Dallagnol ‘fingiu’ não saber sobre corrupção de Lorenzoni e incitou pressão ao STF, apontam mensagens

Deltan Dallagnol e Onyx Lorenzoni. Foto: Reprodução

Deltan Dallagnol e Onyx Lorenzoni. Foto: Reprodução

Em diálogo revelado pelo site “The Intercept Brasil” no Twitter nesta segunda-feira (12), coordenador da força-tarefa da Lava Jato no Paraná, Deltan Dallagnol, confirma que sabia desde antes de abril de 2017, do envolvimento do ex-deputado e atual ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, mas “fingiu” que não sabia.

Na conversa ocorrida no dia 11 de abril de 2017 com Fábio Oliveira, alçado por ele à direção do Instituto Mude, Dallagnol é indagado se sabia que Lorenzoni fazia parte da “lista do Fachin”, sobre políticos suspeitos de receber propina. O procurador responde que “já sabia”, mas fingia não saber.

“Vi… (já sabia, mas tinha que fingir que não sabia, o que foi, na verdade, bom rsrsrs)”, respondeu Dallagnol. Onyx era um dos lobistas da Lava Jato no Congresso para aprovação das chamadas “10 Medidas contra a Corrupção”.

Em agosto de 2016, Dallagnol participou ao lado do relator Onyx Lorenzoni de audiência na Comissão Especial sobre combate à corrupção na Câmara.

Deltan incitou manifestações e pressão de grupos ao STF

Em outras conversas divulgadas nesta segunda-feira, Deltan Dallagnol busca incentivar manifestações populares favoráveis às causas defendidas por ele e pela operação.

O site revela conversas de Dallagnol com lideranças dos grupo “Vem Pra Rua” e do “Instituto Mude – Chega de Corrupção” no dia seguinte à morte de Teori Zavascki, então relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federa (STF), em janeiro de 2017. O objetivo era influenciar a escolha do novo relator da operação no tribunal.

Em mensagem ao líder do Mude, Fabio Alex Oliveira, Dallagnol disse: “De início, agradeci o apoio do movimento etc. 1. Falei que não posso posicionar a FT [força-tarefa Lava Jato] publicamente, mesmo em off, quanto a Ministros que seriam bons, pq podemos queimar em vez de ajudar”.

Em conversa com Anna Carolina Resende, ex-integrante da Lava Jato na PGR, Dallagnol indica que chegou a fazer o pedido para que o ministro Luís Roberto Barroso solicitasse a troca de turma do STF para que pudesse disputar a relatoria da operação no lugar de Teori.

“Ele ficou alijado de todo processo. Ninguém consultou ele em nenhum momento. Há poréns na visão dele em ir, mas insisti com um pedido final. É possível, mas improvável.” Em seguida, pediu para que Resende não comentasse com ninguém sobre a conversa.

Pressão sobre o STF

Dallagnol também conversou com a procuradora Thaméa Danelon, integrante da Lava Jato em São Paulo, que seria necessário pressionar o ministro Alexandre de Moares, recém escolhido para o STF, para que ele mudasse de opinião com relação à prisão em segunda instância.

O procurador escreveu: “Temos que reunir infos de que no passado apoiava a execução após julgamento de SEGUNDO grau e passar pros movimentos baterem nisso muito”.

A procuradora respondeu: “Ok. Eu posso passar para os movimento. Para o Vem pra Rua e Nas Ruas” Em outro diálogo, Dallagnol pediu para a procuradora estimular que os grupos divulgassem em suas redes o apoio ao pacote de alterações legislativas 10 medidas contra a corrupção: Se Vc topar, vou te pedir pra ser laranja em outra coisa que estou articulando kkkk. Um abaixo assinado da população, mas isso tb nao pode sair de nós? o Observatório vai fazer. Mas não comenta com ng, mesmo depois. Tenho que ficar na sombra e aderir lá pelo segundo dia. No primeiro, ia pedir pra Vc divulgar nos grupos. Daí o pessoal automaticamente vai postar etc”.

O pacote de medidas foi posteriormente aprovado pelo Congresso com alterações em pontos que foram considerados autoritários.

Outro lado

Em resposta, a assessoria de imprensa do Ministério Público Federal do Paraná informou que “é lícito aos procuradores da República interagir com entidades e movimentos da sociedade civil e estimular a causa de combate à corrupção”. Apesar da resposta, o órgão voltou a dizer que “não reconhece as mensagens que têm sido atribuídas a seus integrantes nas últimas semanas”.

O procurador Deltan Dallagnol se defendeu:“Não reconhecemos as mensagens do Intercept. Agora, nunca foi segredo meu diálogo com entidades da sociedade civil e movimentos sociais, que têm sido essenciais para os avanços contra a corrupção nos últimos anos. Seu mérito deve ser reconhecido”, escreveu. “Interagir com eles como procurador e como cidadão na pauta anticorrupção, direta ou indiretamente, é legal, legítimo e saudável”.

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