Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Hollywood e a ameaça da variante Delta

Atividades culturais têm sido diretamente afetadas pela pandemia (Foto: Pixabay).

Impondo restrições de todos os tipos e, consequentemente, mudanças de hábitos de consumo desde março de 2020, a Covid-19 afetou diretamente o cinema, pois centros de produção e salas de exibição ao redor do mundo tiveram de interromper suas atividades – nos Estados Unidos, por exemplo, 85% das salas voltaram a funcionar nos últimos meses, mas seguindo protocolos de segurança, de acordo com a Comscore. A situação do mercado americano somente começou a melhorar com a vacinação em massa da população, entretanto, a fatia que ainda se recusa a receber o imunizante, disponível (com sobra!) naquele país, está colocando terceiros em risco sobretudo neste momento de propagação da variante Delta, originada na Índia e mais transmissível, motivo de preocupação para a Organização Mundial da Saúde (OMS). E tamanho negacionismo, independentemente do país, propicia o surgimento de novas variantes, agravando o cenário pandêmico que impacta diretamente a economia.

 

Há poucos meses, o governo de Joe Biden afrouxou as restrições em solo americano, baseado na queda dos números de casos e óbitos, abolindo a máscara em diversos locais, principalmente áreas abertas, tornando obrigatório o cartão de vacinação em determinadas cidades e situações. Isto pode ser exemplificado com o primeiro grande show da chamada reabertura, realizado pelo Foo Fighters no Madison Square Garden, em Nova York, em 20 de junho deste ano, no qual todo o público precisou apresentar prova de vacina na entrada. No próximo mês, a cidade de Nova York exigirá o comprovante a frequentadores de restaurantes, academias e cinemas, por exemplo.

 

“Jungle Cruise” é estrelado por Dwayne Johnson e Emily Blunt (Foto: Divulgação).

 

Enquanto medidas que visam à segurança da população são estudadas e tomadas, o cinema, que dava indícios de recuperação há algumas semanas, começa a sentir os efeitos da ameaça da variante Delta, o que pode ser observado no desempenho do último lançamento da The Walt Disney Company, “Jungle Cruise” (Jungle Cruise – 2021), de Jaume Collet-Serra. Baseado em uma das principais atrações dos parques temáticos do grupo do Mickey, o longa seguiu os passos de “Cruella” (Cruella – 2021) e “Viúva Negra” (Black Widow – 2020), estreando simultaneamente nos cinemas e na Disney+, com custo adicional do Premier Access – o filme custou cerca de US$ 200 milhões e abriu com US$ 34 milhões nos Estados Unidos, US$ 27,6 milhões nos outros mercados e US$ 30 milhões no Premier Access, da Disney+, em todo o mundo, segundo a Variety. Outrora considerado baixo, o lucro obtido pelo live-action protagonizado por Dwayne ‘The Rock’ Johnson e Emily Blunt ficou dentro da expectativa dos executivos do estúdio e de analistas em tempos sombrios de pandemia. Contudo, o faturamento do mercado americano reflete, sim, a preocupação do público com a Covid-19, mostrando que, apesar da vacinação e dos constantes esforços do governo Biden para garantir uma volta segura à normalidade, o perigo representado pelo vírus ainda é uma realidade que impõe cautela.

 

“Velozes e Furiosos 9” é produzido e estrelado por Vin Diesel (Foto: Divulgação).

 

Novamente utilizando “Jungle Cruise” como exemplo, os números mostram não apenas a redução do público em virtude do aumento do número de casos de Covid-19 nos Estados Unidos, como também que não basta ser um produto de apelo popular, pois a opção mais segura para os exibidores em termos de rentabilidade, bem como para os estúdios, atualmente, são longas que pertencem a franquias já conhecidas e aclamadas pelas massas, justificando sua saída do ambiente doméstico pelo risco reduzido de desapontamento com personagens e histórias, como “Velozes & Furiosos 9” (F9: The Fast Saga – 2021), “Um Lugar Silencioso – Parte II” (A Quiet Place Part II – 2021) e o já citado “Viúva Negra”, que somam ao redor do globo US$ 643 milhões, US$ 293,6 milhões e US$ 345,3 milhões, respectivamente, segundo o Box Office Mojo – “Viúva Negra” protagoniza um imbróglio judicial, pois Scarlett Johansson está processando a Disney sob a alegação de ter sido prejudicada financeiramente pelo lançamento híbrido, uma vez que seu contrato prevê participação no lucro das bilheterias.

 

“Viúva Negra” é o primeiro filme da Fase 4 do UCM (Foto: Divulgação).

 

No cenário no qual a necessidade de cuidados, atenção e cautela, a estreia híbrida parece ser uma solução a curto prazo para os estúdios que adiaram seus filmes por muitos meses, lançando em 2021 parte do catálogo de 2020, mas acaba criando outros problemas até mesmo financeiros. Isto se deve ao fato de os títulos serem disponibilizados aos assinantes, sem custo adicional, poucas semanas após o lançamento comercial, o que, num período de crise econômica, faz com que muitos consumidores esperem mais um pouco para evitar gastos extras – não contabilizando, aqui, os downloads ilegais que assombram a indústria do entretenimento desde o início dos anos 2000, causando prejuízo incalculável.

 

Além disso, a quebra da janela de exibição tradicional, acelerada pela pandemia, tem gerado críticas por parte da National Association of Theatre Owners (NATO) a diversos estúdios, não apenas à Disney, e é considerada um dos principais obstáculos para a volta das massas às salas de exibição. Na verdade, o que de fato pesa não é o lançamento híbrido em si, mas a inevitável sensação de medo e insegurança nutrida por fatia considerável dos espectadores, pois as salas são locais fechados e, portanto, propícios para a disseminação do novo coronavírus. E com a propagação da variante Delta, a situação pode piorar para o circuito exibidor, que tem testemunhado o fechamento definitivo de salas mundo afora, principalmente as menores, que não integram nenhum complexo multimilionário e não têm mais como se manter.

 

Não há como negar que, mesmo dentro da expectativa, os números dos últimos lançamentos cinematográficos acenderam o alerta nos executivos dos grandes estúdios, que começaram a cogitar a postergação de produções agendadas para os próximos meses em decorrência da variante Delta, colocando em xeque as estreias de “Venom: Tempo de Carnificina” (Venom: Let There Be Carnage – 2021) e “Sem Tempo Para Morrer” (No Time to Die – 2021) nos próximos meses. Se Hollywood iniciar outra onda de adiamentos em série, inclusive de filmes esperados desde o ano passado, como a nova aventura de James Bond, o circuito exibidor será afetado em escala global, pois é sabido que produções independentes e/ou locais não têm o mesmo apelo de blockbusters nem de títulos de peso estrelados por grandes nomes do cinema hollywoodiano, a menos que o protagonista seja um fenômeno de público em seu país, como era o caso de Paulo Gustavo, vítima fatal da Covid-19, aqui no Brasil – a franquia “Minha Mãe é Uma Peça” é um dos maiores sucessos do cinema nacional.

 

No momento em que o mundo, graças à ciência, poderia estar afrouxando as restrições para voltar à tão sonhada vida normal em segurança, o negacionismo de pessoas que recusam a máscara e o imunizante capazes de salvar vidas coloca a todos em risco tanto pela questão sanitária quanto pela econômica, pois a crise financeira depende do controle da pandemia para ser superada. Afinal, no que tange à Covid-19, atitudes individuais afetam o coletivo.

 

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