médico.

Mudança de vida

Marco Aurélio teve sua vida modificada radicalmente. ‘Tive que abandonar o emprego por não ter condições de trabalhar, pois o zumbido nunca sumiu, apenas é amenizado com o uso de medicamentos. Os primeiros meses foram muito difíceis, mas tive que me adaptar a uma nova vidaâ?, relata Marco. Ele era químico industrial e hoje trocou a profissão pelas artes plásticas. ‘Prefiro ficar em casa, relaxado e tranqüilo, e a pintura ajuda a manter esse equilíbrio. Hoje sobrevivo da minha arteâ?.

Dependendo do período de exposição, sons de intensidades superiores a 85 decibéis podem causar distúrbios de dupla perversidade, pois ao mesmo tempo em que compromete a capacidade auditiva para sons ambientais, pode causar ainda um sintoma contínuo e muito incômodo: o zumbido.

‘Para não ser atingido por esse problema, é necessário se adequar frente aos novos tempos de furor tecnológico dos decibéis, alimentado pela falta de organismos eficientes para controlar a poluição sonora ambientalâ?, afirma o otorrinolaringologista Luiz Carlos Alves de Sousa.

De acordo com o especialista, quando o tratamento clínico torna-se ineficaz, um dos recursos indicados para combater o problema é o chamado ‘mascarador de zumbidoâ?, que é um aparelho auditivo especial para ‘compensarâ? estas freqüências lesadasâ?.

O som nocivo (poluição sonora) pode acarretar conseqüências severas à qualidade de vida da população, afetando a saúde do indivíduo e conturbando as relações sociais.

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