Carnaval/RJ

Natal da Portela e a apuração mais doida de todos os tempos

Natal da Portela. Foto: Reprodução/Internet.

Dois chopes e um galeto

Senta que lá vem história. E das boas. Coloque aquele LP bem antigo das escolas de samba na vitrola ou em qualquer outro aparelho que reproduza os antigos “discos”, tira a cerveja do freezer e se liga no que um grande amigo meu, sambista da antiga, do tempo dos desfiles na Presidente Vargas (acho que ele é do tempo das cordas, que separavam os componentes do público, mas ele nunca me confirmou), tem para dizer. Tive a sorte de conhece-lo nas minhas andanças pela vida. Eu o chamo, quase sempre, de “mais velho” ou “mais véio” mesmo. Forma carinhosa e respeitosa a quem tanto conhecimento me passou, e me passa, ao longo de tantos e tantos anos. Envergonhado, meio tímido, pede para não divulgar o seu nome. Diz que conheceu toda essa gente boa e importante que passou por quase todas as escolas, de presidentes a ferreiros; de carnavalescos a empurradores de carros alegóricos. Conta que passava longas horas conversando com figuras do naipe de Fernando Pamplona, Mestre André, Vilma Nascimento, Joãozinho Trinta. “Estive uma vez na casa do Castor, que, aliás, era meu amigo, fazendo sabe o quê? Você não acreditar. Jogando Sueca! Sueca, maluco! Grande figura!”. Tem quem o ache meio Forrest Gump, um contador de histórias, mirabolantes às vezes, mas o danado lembra de cada detalhe, fatos que aconteceram há, sei lá, cinquenta, sessenta anos e é justamente sobre uma história que ocorreu no carnaval de 1960 que vou reproduzir agora a conversa que tive uma vez com ele, sentado para comer um galeto e beber um chopp no Ponto Chic, coração de Padre Miguel:

– E aí, Mais Véio? Li em alguns livros, ouvi dizer que a apuração do carnaval de 1960 foi muito doida, uma confusão só. Não vai me dizer que você estava lá e, melhor, se lembra disso.

O coroa me olhou meio torto, dá um gole do brabo no chopp, com bastante colarinho, e me responde, meio brabo até, acho:

– Se eu vi? Eu estava lá do lado do Natal quando ele sentou a bordoada na lata de um policial. Sobrou até para mim um sopapo no meio da confusão que se formou, mas acho que derrubei uns três ali. É história que você quer ouvir? Então pede mais dois chopes aí, senta a buzanfa na cadeira e ouve o mais velho:

– Sempre fui de Padre Miguel, mas era curioso para circular, andar por outros terreiros, outras quadras, conhecer os bambas. Nessa, conheci muita gente boa, os bambas, você tá cansado de saber disso, dentre eles um dos autores do samba do Salgueiro daquele ano: Noel Rosa de Oliveira. O danado, que era homônimo do poeta da Vila, também puxava o samba da escola na Avenida Rio Branco, que era onde eram realizados os desfiles. Era amigo, posso dizer assim, porque considerava ele como amigo, de Geraldo Babão, autor, aliás, um dos autores daquele que acho que é o maior samba salgueirense: “Chico Rei”, irmão!

– Beleza, e aí? – perguntei.

– Espera, irmão. Tá com pressa para quê? Nasceu de chocadeira? – Me deu um esporro sincero – Então, como te disse, era amigo desses brabos todos. Em 1960, que foi o último carnaval do Rio como capital federal, uma festa danada, o Salgueirão fez, disparado, o melhor desfile. Todos os jornais diziam que o título já tinha dono e qualquer coisa diferente disso seria surpresa. Eu, que não sou bobo nem nada, corri para o Morro do Salgueiro para me juntar naquela festa, ou melhor, nos preparativos para a grande festa que se anunciava. Era o primeiro campeonato da escola que estava pertinho, pertinho. Eu e mais duas mil pessoas, que era mais ou menos a população estimada daquele morro na época, aguardavam com ansiedade a leitura das notas das Super Escolas. Na sede, quatro lamparinas e uma dúzia de velas estavam acesas, do lado de uma imagem de São Jorge e outra de Cosme e Damião, e permaneceriam assim até que fosse divulgado o resultado oficial. Tem que ter fé, caboclo!

