Imperiano, da Serrinha ou asfalto, quer vitória pra alegrar seus corações

Foto: Reprodução de InternetFundada nos idos de 23 março de 1947, a Escola de Samba Império Serrano é jóia da coroa do samba brasileiro. Agremiação detentora de incontáveis lauréis e ainda reveladora de talentos mil. Ainda responsável por inúmeras inovações surgidas no mundo do samba a partir da sua fundação.

Curiosa e até original é a história da fundação da Império Serrano. Consta o fato, que nas décadas de 30/40, no pedaço de terra batizado de Serrinha (Morro de Madureira) já existia uma agremiação com o nome de PRAZER DA SERRINHA, comanda com mão de ferro pelo então todo-poderoso sambista Alfredo Costa.

Só que a nossa PS jamais fez páreo, tanto à Portela, Mangueira, Favela, Tijuca e outras, chegava sempre na rabeira das colocações. Essa situação foi indo, foi indo até chegar o desfile do ano de 1946, quando seu Alfredo Costa, no auge do seu poder, resolveu trocar para o desfile oficial, o samba previamente ensaiado.

Estou rolando toda esta história por um simples motivo: a história e a trajetória da Império Serrano são emocionantes e marcantes que quem dela toma conhecimento jamais deixará de verter uma pequena lágrima.

Pois bem. Seu “Alfredo Costa trocou o samba previamente ensaiado” CONFERÉNCIA “DE SÉO FRANCISCO” de autoria de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola pelo samba “NO ALTO DA COLINA”. Resultado: a nossa PRAZER DA SERRINHA foi para o desfile e acabou tomando, como de hábito, nova porrada.

A Serrinha em peso chorou novamente. Mas, eis que nessa época no Brasil, o país respirava ares de liberdade. O Dr. Getúlio Dorneles Vargas, até então “Pai dos Pobres” do brasileiro, havia sido lascado do Poder e a própria Segunda Guerra Mundial tinha chegado ao fim com a derrota fragorosa das tropas do Eixo.

Se na Serrinha todos queriam a cabeça do seu Alfredo Costa, longe de Madureira, mais precisamente na Zona Portuária, travava-se uma luta sem tréguas pelo poder político dos muitos sindicatos de trabalhadores até então existentes.

E quem eram os fomentadores dessa luta? Eram justamente os humildes trabalhadores, e em sua maioria, todos moradores das grimpas da Serrinha. Esse foi o ponta pé inicial para a fundação da gloriosa Império Serrano.

Se no asfalto humildes carregadores, ensacadores e estivadores, queriam um sindicato livre e ordeiro, no alto da Serrinha já grassava um movimento pela derrubada do até então “rei da cocada”, Alfredo Costa.

O movimento político da Zona Portuária resultou na solidificação dos sindicatos de várias categorias de trabalhadores. O mais importante: foram criados, aprovados e reformados vários Estatutos Sociais. E à frente de todo esse movimento já estavam vários sofridos moradores da Serrinha.

É por essas e outras que a história da fundação da Império Serrano está ligada ao grande movimento portuário pós guerra. Bastou apenas que o grande Sebastião de Oliveira, o popular Molequinho, hoje quase noventão, acendesse um rastilho ao pé da Serrinha para seus irmãos, cunhados compadres, amigos e seguidores dessem um grito só: ” Fora seu Alfredo! Queremos uma nova escola samba!”

Mas nessa altura do texto ainda não expliquei a relação entre o movimento na Zona Portuária com a fundação da Império Serrano. Explico-o agora: Federação, Confederação e Associação, entidades, que dirigiam o samba na cidade eram totalmente desclareadas em termos de documentação (estatutos e tudo mais)

Bem que os futuros da Império Serrano tentaram conseguir algum documento. . Tudo em vão. Outros dizem que foi o próprio seu Alfredo Costa quem sabotou a entrega das cópias dos estatutos dos postulantes à fundação da futura escola.

Verdade ou mentira, o fato é que um dos integrantes do grupo pró fundação da Império Serrano resolveu agir por conta própria. De imediato conseguiu uma cópia do então dos modernos estatutos aprovados na Zona Portuária. Citam que foi o saudoso Mano Elói Antero Dias, autor da proeza e por isso seu nome é dado hoje á quadra da escola.

Uma grande realidade: A Império de ontem, de hoje e de sempre apresenta naqueles Estatutos oriundos da Zona Portuária sua fonte de inspiração legal. E ninguém consegue mudar isso. Aconteceram várias e várias tentativas, até por parte do saudoso Amaury Jório, quando presidente da Associação das Escolas de Samba. Por isso duas eleições em apenas um ano e já existem candidatos para o próximo pleito.

A história que segue: O primeiro presidente da Império Serrano foi o saudoso João Gradim, curiosamente genro de Elói Antero Dias e irmão do seu Molequinho e Dona Eulália. A fundação foi na casa de Dona Eulália. E o no primeiro desfile (1948) não deu outra coisa: Império na cabeça com enredo “ANTÉNIO CASTRO ALVES”.

