Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Festival de Gramado 2020: ‘Me Chama que Eu Vou’

“Me Chama que Eu Vou” concorre ao Kikito de melhor longa brasileiro no Festival de Gramado 2020 (Foto: Divulgação).

Em 1990, a Rede Globo exibiu em horário nobre “Rainha da Sucata”, que rapidamente caiu nas graças do público ao apresentar a história da empresária de origem humilde, Maria do Carmo (Regina Duarte), que, após implorar por migalhas de atenção de seu amor de juventude, o playboy Edu (Tony Ramos), e perder tudo, volta às ruas para o trabalho pesado, resumido no grito de “Sucateira!”. Esta imagem, guardada na memória do telespectador, não é a única lembrança da novela de Silvio de Abreu, pois sua abertura embalada por “Me Chama que Eu Vou”, de Sidney Magal, é uma das mais famosas da teledramaturgia brasileira, responsável por popularizar a lambada como ritmo queridinho dos jovens da época, muito tempo depois do grande sucesso de seu intérprete, “Sandra Rosa Madalena”. Símbolo sexual que se gaba por ter causado crises histéricas em inúmeras mulheres, o cantor tem sua trajetória contada no documentário “Me Chama que Eu Vou” (2020), que concorre ao Kikito de melhor longa brasileiro no Festival de Gramado 2020.

 

Exibido na noite da última quarta-feira, dia 23, pelo Canal Brasil, parceiro do evento que este ano está sendo realizado em formato online por causa da pandemia do novo coronavírus, o documentário não tem o distanciamento necessário entre a câmera e Magal, principal problema apresentado por um de seus adversários na corrida pelo Kikito, “O Samba é Primo do Jazz” (2020), de Angela Zoé. Neste caso específico, a distância seria impossível, pois o filho do cantor, Rodrigo West, é um dos produtores, algo que explica, também, a ausência de elementos que confrontem a imagem e as versões das histórias contadas pelo músico que encanta até crianças. Obviamente, isto se reflete no resultado final do longa, mas a maneira sensível e ágil na qual é conduzido por Joana Mariani acaba por minimizar suas fragilidades e envolver o espectador, inclusive os que não são fãs de Magal.

 

Desta forma, o espectador conhece o homem por trás do amante latino cuja sexualidade sempre foi posta em xeque pela fatia conservadora da sociedade devido ao seu estilo exagerado e, sobretudo, ao rebolado nos palcos. Chamado de “Rei dos Auditórios”, classificado como uma espécie de mistura “entre Elvis Presley e John Travolta”, o cantor entra em cena para explicar as diferenças entre os dois Sidneys: o Magal, ídolo popular, e o Magalhães, homem devoto à família, primo de Vinícius de Moraes, que buscou na Bahia a tranquilidade da vida longe dos holofotes.

 

Respeitando a essência alegre de Sidney Magal, “Me Chama que Eu Vou” cumpre o objetivo de explorar os dois Sidneys, expondo suas qualidades e defeitos, como o narcisismo exacerbado e assumido – “O artista tem a obrigação de ser narcisista” – , confessando ter buscado a fama porque sempre quis ser uma figura amada e discutida. Conhecendo os lados A e B da indústria fonográfica, Magal deixa a emoção tomar conta ao reconhecer a importância da canção que dá nome ao documentário para a sua carreira que, à época do lançamento da novela, estava no ostracismo. Neste ponto, a produção acaba por dimensionar, mesmo que involuntariamente, o poder de alcance da telenovela na cultura e hábitos de consumo da sociedade brasileira, principalmente quando a exibição é em horário nobre.

 

Com estética e estrutura televisivas, “Me Chama que Eu Vou” tem como trunfo a montagem de Eduardo Gripa, que costura com perspicácia depoimentos e imagens de arquivo, mantendo o ritmo ágil da narrativa. No fim das contas, este documentário soa como um especial de TV, mas  funciona a contento por se tratar de um trabalho guiado pela evidente sinceridade dos depoimentos do cantor que superou barreiras do tempo e do preconceito para deixar sua marca na História da música brasileira.

 

Clique aqui para conferir a programação completa do Festival de Gramado 2020, que acontece até o próximo sábado, dia 26, quando serão anunciados os vencedores do Kikito.

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