Com uma memória de causar inveja a muita gente boa, bem mais nova, continuou seu relato:

– O morrão desceu todo, confiante que estava na vitória. A apuração seria realizada às 17h, na sede do Departamento de Turismo e Certames, na ABI. Sabe onde ficava? Na esquina da Rua México com Araújo Porto Alegre. Quem quisesse chegar ali, que chegasse, teria seu acesso permitido. Era igual coração de mãe, sempre cabia mais um. O clima estava meio estranho. Sabe quando você tem o pressentimento que vai dar ruim em algum momento? Então, olhava para a cara do pessoal da Portela, da Mangueira, e via eles tensos, meio nervosos, sei lá. Antes mesmo que fosse lida a primeira nota, o tumulto era generalizado. O grande e saudoso Miécio Tati, romancista dos bons, grande educador, que presidia os trabalhos deu a notícia que, na boca miúda, muita gente já sabia: Portela, Mangueira e outras escolas perderiam pontos relativos à cronometragem. Meu irmão… a gritaria foi imediata. Ele leu, então, a lista das escolas com os respectivos pontos perdidos.

– E o Salgueiro, como ficou no meio disso tudo? Afinal, eles desfilaram de maneira correta, fizeram tudo direitinho e aí, como eles se posicionaram? – Perguntei.

– O Salgueiro fazia uma força, por meio do seu advogado, José Scafer, para que se cumprisse o regulamento. A Portela se lascariam em 15 pontos, a Mangueira em 10. Mocidade Independente e Aprendizes de Lucas eram outras escolas que se dariam mal por conta de atrasos em seus desfiles. O pessoal da Portela e da Mangueira alegava que, se houve atraso, a culpa não era deles, mas sim por conta da própria desorganização do evento, que era uma bagunça mesmo, do policiamento, meio tosco, doido para largar o cassetete no quengo de alguém, e da intromissão do pessoal da TV. Com os protestos, muita gritaria, ninguém entendia nada que estavam falando, um tal de xinga a mãe de um daqui, manda o outro para outro lugar de lá, que a polícia, que só estava esperando a deixa, expulsar os sambistas do recinto. Deram um tempinho, voltamos, mas a balbúrdia continuou. Miécio, coitado, tentava acalmar os mais exaltados, sem sucesso, é claro. A gritaria e o inconformismo de alguns com a perda de pontos de suas escolas só aumentavam. Lembro que Doutor Robertinho, presidente da verde e rosa, era um dos mais exaltados. Em um determinado momento, chegaram no ouvido dele e disseram que preferiam assistir, sentados, de boa, como se diz hoje, à apuração, desde que ele calasse a boca.

– Que doideira, hein… Apesar que já vi muita confusão em apurações nesse período que acompanho carnaval, mas, sei lá, não sei se igual a isso – Comentei.

– Sabe de nada, o bagulho ainda ia ficar muito doido. A montoeira de gente que não conseguiu entrar se plantou em frente ao Departamento de Turismo e, pelos alto-falantes sintonizados na Rádio Roquette Pinto, ficavam ligados na leitura das notas. À medida que as primeiras iam sendo lidas, o povão começou a gritar que nem doido, exigindo que nenhuma escola fosse penalizada. Claro, evidente que a polícia interveio novamente, distribuindo bordoada para todo lado. O presidente da Mangueira então subiu numa cadeira e começou a berrar: “Protesto! Protesto! Estão fazendo violência com a Manga! Protesto! A polícia está exorbitando!” . Tomei um susto tremendo quando, do meu lado, do meu lado mesmo, Natal, o “Homem de um braço só”, deu-lhe uma tremenda porrada na cara do Capitão da Polícia de Vigilância. Rapidinho, Natal se viu cercado de meganhas, sendo esmurrado, sem dó, nem piedade, à base do cassetete, com vontade. Sabe quem foi lá defender o Homem de um braço só? Fernando Pamplona, carnavalesco do Salgueiro. Indignado com tanta covardia, teve que ser contido pelo pessoal da sua escola que o acompanhava, tendo que ser colocado atrás da Biblioteca Nacional, na Rua Pedro Lessa. Tempos depois, o mesmo Pamplona me disse que, naquele dia, de repente, viu portelenses carregarem Natal, meio desacordado, todo arrebentado, ensanguentado, a dez metros de distância de onde estava. O “Pai de todos” me contou: “Minha reação imediata foi tentar socorrê-lo e, mais uma vez, fui contido, à força, com um puxão de alguém”: – Fica quieto aí, porra!!! Não te mete não! – Foram as palavras que me direcionaram”.

