Nyldo Moreira. Foto: Fausto Império

Nyldo Moreira

Jornalista, especializado em cultura e economia. Ator e autor de peças de teatro. Apresentou-se cantando ao lado de artistas, mas não leva isso muito a sério. Pratica a paixão pela música em forma de textos e críticas. Como diretor, esteve a frente de dois curtas, um deles que conta a vida no teatro.

Gal Costa: Intensa e visceral, faz um de seus melhores shows entre romantismos e temas políticos

Gal Costa | Foto: Nyldo Moreira

“Sou filha de todas as vozes que vieram antes. Sou mãe de todas as vozes que virão depois” – é assim, com esse trecho da música que Nando Reis compôs para ela, que Gal vai nos levando pra dentro de seu canto, já no início do show “A Pele do Futuro”, que lançou CD e DVD no Grupo Tom Brasil, na última sexta (13).

 

Nenhuma superstição faria mal a uma noite sublime como àquela. Aliás, “Sublime” é uma das canções que recriam a atmosfera disco vivida no Brasil. É o momento em que todos começam a levantar e dançar. A linha do tempo é completamente rompida durante todo o show, em que Gal volta ao passado e traz tudo com um frescor absoluto para o hoje.

 

Entre temas políticos e românticos, a baiana atinge uma beleza incomparável e madura de sua voz. Aliás, um dos mais raros e especiais timbres deste país. Os agudos cristalinos rasgam graves ao meio e preenchem todo o espaço, nem o ar escapa. Um som impecável que valseia junto ao desenho de luz escolhido como cenário de um período ouro para Gal. Produzida por Marcus Preto, Gal veio vestindo uma roupagem transgressora desde o álbum “Recanto”, dirigido na época por Caetano Veloso e que assisti dezenas de vezes.

Gal Costa | Foto: Nyldo Moreira

Num vestidão rosa, Gal dá tom à “Azul”, de Djavan. Um eterno sucesso em sua voz, assim como “Chuva de Prata”, que espelha estilhaços prateados em sua face. “Dê um Rolê”, dos Novos Baianos, está de volta com a mesma temperatura de Fa-Tal – Gal a Todo Vapor, show icônico na carreira da cantora. De Jorge Ben, “Que Pena (Ela já não gosta mais de mim)” é um convite para ser cantada junto. Da mesma forma que “Sua Estupidez”, de Roberto e Erasmo Carlos. Até a internacional “Satisfaction”, dos Rolling Stones ganhou guitarradas e os agudos de Gal. “Vaca Profana”, de Caetano Veloso, foi entoada, interpretada e cantada como se fosse um recado para os tempos atuais.

 

“Vou cantar uma música que o Marcus Preto me mostrou de um compositor que eu nunca gravei. Ele era lindo, mas era muito galinha”, foi assim que Gal anunciou o, talvez, ponto alto do show: a canção “O Que é Que Há”, de Fábio Jr. Com uma doçura irresvalável e um cristalino, a canção ganha toda a poesia na voz da Gal. “Volta”, de Lupicínio Rodrigues, já havia sido ensaiada pela cantora em alguns shows passados, quando fez homenagens ao compositor. Voltou, em “A Pele do Futuro” ainda mais intensa.

 

Os dias de conturbação política no Brasil inspiraram a cantora incluir “Brasil”, também eternizada nas vozes dela e de Cazuza. Gal disse que “o atual momento” precisava dessa música, e logo soltou “Brasil, mostra a tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim”. O público reagiu e protestou contra o presidente Jair Bolsonaro.

Gal Costa | Foto: Nyldo Moreira

Com uma incrível energia, a baiana encerrou cantando um pout pourri, com “Balancê” e “Festa do Interior”. Parecia um daqueles festivais de outras épocas, em que a música era intensamente vivida e interpretada pelos ouvintes.

 

Gal Costa fez um dos melhores shows de sua vida! Em voz, roteiro e todo o conjunto da obra e da entrega.

 

O CD, DVD e Vinil, “A Pele do Futuro” foi lançado pela gravadora Biscoito Fino e está a venda, e nas plataformas digitais. Mas, nada como ter um objeto físico, cuidadosamente trabalhado, em nossas mãos, para se ouvir religiosamente. A música educa, catequisa, muito melhor que demais coisas. Vinda de um CD então!

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