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Minha trajetória no samba; Manoela Cardoso, por Eliane Santos

Porta-bandeira Lins Imperial. Foto: Geissa Evaristo

Porta-bandeira Lins Imperial. Foto: Geissa Evaristo

Nascida, criada e residente em Niterói! É Técnica em Enfermagem. Ela tem formação em Educação Física, pela UNIP, porém não leciona desde 2020, porque optou em trabalhar com dance mix e zumba.

Atualmente atua com massoterapeuta e esteticista, e cursa o quarto período de Biomedicina na Estácio. E tem um lindo título, que lhe foi concedido em 02 de abril de 2008: “Mãe do Antonio”.

Começou a fazer Boxe Inglês para desestressar. Seu esposo, Eduardo Frazão, é professor e lutador, e ela se tornou Instrutora no projeto dele, o “Box para Todos”, (uma parceria com a R1 Fitness, em Niterói, que oferece bolsas para alunos da comunidade) onde ministra aulas de figth dance, uma dança adaptada com movimentos de boxe. Essa mulher majestosa, fica em forma, principalmente, para o desfile de Carnaval, fazendo Boxe!

                                                                                    

Em perfeita sintonia com seu mestre-sala, ela atua no Projeto “LINS é Saúde nota dez”, na comunidade do Lins: ele, treino funcional e ela, dança. Também colabora na organização do Projeto “Frutos do Amanhã” (que tem origem em São Gonçalo, no bairro Trindade) de suas amigas, Jaqueline e Thaís.

Estas amigas queriam ampliar o projeto para o Rio e ela, pensando em sua comunidade, conversou com seu presidente Flávio Mello, e este acolheu as atividades em sua agremiação de samba. Muito ativa e sempre antenada nas questões sociais, ela é voluntária no Amigos da Rua, cujo objetivo é levar amor através de comida.

Em busca de novos conhecimentos e aprendizagens, ela frequenta muitos projetos e aulas. Dentre alguns projetos, fez aulas, com João Paulo Machado, onde adquiriu técnicas para a dança em chão escorregadio e áspero, técnicas de giro, fez cursos de auto-maquiagem e marketing pessoal.

E na dança, sua paixão é o bailado do mestre-sala e porta-bandeira. No desfile das escolas de samba da Série Ouro em 2022, esta belíssima dama foi cortejada por seu galante mestre-sala, o Jackson Senhorinho. O casal gabaritou 40 pontos! Apresento, a Manu, Manoela Cardoso, da Lins Imperial!

“Minha história começa aos oito anos de idade. Filha única e tímida demais (daquelas que andam “curvadinhas”, quase invisíveis), morava com mãe, dona Dora e avó, dona Glória, e as duas eram “crentes”. Um dia minha mãe precisou me deixar na casa da minha tia (que vinha ser harmonia da Cubango) para ir num retiro da igreja.

Justamente neste dia, tinha samba. Minha tia me arrumou e fomos eu, ela e meus três primos. Chegando lá, aquilo me assustou muito, era um som altíssimo, pessoas dançando e rindo. Mas eu gostei do ambiente e comecei a correr, colocar a mão nos instrumentos, fazer amizades com outras crianças e de repente pessoas abriram uma grande roda e, dentro dessa roda tinha uma moça linda, a Elaine, com um vestido colorido de saias em camadas, ela segurava a bandeira e dava a mão ao Edson, um moço de terno elegante.

Parecia teatro de contos de fadas, tudo muito diferente do que eu já havia visto. Quando a bateria deu um “arranque”, a moça girava como um pião. Eu olhei e comecei a girar também, imitando os movimentos, mas fui interrompida, pega pelo braço pela tia Terezinha, responsável pelos casais e ala de mestres-salas e porta-bandeiras mirins da escola, que perguntou: ‘Menina, cadê sua mãe?’ Eu disse: Estou aqui com minha tia Elena, ela está ali.

Agarrada no meu bracinho, foi até minha tia e disse a ela que precisava de uma garotinha assim, e que tinha um menino na ala dela sem par. Deu o endereço dela e pediu para que me levasse lá no dia seguinte.

Minha tia, no dia seguinte, foi me levar para minha mãe e antes que ela contasse o que aconteceu, eu olhei para minha mãe e disse: ‘Eu sou porta-bandeira ‘.

Daí, minha mãe perguntou a minha tia como era aquilo e que ela não poderia me acompanhar por conta da religião, mas a minha avó disse a ela que era só ela não desfilar, só me levar quando minha tia não pudesse ir. Minha mãe me levou na casa da tia Terezinha e lá naquela manhã me fizeram um vestido e um talabarte.

O tio Edson, enquanto o vestido estava no “forno”, dançava comigo no quintal para que eu aprendesse o ofício. A noite, eu estreava como Porta-Bandeira Mirim pela Cubango em uma visita a Unidos da Ponte.

Depois desse dia, passei a frequentar a Escolinha de Mestre-Sala e Porta-Bandeira do Rai Santos (O porta-bandeira) cujas aulas aconteciam na sede da Associação das Escolas de Samba de Niterói. Ali foi onde me firmei na dança (muito emocionada escrevendo), Rai faz muita falta.

O Tuninho, mestre-sala, era instrutor desse projeto e me incentivou a participar do concurso para casais mirins na Porto da Pedra. Seriam selecionados seis casais. Eu entrei e lá fiquei por três anos.