– E você, vendo aquilo tudo, o homem apanhando que nem ladrão, por que não fez nada? – Perguntei.

– Tá doido, mermão? Ai seriam dois para apanhar. O meganha era grande pacas. Pamplona era um homão da porra. Natural que partisse para cima dos policiais para defender Natal. E por falar nele, no Natal da Portela, na época em que ele era dirigente do Madureira, dei um pulinho ali na Conselheiro Galvão para assistir a um jogo do Tricolor Suburbano contra o Bonsucesso. Bons tempos do verdadeiro Campeonato Carioca! Esse era raiz! Cheguei duas horas mais cedo e aproveitei para conversar com ele, Natal. Não foram tantas as vezes que estivemos juntos, mas o bastante para ouvir dezenas de histórias contadas por ele mesmo, dentre elas essa daí, do dia da apuração do carnaval de 1960. Sabe que sou ligado também em mitologia grega, né? Então, lá tem os Hecatonquiros, filhos de Urano com Gaia, deuses que possuíam cem mãos, cuja força e ferocidade eram maiores até que a dos Titãs. Por que coloquei mitologia no meio? Porque, para mim, Natal não tinha um braço só, tinha cem! O homem era brabo demais. Se liga no relato dele que vou reproduzir agora:

– No carnaval de 60, inventaram um tal de pontos negativos. Percebi logo que era pra prejudicar a Portela. E sabe por quê? Porque tínhamos feito um grande desfile. Não tinha medo de perder pra ninguém. Então os putos bolaram esta porra. Eu estava sabendo disso. O nosso pessoal, por fora, já até começava a comemorar a vitória. E eu dizendo: “Olhe, pessoal, nosso carnaval dá pra ganhar de qualquer um, mas não vamos levar o caneco. Eles estão armando pra nos derrubar. E a merda toda são esses pontos negativos. Aí é está a sacanagem! Então eu fui para a apuração bolando o que eu podia fazer. Pensei, pensei e disse pros homens que estavam comigo: ‘Nós vamos perder, mas eu vou dar um jeito’. ‘Que jeito?’, perguntaram. Aí eu disse, que não podia dizer, mas que poderiam contar que eu iria virar a mesa. Eu tinha toda a certeza de que a Portela perdia por pontos negativos e ganhava o Salgueiro. Meus cachorrinhos tinham me confirmados pontos normais, havia também na contagem, os pontos negativos, que eram dados por atrasos, amarrações de desfile e o escambau.

Como todo mundo já estava esperando, após a leitura das notas, a Portela terminou na frente, dois pontos à frente da Mangueira e cinco, do Salgueiro. Aí o pessoal da Portela, sem saber ainda, começou a comemorar o título, só que tomaram um banho de água fria, quando o locutor, do Departamento de Turismo, anunciou que ainda haveria a leitura dos pontos perdidos.

– Eu sabia que o Salgueiro acabava ganhando enquanto a gente se fudia todo”, me disse Natal. Os pontos negativos começaram a ser lidos, um monte para a Portela, nada para o Salgueiro, como já era previsto. Aí, sentindo que ia perder o carnaval, Natal chamou sua rapaziada e disse no ouvido deles o que iria fazer. A pergunta que se fazia era se daria certo. Tudo isso ele me contou. Natal garantiu que dava.

– Só vou esperar completar seis pontos negativos. Se algum de vocês estiver com medo, pode ir embora. Só quero macho comigo. – ordenou. Todos permaneceram.

– A sala onde eram lidas as notas estava lotada, com mais policiais do que público. Eu estava quieto, tranquilo, estranhamente quieto, alguns pensaram – disse Natal – Estava aguardando apenas o sexto ponto perdido para continuar com meu plano. Quem via minha fisionomia serena não imaginaria a quizumba que ia dar depois. Acho que muito menos os policiais esperavam alguma reação intempestiva minha, imagina, de um homem de um braço só, desarmado e com cara de chefe de família aposentado.

“Natal, de paletó de pijama e chinelos charlote, não causava medo em ninguém”, afirmaram Amaury Jório e Hiram Araújo, autores da sua biografia.

