Virando a mesa – por Rachel Valença

Desfile do Império Serrano 2018. Foto: Juliana Dias SRzd

Que imperiano de fé não está feliz com a notícia de que a escola querida vai continuar no Grupo Especial em 2019? Se essa notícia fosse datada de 14 de fevereiro, dia da apuração, eu estaria feliz e orgulhosa. Mas a data é a de ontem, 28 de fevereiro, e a notícia não resulta de uma apuração de notas, mas de uma virada de mesa. Assim sendo, não pode haver orgulho, e sim um vago constrangimento.

Acho que nenhuma pessoa que se diga sambista ou amante do samba e do Carnaval pode deixar de se sentir atingida pelo que aconteceu ontem, da mesma forma que nos sentimos atingidos um ano atrás, quando Paraíso do Tuiuti e Unidos da Tijuca foram poupadas do rebaixamento apesar de terem nos proporcionado um Carnaval de tristeza e de luto. Acertos espúrios como esses mancham a imagem das escolas de samba e vão enfraquecendo a beleza dessa que já foi uma pujante manifestação cultural do povo desta cidade.

Já foi. Não é mais. Não por acaso, as arquibancadas não ficam mais lotadas. Não por acaso o desfile das escolas de samba não ocupa mais na mídia o espaço que ocupou outrora. Não por acaso os sambas de enredo não estão mais na boca de cada carioca antes e depois dos desfiles. Hoje – e o digo com profunda tristeza – o chamado “espetáculo” quase pede desculpas por existir, por atrapalhar os bailinhos dos camarotes, onde pessoas que não se interessam pelo que está se passando à sua frente desejam apenas tirar fotos e marcar presença.

A bonita disputa pelo título, que se transforma em estrelas nas bandeiras das escolas de samba, acabou. Ela está contaminada por acordos e por interesses extra-samba. Não há regulamento, pura ficção que só serve para ser alterada à mercê de acordos firmados à luz de parcerias e cumplicidades. Os donos do Carnaval não devem satisfações a ninguém, nem mesmo à Riotur, que dá seu apoio à falcatrua mesmo depois de assistir à execração pública da Prefeitura promovida pelas escolas de samba depois que não conseguiram arrancar dos combalidos cofres públicos todo o dinheiro que esperavam.

Tudo bem, há um clubinho fechado onde só se entra com o beneplácito dos mandatários. Neste clubinho, há os indesejáveis, que nem conseguem subir, por mais que se esforcem. Há ainda os tolerados por bom comportamento, que ficam um ou dois anos e voltam ao seu lugar. E há os que aprendem a jogar o jogo e vão permanecendo como figurantes. Esta é a verdade nua e crua. A única coisa que nos cabe é a recusa a referendar esta triste e vergonhosa situação de uma manifestação cultural que perdeu a proteção do poder público e se encontra à mercê de interesses de um grupo de “amigos”, como foi confessado pelo presidente da Grande Rio, em vídeo que circula nas redes.

Aguardo ansiosa a definição da ordem do desfile de 2019. Este ano, o Paraíso do Tuiuti, poupado do rebaixamento, se ofereceu para encerrar o desfile de domingo. Aceitaram. O Império Serrano, que estava subindo de grupo, foi obrigado a abrir o desfile de domingo. Aceitou. A pergunta que não quer calar: Unidos do Viradouro, que subiu da Série A, vai abrir o desfile? Império Serrano, poupado do rebaixamento, vai encerrar o domingo? Qualquer configuração diferente desta é imoral e inaceitável.

(Relendo o último parágrafo, com o qual pretendia encerrar o texto, tive que rir de mim mesma. É muito ridículo ficar esperneando diante de uma situação que perdura há anos e contra a qual ninguém luta. Termino, pois, com uma palavra de louvor aos presidentes de Portela e Mangueira, pela coragem de discordar e de defender o que resta de dignidade às gloriosas escolas de samba do Rio de Janeiro.)

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