Carnaval/RJ

Do Cristo Mendigo à emoção de Pamplona: a história escrita por Ratos e Urubus

Desfile da Beija-Flor 1989. Foto: Reprodução.

“Vocês jamais vão ter um espetáculo tão bonito, gente! Entra agora a polícia! Entra agora essa justiça fajuta! Entra agora, entra agora no meio do povo se tiverem coragem! Impeçam o que o povo vê, o que o povo está gostando. Impeçam, se tiverem coragem!”, exclamou, emocionado, Fernando Pamplona, o “Pai de Todos”, responsável pela chegada de inúmeros talentos ao carnaval carioca, dentre eles o criador desse momento único na história dos desfiles, ao qual o ex-carnavalesco do Salgueiro, então comentando o carnaval pela extinta Manchete, se referiu. Chocante, inovador, revolucionário, vários são os adjetivos utilizados para qualificar “Ratos e Urubus, larguem minha fantasia”, para muita gente boa, o maior desfile de todos os tempos. Outro gênio, da Música Popular Brasileira, Caetano Veloso, um, dentre tantos, maravilhado com o talento de Joãozinho Trinta, eternizaria o carnavalesco e, por conseguinte, esse desfile, em uma de suas canções, citando-o em “Reconvexo” (Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor?”), justificando: “Quem não seguir o mendigo Joãozinho Beija-Flor não pode ser reconvexo, não pode ser mundial”.

Nunca antes na história dos desfiles houve tanta unanimidade, tanto consenso para decidir qual escola deveria ser campeã do carnaval. Uma escolha absoluta do público, jornalistas e até mesmo torcedores de outras escolas. O júri, por sua vez, decidiu que a Imperatriz Leopoldinense, que, justiça seja feita, havia feito um desfile impecável, consagrar a agremiação de Ramos como a campeã do carnaval carioca. “Por que perdeu?”, perguntou anos mais tarde o jornalista Marcelo de Mello, ao questionar os motivos que levaram a Beija-Flor não conquistar o título daquele ano, a mesma pergunta que muitos, milhares tentam achar a resposta até hoje. Confira abaixo meu relato sobre a arrebatadora apresentação da azul e branco de Nilópolis em 1989, com seu “Ratos e Urubus”, larguem minha fantasia”:

Ainda rapaz, na sua São Luís do Maranhão, o menino Joãozinho, balconista de uma vendinha, deixava intrigado o dono do armazém ao olhar, demoradamente, as cascas de cebolas que ficavam penduradas no teto. Quando o chefe o questionou do motivo do olhar contemplativo para algo tão banal, ele respondeu: “Me lembra a cortina de um teatro que jamais vi, que só existe num canto do meu inconsciente”. Pouco tempo depois, deu asas a seus sonhos, tornando-os concretos, ao fazer parte do corpo de baile do Municipal, do Rio de Janeiro. Daquele momento em diante o teatro sempre esteve presente na vida do carnavalesco, em boa parte de sua vida, dando expediente no barracão da Beija-Flor e no Theatro Munipal, de onde era funcionário.

Joãosinho 30. Foto: Reprodução

Foi até tardio, talvez, que ele resolvesse teatralizar o desfile das escolas de samba, como o fez naquele ano de 1989. Tão chocante e inovador quanto o próprio desfile em si. E a ideia era chocar mesmo. De cara, caracterizados como mendigos, com roupas estropiadas, dentes sujos, integrantes de grupos teatrais simulavam brigas, pediam bebida para o público, olhavam como loucos para a plateia, fitando-a, com os olhos esbugalhados. Vários desses esfarrapados, cercados de lixo por toda a parte, faziam uma montanha em torno, como se uma base fosse, da grande vedete daquele desfile: o “Cristo mendigo”, que veio coberto e com os célebres dizeres: “Mesmo proibido, olhai por nós”, ressaltando que não havia mais impedimento para que a alegoria viesse descoberta, já que a liminar impetrada pela Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro havia sido cassada dois dias antes.