– Acho que, por isso, eu tenha conseguido passar despercebido, me aproximando cada vez mais do chefe de polícia, sem ninguém notar. “Uma porrada desse cara deve ser um coice”, pensei. O pessoal do Salgueiro começou a comemorar e, enquanto isso, eu permanecia quase que colado ao chefe do policiamento, só de olho na sua fisionomia, com o capacete enterrado na cabeça”. Uma passagem da minha infância está diretamente relacionada a esse caso, quando fui desafiado por outros meninos do bairro a dar pancadas no boneco de Judas, que, diante da minha inércia, insistiram: “Bate, Natal! Esse é o guarda espartano!”. Guarda espartano…, pensei. O nome ficou guardado na minha memória e, quando buscava forças para esmurrar o policial, lembrei-me desse nome, o que me deu uma força monstruosa. “Vamos, Natal! Pega um pedaço de pau”, lembrei que pedia a molecada. Daí então fechei a mão que me restava e deu uma bela duma porrada na cara do meganha. “Filhos da puta! Ladrões! Cornos! Querem roubar a Portela!”, gritei. Com a tremenda porrada, muito bem dada que dei, o capacete do PM voou longe e, enquanto ele permanecia no chão, sem nem saber direito de onde veio o soco que o derrubou. A Polícia, já estava esperando por isso, começou a distribuir golpes de cassetete a torto e a direito. Apanhei tanto, igual aos Judas da minha infância, que fui parar no Getúlio Vargas (hospital). À noite quando estava em casa, todo arrebentado, comentei: “Puta que o pariu! Apanhei pra cacete! Porra, mas era o único meio de suspender aquela merda. Numa altura dessa, a Portela já tinha ido pras picas e o Salgueiro tava comemorando a vitória”.

Estava lá nesse dia, já falei. Lembro que, com a confusão, a apuração foi suspensa. O plano de Natal era esse. Ele disse que ia dar uma porrada na cara do “chefe deles” e que esse era o único modo de “anular aquela porra”, segundo ele. Natal terminou assim seu relato fabuloso:

– Dias depois, o Departamento de Turismo chamou os representantes das escolas para tentar achar uma solução de consenso. Tive uma ideia brilhante. Pensei: “Hoje dou uma foda neles! “. Quando parecia que não haveria acordo algum, propus: “Que tal se as cinco primeiras forem todas consideradas campeãs? “. O pessoal das outras escolas, meio ressabiados, sem perceber em nada minha malícia, concordaram. Daí todos comemoraram. Continuei sereno e tranquilo. Meu objetivo só seria alcançado quando fossem entregues os diplomas às campeãs. Nesse dia, as cinco campeãs do carnaval daquele ano foram chamadas para receberem seu diploma. A Portela seria a última. Assim que recebi o canudo, me virei para Casemiro Calça Larga, maior figura salgueirense da época, e perguntei:

-Calça Larga, o que nós somos?

– Campeões! – ele respondeu.

– Foi quando rebati, para todo mundo ouvir:

-Campeões são vocês, seus putos! A Portela é tetracampeã! Era o título que faltava. Vocês são todos umas cambadas de burros!

– O Calça Larga esbravejou, gritou, tentou reverter a decisão, mas já era. Daí então aproveitei para gozar ainda mais da cara dele:

– Vocês são campeões, mas nós, portelenses, somos tetracampeões! – E me escangalhei de rir.

– Mais Véio, você sabe que considero Natal o maior personagem da história dos desfiles, não é? Já leu a biografia dele, “Natal, o homem de um braço só”, do Hiram Araújo e Amaury Jório? Se não leu, leia. Histórias riquíssimas, curiosas que te cativam da primeira à última linha do livro e que reafirmam o quanto Natal foi grande, gigante na verdade. Um homem de um braço só, é verdade, mas Homem com H maiúsculo.

– Não li. Deveria ler até mais, reconheço, mas levo uma vantagem porque em algumas dessas histórias eu estava presente ou por perto ou ouvi contar de alguém que estava ao redor no momento.

– E no final das contas, no que deu a apuração? Sei, todo mundo sabe que foram cinco campeãs. Ouvi a parte do Natal, mas como chegaram até lá? – perguntei.

