Carnaval/RJ

Os dez maiores sambas-enredo de todos os tempos, por Jorge Renato Ramos

Ala de baianas do Império Serrano em 1983. Verde e branca tem três sambas na lista das maiores composições da história. Foto: Sebastião Marinho

Certamente você, leitor dessa coluna, apaixonado pelas escolas de samba do Rio, tem a sua lista com os maiores sambas-de-enredo de todos os tempos, com seus sambas preferidos, claro, e com aqueles que, mesmo sem gostar tanto assim, reconhece que estão em outro patamar. Dentre esses, acredito, devem estar na lista de muita gente clássicos do gênero, como “Aquarela Brasileira”, de Silas de Oliveira, “Heróis da Liberdade”, também do Viga Mestre, Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira, bem como o mega sucesso “Peguei um Ita no Norte”, conhecido como “Explode coração”, de Demá Chagas, Arizão, Celso Trindade, Bala e Guaracy.

Comecei a acompanhar o universo das escolas pela proximidade da minha casa com a quadra da Mocidade Independente de Padre Miguel, em primeiro lugar, mas, principalmente, ouvindo sambas-enredo. Difícil dizer o primeiro que ouvi, mas com certeza é um desses três: “Hoje tem marmelada” (David Corrêa), “Brasiliana” (Loiola, Djalma Santos e Domenil) ou “Descobrimento do Brasil” (Toco, Djalma Crill). Por falar em David Corrêa, no meio de tanta gente boa que deixou seu nome marcado na história portelense, para mim, ele é o maior compositor de sambas-de-enredo da história da escola, assim como são Hélio Turco, para a Mangueira; Toco, para a Mocidade e Martinho, para a Vila Isabel.

Fazer uma lista é sempre uma pauta polêmica, principalmente quando não há unanimidade e vários outros fatores entram em cena. Preferências. A minha lista dos dez melhores sambas-de-enredo de todos os tempos é a seguinte:

10º lugar
“Brasil, flor amorosa de três raças” (Mathias de Freitas/Carlinhos Sideral)

Samba que, de tão belo, dividiu preferências, em 1969, com dois clássicos do gênero: “Heróis da Liberdade” e “Iaiá do Cais Dourado”, do mestre Martinho da Vila. Dizem que, de um bom enredo, invariavelmente sai um bom samba. A Imperatriz foi a primeira escola a apresentar um departamento cultural, com nomes como Hiram Araújo e Amaury Jório. O enredo de 1969, riquíssimo, era baseado em um trecho do poema “Música Brasileira”, de Olavo Bilac, que diz: “E em nostalgias e paixões consistes, Lasciva dor, beijo de três saudades, Flor amorosa de três raças tristes”. (“Vejam, de um poema deslumbrante, germinam fatos marcantes deste maravilhoso Brasil. Que a lusa prece descobria, botão em flor, crescendo um dia nesta mistura tão sutil. E assim, na corte os nossos ancestrais, trescalam doces madrigais de um verde ninho na floresta. Ouçam na voz de um pássaro cantor um canto índio de amor, em bodas perfumando a festa”)

9º lugar
“Rio Grande do Sul na festa do Preto Forro” (Dário Marciano e Nilo Mendes)

A Estácio de Sá, antiga Unidos de São Carlos, pode se orgulhar de ter conquistado o primeiro Estandarte de Ouro de samba-enredo da história, em 1972. Samba que fez um enorme sucesso na voz de Beth Carvalho, que, aliás, desfilou na escola naquele ano. O sucesso dessa canção romperia com o estigma de que Beth era uma “cantora de festivais”. “O negro na senzala cruciante, olhando o céu, pedia a todo instante. Em seu canto de lamento e saudade, apenas uma coisa: liberdade. Em seu canto de lamento e saudade, apenas uma coisa: liberdade”

8º lugar
“História do negro no Brasil” ou “Sublime Pergaminho” (Zeca Melodia, Nílton Russo e Carlinhos Madrugada)

Taí um samba presente em boa parte das listas de melhores sambas da história. “Sublime Pergaminho”, como é mais conhecido, foi considerada a melhor composição daquele ano de 1968, o primeiro em que foi lançado um lp contendo os sambas de todas as escolas, graças ao MIS, o Museu da Imagem e do Som, e permitiu à Unidos de Lucas, agremiação que contava com apenas dois anos de história (fruto da fusão da Unidos da Capela com a Aprendizes de Lucas), um honroso quinto lugar, reafirmando o lugar que já era ocupado pelo azul e branco da Capela, como quinta força do carnaval carioca. “A princesa chorou a receber a rosa de ouro papal. Uma chuva de flores cobriu o salão e o negro jornalista, de joelhos beijou a sua mão. Uma voz na varanda, no Paço, ecoou: – Meus Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão!”

