Carnaval/RJ

Luto e vergonha, por Rachel Valença

Desfile São Clemente 2019. Foto: Juliana Dias/SRzd

Há muito tempo sim que não escrevo. Não ando muito animada. De muito tempo para cá uma onda de desesperança me contagia em muitos níveis. Se hoje escrevo, não é porque algo me trouxe de volta a alegria. Muito ao contrário. Quem é sambista de verdade hoje está de crista baixa: vergonha, tristeza, luto. E isso não se deve a nenhum fator externo, a nenhuma autoridade que nos humilha ou nos discrimina, a nenhuma manifestação de intolerância religiosa nem de preconceito.

Deve-se a nós mesmos, à entidade que representa as escolas de samba, congregando seus presidentes. O que aconteceu na noite desta segunda(3), três meses após o Carnaval, foi a culminância de um processo de desmoralização progressiva do julgamento das escolas de samba. Se não, vejamos: Acidentes com vítimas, uma delas fatal, têm como consequência não a punição das escolas responsáveis, mas, ao contrário, o absurdo de serem poupadas do rebaixamento. Resultado é alterado a posteriori, por reconhecimento de uma falha técnica no material entregue aos julgadores. E manutenção das duas rebaixadas em 2017, sem que nenhuma explicação fosse apresentada, a não ser a de que a Grande Rio era indispensável à qualidade do espetáculo.

 Quem é sambista de verdade hoje está de crista baixa: vergonha, tristeza, luto.

Assim chegamos ao Carnaval de 2019, com a esperança de que a intervenção do Ministério Público, exigindo a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta para que a Liesa continuasse a manter a posição de gestora do Carnaval, fizesse as coisas caminharem melhor. Muita gente de samba chegou ao cúmulo de questionar a preocupação do Ministério Público com um assunto que, segundo eles, era de uma liga privada de representantes de escolas de samba.

Vale lembrar que a gestão do desfile das escolas de samba é privada somente até a página 2, já que a realização do desfile se dá num espaço público, com serviços custeados pelo poder público em várias esferas. O que surpreende é que o Ministério Público seja obrigado a desempenhar um papel que seria o da Riotur: cobrar da Liesa o desempenho satisfatório das funções a que se propõe. Em vez disso, o que se tem visto de muitos anos para cá é uma identificação tão completa entre as duas instâncias, a ponto de um ex-diretor da Riotur, ter virado gestor da Liesa sem transição ou quarentena.

Logo, se a mesma prefeitura que nega recursos para que as escolas de samba se apresentem de maneira digna (e aqui me refiro em especial às que desfilam na Intendente Magalhães) se omite no tocante a fiscalizar os desmandos e absurdos que grassam nessas instituições, devemos nos alegrar, como cidadãos, que o Ministério Público se preocupe com o assunto.

Vale lembrar que a gestão do desfile das escolas de samba é privada somente até a página 2, já que a realização do desfile se dá num espaço público, com serviços custeados pelo poder público em várias esferas

Nós, sambistas, frequentemente temos de nos justificar perante a sociedade pelo simples fato de existirmos, pois o samba é discriminado e visto não como manifestação cultural que é, mas como antro de gente desqualificada, interessada apenas em levar vantagem. Fica cada vez mais difícil. Que será de nós agora? Como defender escolas de samba que não respeitam nem levam a sério sequer o regulamento que elas mesmas criam?

A decisão de hoje esfrega na cara da sociedade que algumas escolas podem ser rebaixadas enquanto outras são intocáveis. Se assim é, por que julgamento? Por que a presepada de envelopes que chegam em um carro forte ao local da apuração, com grande aparato? Seu conteúdo nada vale. E já tenho dito que o cansaço do público em relação ao maravilhoso espetáculo das escolas de samba vem, entre outras (muitas) razões, do descrédito do julgamento. O desfile das escolas de samba tem, desde sua origem, a característica do certame, da competição. Se, de antemão, sabemos que há intocáveis, perde-se o sentido de comparação.

A Liesa, perdoem a sinceridade, nunca foi santa. Mas o que se viu na votação desta segunda é que os pecadores de outrora já não fazem mais a cabeça da maioria. Sinal de que vem mudança por aí. Creio que um ciclo está se encerrando, tal como aconteceu em 1984, com a criação da Liesa, e como já acontecera em momentos anteriores.

Restam poucos ingênuos nesse nosso mundo do samba. Todos sabemos o que está por trás de tudo isso: “a força da grana, que ergue e destrói coisas belas”, como escreveu Caetano Veloso numa canção. Em todas as ligas de sambistas há hoje irregularidades gritantes e não sei se isso ainda tem conserto.

Triste e acabrunhada como estou, ainda encontro forças para louvar a decisão de renúncia do presidente Jorge Castanheira: não faz sentido continuar à frente de uma instituição da qual perdeu a liderança. E para continuar acreditando que o samba e as escolas de samba são muito mais do que conluios e acertos espúrios. Esses passam. O samba permanece.

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