E Joãozinho, em entrevista ao Jornal O Globo da quarta-feira de cinzas, fez questão de afirmar que o grande mérito da escola havia sido teatralizar: “O desfile das escolas de samba é uma grande ópera de rua e a Beija-Flor deu mais peso a esse aspecto do carnaval, levando para a Passarela integrantes da Escola de Teatro da Uni-Rio e dos grupos Tá na Rua (de Almir Haddad) e Star. Esta é uma inovação que veio para ficar e, a partir de agora, deverá ser incorporada por outras escolas, como aconteceu quando coloquei os destaques no alto dos carros alegóricos, em 1973”, justificou. Sem dúvida. Desde então, teatralizar um desfile, ou uma parte dele, passou a ser um expediente bastante utilizado pelas agremiações nos desfiles, pela própria Beija-Flor inclusive, em vários de seus títulos conquistados depois de 1998.

Extremamente culto, Joãozinho Trinta recorreu ao dramaturgo Victor Hugo, e sua obra “Os Miseráveis”, para criar outra alegoria que entrou para a história do carnaval, “Convite”, que continha um imenso cartaz, convocando: “ATENÇÃO, mendigos, loucos, profetas, esfomeados e povo de rua: tirem dos lixos deste imenso país restos de luxos… Façam suas fantasias e venham participar deste grandioso BAL MASQUÉ”. Dentre os figurantes que encarnavam mendigos no carro estava aquele que, anos mais tarde, com seu talento, revolucionaria o carnaval: o gênio Paulo Barros, que passava horas e horas no barracão da azul e branco de Nilópolis, contemplando o que via e observando, aprendendo o nobre ofício de criar alegorias e fantasias.

Laíla. Beija-Flor. Foto: Henrique Matos
Laíla. Foto: Henrique Matos

Por mais impactante que fosse o visual apresentado, chocante, não seria o suficiente para que “Ratos e urubus” seja considerado um desfile antológico. A apresentação da Beija-Flor foi perfeita, harmonia, evolução sem falhas, compacta, o canto da escola contagiando o público presente, mérito total de outro gênio da folia, Laíla. A bateria, comandada por Mestre Pelé, sustentou bem o ritmo, com um desempenho irrepreensível. O samba, mesmo não constando entre os melhores do ano, longe disso, atendeu muito bem ao desfile. É mais do que necessário, justo, exaltar um nome nem sempre lembrado como deveria: Viriato Ferreira. Nesse mesmo momento, um marco da história do carnaval, sua importância, na confecção das fantasias, que tornou tão real a caracterização de componentes, como se mendigos fossem, não teve, e não tem, o destaque devido. Joãozinho Trinta, em êxtase, fechava a apresentação histórica fantasiado de gari da COMLURB, com uma mangueira na mão, dando um banho no público.

Os analistas, críticos presentes, lutavam para encontrar palavras para definir tamanho encantamento com o que acabaram de assistir, um delírio coletivo na avenida. Sérgio Cabral, ao periódico O Dia, comentou: “Chamado para trazer os meus comentários sobre o início do desfile, quase repeti os oradores de antigamente, que diziam não ter palavras para expressar alguma coisa. Não tinha palavras mesmo. Confessei-me embasbacado e fim de papo. Vejo desfile de escolas de samba desde o início da década de 50 e nunca sentira aquela sensação provocada pela obra de Joãozinho e Viriato Ferreira. Desbundei”. Haroldo Costa destacou que o grande mérito do carnavalesco foi mostrar que tudo pode ser usado, “mas por quem sabe usar”, afirmou.

Porém, sem dúvida, o relato que ficou para a história foi o de Fernando Pamplona, feito durante o desfile das campeãs, quando integrantes da escola, para desespero de Anísio, começaram a arrancar o plástico que envolvia a polêmica alegoria, além da faixa que denunciava a censura à obra-prima do carnavalesco. Logo após Paulo Stein, o narrador, alertar: “Estão tirando a cobertura do Cristo!”, Pamplona fez o emocionado relato, da cabine da Manchete, onde era um dos comentaristas: “Este é um momento glorioso! Glorioso! Glorioso, gente! O povo aplaude. E tem coragem. Estão tirando o negro de cima do Cristo (o plástico negro). Acompanhem, pelo amor de Deus! Acompanhem o povo em êxtase! Vocês jamais vão ter um espetáculo tão bonito, gente! Entra agora a polícia! Entra agora essa justiça fajuta! Entra agora, entra agora no meio do povo se tiverem coragem! Impeçam o que o povo vê, o que o povo está gostando. Impeçam, se tiverem coragem! Que desonestidade proibirem uma beleza dessas!”. Logo após componentes da Beija-Flor recolocarem, às pressas, o plástico na alegoria”, Fernando Pamplona finalizou: “Sabem de uma coisa, gente? Eu vou pra cadeia com João. E agora? Como ficam os detratores de Joãozinho, que falavam que ele só ganhava com o luxo, fazendo coisa bonita? Como ficam agora aqueles que não sabem o que é imaginação, criatividade, o que é um artista. Desculpa engasgar, mas tá emocionante demais”, complementou seu emocionado relato.

