Acordo em discussão na Conferência da ONU sobre clima não soluciona questões ambientais urgentes

Poluição. Foto: Marc St. Gil, sob licença Wikimedia Commons

Poluição. Foto: Marc St. Gil, sob licença Wikimedia Commons

Quase duas centenas de países estão reunidos até o dia 18 de novembro em Marrakesh, Marrocos, para debater questões climáticas globais – é a COP 22, Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas. O principal ponto da pauta dos líderes mundiais é a implementação do Acordo de Paris – tratado ratificado em tempo recorde por 196 partes envolvidas, incluindo o Brasil.

Carro-chefe do Acordo de Paris, a redução das chamadas “emissões de carbono” tem sua eficiência questionada por diversas organizações ao redor do mundo, entre elas a Fundação Heinrich Böll, cujo escritório no Brasil tem promovido uma série de debates em torno do tema.

Dentro desta lógica, o carbono é contabilizado em toneladas de CO2 emitidos na atmosfera – em uma mensuração dos ativos da natureza, que chegam a ser negociados em uma Bolsa de Valores mundial específica para este fim, situada em Chicago, EUA. Os valores resultantes desta mensuração, aparentemente objetivos e confiáveis, serviriam de parâmetro para saber o quanto cada país emite de carbono na atmosfera e o que deveria ser feito para que as emissões fora dos limites permitidos fosse “compensada”.

Desmatamento. Foto: Eduardo Santos (CC by 3.0)
Desmatamento. Foto: Eduardo Santos (CC by 3.0)

Assim, as graves questões ambientais globais – sobretudo as mudanças climáticas – seriam combatidas com a diminuição de emissões de CO2 na atmosfera – que seriam excessivas. Mas seriam as mudanças climáticas mais importantes e urgentes do que a perda de biodiversidade, a degradação das terras agricultáveis ou o esgotamento da água doce? Podem estes fenômenos ser considerados de forma isolada? É possível deter a acelerada degradação ambiental a partir de uma lógica de financeirização da natureza?

Para Maureen Santos, coordenadora de Justiça Socioambiental da Fundação Heinrich Böll no Brasil, focar o combate às mudanças climáticas na redução de emissões de CO2 e suas compensações é um equívoco. “Não há eficácia nestas ações sem um profundo questionamento do modelo de desenvolvimento baseado na exploração dos combustíveis fósseis e no consumo desenfreado”, avalia.

Segundo a pesquisadora, que participa da COP 22 em Marrakesh, a lógica de mercado impera já algum tempo nas Conferências da ONU. Mas há uma expectativa, por parte de organizações ambientais, de que o mau funcionamento destes mecanismos e os impactos negativos que eles criam nos territórios e para as populações que neles vivem também sejam tema das negociações.

“É preciso repensar a economia da forma como a vemos hoje: a lógica vigente é ver a natureza como mais um produto a ser mensurado, medido, valorado. Este modelo, sem qualquer questionamento dos atuais níveis de produção e consumo global, não leva a humanidade a lugar algum”, ressalta Maureen.

A Fundação Heinrich Böll acaba de lançar dois livros que questionam a chamada Economia Verde: “A Métrica do Carbono: Abstrações Globais e Epistemicídio Ecológico” e “Crítica à Economia Verde.” Ambos têm download disponível gratuitamente e versões impressas podem ser solicitadas ([email protected]).

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