7º lugar
“Cem anos de liberdade, realidade ou ilusão?” (Hélio Turco, Jurandir e Alvinho)

Em 1988, comemorou-se os cem anos da lei Áurea. Diversas escolas, claro, aproveitaram a ocasião para levar para a Avenida enredos em que o negro era protagonista de alguma forma. A Estação Primeira de Mangueira questionava, por meio daquele que é, para mim, o melhor samba da sua história, se a liberdade era real ou apenas ilusão, pois, se estava livre do açoite da senzala, estava preso na miséria da favela. O belíssimo samba-enredo levaria nas costas a Mangueira rumo ao tricampeonato, se não houvesse uma “Kizomba”, o maior desfile da história, no meio do caminho. “Moço, não se esqueça que o negro também construiu as riquezas do nosso Brasil. Pergunte ao Criador quem pintou essa aquarela. Livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”

6º lugar
“Quilombo dos Palmares” (Noel Rosa de Oliveira, Walter Moreira e Anescarzinho)

1960 é um marco na história do carnaval carioca, por conta da chegada de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues ao Salgueiro, que revolucionaram os desfiles, levando para a Avenida enredos em que o negro era protagonista e não mais “heróis de capa espada”, da história oficial, como era regra até então. A chamada Revolução Salgueirense, revolução estética e temática. O belo samba de Anescarzinho, Walter Moreira e Noel Rosa de Oliveira (que, além de compor, foi o puxador da escola) tem como refrão final um trecho de “Coroa Imperial”, maracatu composto em 1937, pelos irmãos pernambucanos Paulo e Sebastião Lopes. “E, lá no alto da Serra, contemplando a sua terra, viu em chamas a sua Tróia. E, num lance impressionante, Zumbi, no seu orgulho, se precipitou lá do alto da Serra do Gigante…”

5º lugar
“Os cinco bailes da história do Rio” (Silas de Oliveira/Dona Ivone Lara/Bacalhau)

Não bastasse a beleza de sua letra e melodia, que retrata, com poesia ímpar, cinco grandes bailes ocorridos na cidade do Rio de Janeiro, o samba imperiano para o carnaval de 1965 foi fundamental para estabelecer a inserção da mulher em um território, até então, predominantemente masculino: a ala de compositores. A Rainha do Samba, Dona Ivone Lara, que sempre esteve presente nos grandes momentos do Império Serrano até então, inclusive em sua fundação, tomou parte de um espaço ocupado por nomes como Silas de Oliveira, Aniceto e Mano Décio da Viola, sendo que este último estava afastado da escola então. Um ato revolucionário, que permitiu que hoje, por exemplo, várias mulheres, não só façam parte da ala de compositores, como sejam protagonistas, figuras de maior realce nesse meio. “Quero sentir nas asas do infinito minha imaginação/Eu e meu amigo Orfeu, sedentos de orgia e desvario, cantaremos, em sonho, os cinco bailes da história do Rio”.

4º lugar
“Chico Rei” (Geraldo Babão/Djalma Sabiá)

Os Acadêmicos do Salgueiro, naquele ano de 1964, mais uma vez exaltavam um personagem negro, desprezado pela história oficial, contada nos livros da escola: Chico Rei. Embora não tenha sua existência comprovada, sua história é contada pela tradição oral de Minas Gerais. Galanga era um monarca no Congo, trazido ao Brasil como escravo, viu sua esposa e sua filha serem jogados ao mar para “aplacar a ira dos deuses”. Rebatizado como Francisco, foi comprado por um proprietário de uma mina de ouro e, trabalhando como escravo, escondia pequenas pepitas de ouro no cabelo e, assim, conseguiu comprar a liberdade de seu filho e de outros compatriotas. Em que pese a beleza de seu samba, considerado, por ninguém menos do que Martinho da Vila, como o melhor da história, o Salgueiro, apontado como favorito por conta do sucesso do ano anterior, com “Xica da Silva”, desfilou excessivamente teatralizado e, de certa forma, com uma confiança excessiva, jogando fora um título dado como certo. “Na viagem alucinante, houve gritos alucinantes, lamentos de dor/Ô-ô-ô, adeus Baobá, ô-ô-ô/Ô-ô-ô, adeus, meu Bengo, eu já vou”

3º lugar
“Aquarela brasileira” (Silas de Oliveira)

Contrariando a lógica e a maioria, não acho “Aquarela Brasileira”, do Viga Mestre Silas de Oliveira, como o maior samba-enredo da história. Ao contrário de hoje em dia, quando os compositores estão amarrados a sinopses (algumas vezes não tão bem escritas assim) e a um formato engessado há décadas, deixando pouca brecha para que exponham a sua capacidade criativa, Silas de Oliveira lia livros, estudava sobre os temas relacionados nos enredos. O Viga Mestre estava afastado há três anos da ala de compositores do Império. Por influência de José Carlos Rego, voltou a compor para sua escola. Assim que sua composição ficou pronta, mostrou-a ao jornalista que expôs sua preocupação com um verso: “Os rios enfeitados de jangadas”. A alegação era que jangadas “não andam em rios”, somente no mar. Imediatamente falou com Silas, que, imediatamente foi alterar a letra do samba, resolvendo outra questão pendente: não falara do estado de São Paulo. Eis que o verso “incorreto” foi trocado por “São Paulo engrandece a nossa terra. Dois problemas resolvidos de uma só vez. Como curiosidade, Ary Barroso, autor de “Aquarela do Brasil” (clássico da música brasileira, no qual foi inspirado o enredo imperiano) faleceu poucos minutos antes da entrada do Império Serrano na Avenida. “Vejam esta maravilha de cenário! É um episódio relicário que o artista, num sonho genial, escolheu para esse carnaval. E o asfalto, como passarela, será a tela do Brasil em forma de aquarela”