Fernando Pamplona. Foto: Reprodução

Ao jornal O Globo, da quarta-feira de cinzas, Joãozinho Trinta, na ressaca da antológica apresentação da escola de Nilópolis e embalado por vários Estandartes de Ouro, dentre eles o de “Melhor escola”, fez as suas observações sobre o que foi aquele desfile e alguns aspectos sobre os momentos que o antecederam. Entrevista concedida às jornalistas Fabiana Sobral e Sílvia Fonseca: O GLOBO – “A impressão que se tem é de que as fantasias foram feitas com criatividade, mas sem muito trabalho…”. Joãozinho Trinta – “Pelo contrário, foi bem mais difícil. Tivemos que tomar muito cuidado para evitar que, em vez de roupa de mendigo, as pessoas achassem que os componentes estavam vestidos de caipiras. A dificuldade foi maior porque queríamos representar realmente o arquétipo da miséria. Havia muitos tipos de mendigos: o que pede esmolas e mexe em latas de lixo, o que vai a festas, o que vive pelas ruas e toma banho de chafariz. Acho que o resultado acabou compensando”. O GLOBO: “Por que a Beija-Flor não recorreu da medida impetrada pela Arquidiocese para proibir a saída do carro que trazia o Cristo Redentor esfarrapado?”. Joãozinho Trinta: “Porque a decisão da Arquidiocese evidencia a visão que as pessoas ou entidades têm do carnaval. Hoje o carnaval é muito mais que um espetáculo erótico. É uma das maiores demonstrações da arte popular brasileira. Pela única vez no ano, o povo participa. Por isso, a escola de samba é a única coisa valiosa que nos resta. A imagem de um Cristo mendigo é contundente, mas é também o reflexo da miséria humana, quando projetada para cima, quando encarnada por um ser transcendente ligado à classe Z”. O GLOBO: “Quanto custou a fantasia mais barata?”. Joãozinho Trinta: “Não sei o preço do lixo”.

A Folha de São Paulo resolveu provocá-lo, relembrando a sua frase mais famosa: FOLHA DE SÃO PAULO: “O desfile de miseráveis não contraria sua declaração, de que pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual? O carnavalesco explicou, de maneira sucinta, o que de fato queria dizer com aquela afirmação: “O luxo de que falava é este: o luxo da alegria, da emoção, da participação”. Caetano Veloso, gênio da MPB, maravilhado com o talento de Joãozinho Trinta, anos depois, eternizaria o carnavalesco em uma das suas canções, citando-o em “Reconvexo” (“Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor?”), justificando: “Quem não seguir o mendigo Joãozinho Beija-Flor não pode ser reconvexo, não pode ser mundial”.

Talvez nunca na história dos desfiles tenha havido tamanha unanimidade, consenso com relação à escola que deveria ser campeã do carnaval carioca. Sem nenhum demérito às demais agremiações, principalmente à Imperatriz, que realizou um desfile perfeito. A escolhida pelo público, pela imprensa, talvez até mesmo pelos torcedores das agremiações rivais. Mais uma página de ouro da história do carnaval carioca acabara de ser escrita, consagrando de vez Joãozinho Trinta como o maior de todos os carnavalescos e colocando “Ratos e urubus” no rol dos melhores desfiles de todos os tempos, para muita gente boa o melhor de todos.

Sobre o autor

Natural de Padre Miguel, Jorge Renato Ramos é pesquisador, bacharel em Letras/Francês (UFRJ/UERJ) e autor da série de livros “Apoteótico: os maiores Carnavais de todos os tempos”.

 

 










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