Com a morte do Rai, todos os alunos foram transferidos para a Escola do Manoel Dionísio no Rio de Janeiro. Muitos com a dificuldade de deslocamento Niterói/Rio, desistiram de dançar. Eu continuei firme e, no mesmo ano, aos quatorze anos virei porta-bandeira do Engenho da Rainha. Minhas notas não foram satisfatórias, fiquei muito triste, mas não desanimada. Entendi que eu não podia pular etapas. E no ano seguinte me veio uma proposta para o Boi da Ilha, mas eu acabei decidindo ficar como segunda porta-bandeira na Estácio de Sá.

Saindo da Estácio, dois anos depois fui para a Acadêmicos da Abolição, ali já me sentia preparada e alcancei meu objetivo.

Guarda essa informação: fui a uma festa de bandeiras na Lins em 2002, pela Abolição, detestei a escola e, disse a minha mãe que nunca voltaríamos lá! (risos!). No meu segundo ano de Abolição, fui a uma festa do Samba-Net e o mestre-sala Cristiano me convidou para ser o par dele aonde???  Sim, lá na Lins.

A Abolição desfilava na Rio Branco e Lins na Marquês. Então fiquei de primeira em uma e de segunda na outra. Apaixonei, no ano seguinte assumi o pavilhão principal em 2005 e, fiquei até 2006. Em 2007 me desliguei da escola por conta da troca de administração e participei de um concurso na Paraíso do Tuiuti. Já havia antes passado por um concurso lá para segunda, (mas não ganhei) em 2001. Em 2007, eu fui para lavar minha honra e ganhei.

O tempo sempre foi importante na minha trajetória, daí, eu ganhei gosto em participar de concursos: foram oito concursos, mesmo que eu não levasse o pavilhão, eu saia dali com uma bagagem enorme de conhecimentos em geral.  No concurso da Unidos da Tijuca, percorri diversas etapas e no da Vila Isabel, tive a oportunidade de conhecer melhor e dançar com Jackson Senhorinho, que escolhi para dançar em 2022. Concurso te leva ao extremo: desperta o senso, autoavaliação, dá capacidade de dançar com qualquer pessoa e melhora a presença de palco. Participem de concursos!

Em 2008 não desfilei, dei uma pausa para virar mamãe. Mas, em julho, retomei as atividades, de volta a Lins Imperial para desfilar em 2009. Foi um ano difícil, estava com 15 quilos a mais, criança pequena e trabalhando integral. Não deixei cair o nível, porque sabia que se relaxasse, meu sonho de dança iria acabar, pois o sobrepeso estava prejudicando meu joelho.

Como se não fosse só os problemas pessoais, as coisas na minha escola não iam nada bem. Muitas trocas de gestão e em 2011 fomos rebaixados. A escola ficou parada, sem um novo presidente e sem saber se ia desfilar, aceitei o convite da coirmã Arranco do Engenho de Dentro, desfilei em 2012.

Em 2013 resolvi mudar para Rio das Ostras e deixar Carnaval de lado. No entanto, recebi uma ligação, uma semana antes dos desfiles: era a Lins pedindo que eu fizesse aquela passagem por eles. Eu não pude negar e sem saber samba, sem ter fantasia … desfilei. Aquele desfile me deixou abalada. Era a segunda vez que eu caia com a Lins. Ver a escola afundando e não podia fazer nada. Entreguei o pavilhão no final e dei carreira encerrada.

Voltei a morar em Niterói e queria voltar a dançar. Fui para o Favo de Acari, foram três anos até o retorno para Lins Imperial, (grupo C, Intendente Magalhães) e, a escola foi se levantando até que 2020, foi a campeã da Série Prata. Estava de volta a passarela do samba e para minha surpresa, eu continuaria na equipe.

Nesses quatro anos antes do retorno a Sapucaí, eu vim me preparando muito para estar à altura dos outros casais. Foram dietas, treinos para resistência física, estudos sobre a dança, etc. De acordo com as estatísticas, subir, abrir desfile e dar os 40 pontos, não combinam. Como disse anteriormente o tempo é o grande aliado.

Tenho trinta anos de porta-bandeira, amo o que faço. Agradeço o que o samba fez na minha vida: a inclusão social, a força para persistir e a crença em mim mesma, hoje fazem toda a diferença”.

Eliane Santos de Souza é professora e pesquisadora do tema: dança, dança do samba, bailado do mestre-sala e porta-bandeira. Lecionou, como substituta, no curso de Bacharelado em Dança da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ. É Doutora em Arte pelo PPARTES-UERJ com a tese: Daqui de onde te vejo: reflexões de uma porta-bandeira sobre o mestre-sala, com publicação em formato de livro com o mesmo título. É Mestre em Ciência da Arte- UFF com a dissertação: Uma semiologia do samba: O bailado do mestre-sala e da porta-bandeira. Ainda é especialista em Educação pela Universidade Federal Fluminense, Docente do Ensino Fundamental e especializada em Educação Infantil. Porta-bandeira aposentada, é apoio, orientadora e apresentadora de casais. Foi membro de comissões julgadoras do quesito mestre-sala e porta-bandeira, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, São Paulo e Uruguaiana.

Crédito das fotos: portal SRzd
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal SRzd

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