2º lugar
“Seca no Nordeste” (Gilberto Andrade e Waldir de Oliveira)

Ausente do carnaval carioca há dois anos e da memória da maioria das pessoas, a Tupy de Braz de Pina é dona daquele que é, para ninguém mais, ninguém menos do que o maior intérprete (puxador não!) da história do carnaval carioca, Jamelão, como o maior samba-enredo de todos os tempos: “Seca no Nordeste”, com o qual a escola conquistaria o vice-campeonato do Desfile Intermediário de 1961. O próprio Jamelão gravou, com grande sucesso, esse samba, que mereceria regravações de nomes como Clara Nunes, Raimundo Fagner e Ivan Lins. Com lirismo e poesia, os compositores contam o lamento, a dor, o desespero do sertanejo com a seca; o pedido em oração pela intervenção divina (“Nosso gado está sedento, meu senhor!”) e a revolta com o mesmo Deus pela situação em que se encontram e, por fim, a esperança de dias melhores, com nuvens negras que se formam no céu como “grandes rolos de fumaça” e a emoção, convertida em lágrimas, com os pingos de chuva caindo, molhando a terra. “E o lavrador retira o seu chapéu. E olhando o firmamento suas lágrimas se unem com as lágrimas do céu. O gado muge de alegria, parece entoar uma linda melodia”.

1º lugar
“Heróis da Liberdade” (Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira”)

O primeiríssimo lugar da minha lista de maiores sambas-de-enredo da história vai para “Heróis da Liberdade”, de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, um verdadeiro hino, ainda hoje, à liberdade em um contexto geral, à luta contra qualquer tipo de repressão, um manifesto de repúdio contra a censura, contra o autoritarismo. “Heróis da Liberdade” completou cinquenta anos em 2019 e, se não fosse a ação do “maior dos imperianos”, Sebastião Molequinho, talvez hoje seria mais um, dentre tantos sambas injustamente esquecidos, papel que invariavelmente cabe aos sambas derrotados nas disputas de samba-enredo. O mesmo Molequinho, presidente do Império na ocasião, havia delegado aos compositores que eles mesmos fizessem o “corte na fita” dos sambas que julgavam não estarem em um nível adequado para a disputa. O problema é que, enciumados com as sucessivas vitórias do Viga Mestre, resolveram, mais uma vez, boicotá-lo, atribuindo notas baixas a seu samba. O próprio Silas, tímido como só, sem o consentimento de Mano Décio e Manoel Ferreira, deu nota ZERO para a sua composição. Sebastião Molequinho, ao ver a grande injustiça que estava sendo cometida, levou todos os sambas concorrentes para a quadra, para a disputa, e aí prevaleceu, como sempre, a superioridade incontestável da parceria entre Silas, Mano Décio e Manoel Ferreira. “Heróis da Liberdade” é marcante também porque foi a última vez em que Silas de Oliveira venceu uma disputa de samba-enredo. Dali em diante, o Império tomaria outros rumos, influenciados ou não pelos invejosos compositores, e Silas acabaria, por fim, morrendo de infarto (e de desgosto) em uma roda de samba no ano de 1972, no ASA, em Botafogo. “Ao longe, soldados e cantores, alunos e compositores acompanhados de clarins, cantavam assim: – Já raiou a liberdade! A liberdade já raiou. Essa brisa que a juventude afaga, essa chama que o ódio não apaga pelo universo. É a (r)evolução em sua legítima razão”.

Escolher apenas dez sambas dentro de um repertório de centenas de grandes obras foi uma tarefa ingrata. Sambas antológicos como “Rio dos Vice-Reis”, “Mãe Baiana Mãe”, “Reminiscências do Rio antigo”, “Onde o Brasil aprendeu a liberdade”, “Pra tudo se acabar na quarta-feira”, “E eles verão a Deus”, “Águas claras para um rei negro”, “Xingu, pássaro guerreiro”, “Rapsódia da saudade”, “Ganga Zumba” (Canários das Laranjeiras), “33, destino D. Pedro II”, “Ilu Ayê, terra da vida” e “Deu a louca no barroco” poderiam, perfeitamente, fazer parte da minha lista, do meu top 10. Deixei de fora “Os Sertões”, apontado por vários especialistas como o melhor samba da história. Tantos outros ficaram de fora, mas que, certamente, figuram na lista de milhares, milhões de pessoas, sambistas Brasil afora.

E, para você, quais os melhores sambas-de-enredo da história?

Sobre o autor

Natural de Padre Miguel, Jorge Renato Ramos é pesquisador, bacharel em Letras/Francês (UFRJ/UERJ) e autor da série de livros “Apoteótico: os maiores Carnavais de todos os tempos”.

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