Seguiram-se outras três retumbantes vitórias consolidando a Serrinha como a nova sensação do samba carioca: “EXALTAÉÉO A TIRADENTES” (1949), BATALHA NAVAL DO RIACHUELO” e “61 ANOS DE REPÉBLICA”. A Serrinha desta chorava, mas cantava de alegria!

Tanto é verdade, que seus compositores no auge do dedique com demais escolas cantavam lá no alto da colina: “Faça chuva / ou faça sol / tudo é festa no reino imperial. Primeiro ano imperial/ segundo ano imperial / terceiro ano imperial/ quarto ano imperial…

Isso era tremenda gozação com as demais agremiações, principalmente com a Portela do seu Natal, que chegava a prometer mundos e fundos para acabar com aquele estado de achincalhação imperiano. Isso durou anos a fio.

E o Império Serrano prosseguia na sua trajetória, com glórias, apesar da política interna fervilhando sempre dentro da escola. Volta e meia caía e subia outro presidente. E sempre ocorria brigas e mais brigas no momento da prestação de contas.

A escola voltou a biscoitar canecos nos anos de 1955 (EXALTAÉÉO A CAXIAS) e em 1956 (CAÉADOR DE ESMERALDAS). Um bi campeonato sensacional, graças ao apoio, por sinal, de homem da raça branca, chamado Irênio Delgado. Irênio jornalista raro prestígio nas esferas do Poder Público, notadamente na Riotur da época, jamais permitiu que a Império Serrano fosse roubada.

No ano de 1960, ainda com a interferência do jornalista Irênio Delgado, a Império Serrano logrou empatar com quatro outras escolas e foi considerada também vencedora com o enredo ” MEDALHAS E BRAZÉES”.

A verde e branca teve mais duas retumbantes vitórias. 1972, com o enredo “ALÉ, ALÉ TAÍ CARMEM MIRANDA”, uma criação do genial e saudoso carnavalesco Fernando Pinto, que brincou ao desfilar na Presidente Vargas.

Em 1982, com um enredo tipo patuscada “BUM-BUM PRUGURUNMDUM”, criado pelo consagrado carnavalesco Fernando Pamplona e executado pelas carnavalescas Rosa Magalhães e Lícia Lacerda, outra vez a escola voltou ao topo. Destaca-se que nesse ano a escola apresentou um samba enredo genial de autoria dos também geniais Beto sem Braço e Aluisio Machado.

Daí pra frente a escola parou no tempo. Chegou até freqüentar, como freqüenta atualmente, o grupo da poeira das escolas.

Para culminar, no último dia 15 de maio rolou eleição para escolha do novo presidente. Até aí nada demais, a não ser pelo número de postulantes o cargo. Ao todo foram contados quatro não fosse a desistência, na última hora, do ex-presidente Oscar Lino. Até um sujeito que atende pelo nome de Carola foi candidato. Teve 20 brilhantes votos.

O grande vitorioso, se é que pode considerar como grandiosidade, foi o MESTRE ÁTILA. Parabéns. Mestre Átila é um homem educado e isso já é um bom começo. Mas o que a massa dos imperianos de fé deseja saber é o seguinte: que tipo de projeto/programa Mestre Átila tem para recolocar a escolas novamente nos trilhos?

Trocar pura e simplesmente de rainha de bateria será que vai levar a escola ao seu titulo ou contratar um puxador, mais do que rodado (acaba de assinar contrato com uma escola de São Paulo) será solução? E finalmente o enredo em homenagem a oitentona Tia Ivone Lara, honra e glória do nosso samba.

Dentro da própria Império Serrano já surgiram vozes contrárias. Outro dia mesmo, na portaria da escola ouviu um exaltado imperiano bradar: “A Dona Ivone Lara nunca fez nada pelo Império Serrano. Ela assinou o samba CINCO BAILES NA HISTÉIA DO RIO”, assim mesmo foi porque o seu Antônio Fuleiro que obrigou o Silas de Oliveira a colocar o nome dela”.

Não é verdade! Tia Ivone Lara tem relevantes serviços prestados na Corte Imperial. Inclusive desfilou por anos a fio na Ala de Baianas, além de contribuir com vários sambas de quadra que até são cantados não somente pela Serrinha como pelo mundo do samba afora.

Mas grande pergunta é a seguinte: Mestre Átila tem algum projeto para ser executado a médio curso para que possa recuperar o auto-estima da Império Serrano? Não projeto social, daqueles que ensinam crianças a tocar peças de bateria ou fazer aulas de informática ou consultórios médicos. Isso é tarefa do Poder Público.

A Império Serrano, ao longo dos seus 62 anos apresentou grandes presidentes. Uns bons, outros bozinhos e uma maioria de gente que queria somente o cargo. O que todo imperiano de fé espera nesse momento é que o presidente Mestre Átila faça a escola ter novamente voz ativa no samba, agora na LESGA e no futuro, na poderosa LIESA.

O imperiano seja Serrinha ou do asfalto quer vitória para alegrar seus corações.

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