– Quando os ânimos serenaram, a mesa apuradora decidiu não considerar os pontos perdidos e quem se sentisse prejudicado com isso que procurasse seus direitos na justiça. A apuração seguiu e o resultado final foi que a Portela foi a que somou mais pontos, em primeiro lugar; a Mangueira, em segundo; e o Salgueiro, favorito da massa, de forma esquisita, em terceiro. Nossa Mocidade, caboclo, ficou em sétimo, duas posições acima do Boi Vermelho. A Caprichosos de Pilares, escola com tantos desfiles bacanas nos anos 80, foi a vencedora do Grupo de Acesso. A Vila, do último grupo. E como disseram para quem se sentisse prejudicado para procurar seus direitos na Justiça, era isso que Nelson de Andrade, presidente do Salgueiro, o mais prejudicado naquela zona toda, pretendia fazer. Estava furibundo, indignado, com toda razão, é verdade, com a decisão do Departamento de Turismo. Falou que ia impetrar um mandado de segurança no dia seguinte para que o regulamento fosse cumprido, que valesse o que estava escrito, como dizem no jogo do bicho. Outro que estava indignado, fulo da vida com o julgamento foi o Hézio Laurindo. Sabe quem foi Hézio Laurindo? O Delegado, mané! Maior mestre-sala da história, com todo respeito a Benício e Noel Canelinha. “Vamos impetrar o mandado de segurança contra o resultado deste julgamento. É um escândalo. Dar seis pontos somente para a riqueza de nossas fantasias, considerar inferior o nosso enredo, chega a dar margem para que suspeitemos de que a comissão não entenda do assunto. Não é possível que nos conformemos com um simples segundo lugar”, foi isso que ele falou ao Última Hora. A Eneida, na sua coluna do Correio da Manhã, fez lembrar que todas as escolas assinaram a buzunfa do regulamento e estavam cientes das possíveis penalizações que poderiam ser impostas a elas. “Há uma coisa que se chama o ‘Regulamento do Desfile’, feito pelo Departamento de Turismo em reunião com as escolas de samba; eles próprios – vejam bem – os representantes das escolas, votam, discutem, apoiam o regulamento, mas, na hora do desfile, esquecem dele, abandonando-o. Esquecem que fica um representante do Departamento de Turismo, de relógio em punho, marcando o tempo que a escola deve usar para sua exibição”. Essa observação foi feita há quase 60 anos, mas continua atual. O jornalista Lunik, do Correio da Manhã, na sua coluna “Recreativismo”, era outro que deixava exposto seu inconformismo com o resultado da apuração: “Julgamento injusto: Há muitos anos cronista carnavalesco, envelhecido na tarimba de muitos carnavais, nunca vi, e nem poderia imaginar, tanta injustiça num julgamento de desfile de escolas de samba como nesse que passou. Toda a cidade esperava a vitória da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro porque foi, incontestavelmente, a que melhor se apresentou. O veredicto foi lavrado pelo próprio povo, pela multidão que (eu inclusive) se fincou na avenida, debaixo de chuva, durante uma noite inteira, entrando pela manhã do dia seguinte. Não ouvi duas opiniões. Todos, unânimes, elegeram Salgueiro campeão do carnaval de 60 e, é claro, o julgamento do povo tem mais importância e autoridade que o de dez comissões reunidas”.

– Os jornais da época estampavam em suas páginas: “Carnaval não tem escola campeã”, “Escolas de samba dizem que não houve carnaval”. Daí o Mário Saladini, Diretor do Departamento de Turismo e Certames da PDF, chamou uma comissão de notáveis para decidir se iriam computar ou não os pontos perdidos por atraso nos desfiles, ou seja, se cumpririam o regulamento u não. Dessa comissão de brabos, composta por doze membros, só cinco compareceram: Lamartine Babo (Só dá Lalá), João de Barro (Yes, nós temos Braguinha!), Rui Duarte, Jota Efegê e Juracy Camargo. Como faltou um bocado de gente, não resolveram é nada. No impasse, os representantes das escolas foram chamados para resolver a pendenga, tentar chegar a um consenso. O Joaquim Casemiro Calça Larga disse: “Venham pelo menos discutir aqui, na frente de todos nós. Assim, no escuro, não se vai fazer nada”. Natal, que estava na dele, ao ouvir o representante salgueirense, elevou o tom de voz: “E que resolvam para não prejudicar ninguém, porque, do jeito em que a coisa vai, não terminará sem cadáveres. Acho que se devia era anular tudo, sem vencedores nem derrotados”, sugeriu de forma bem amigável. Chegaram a cogitar um novo desfile, no Maracanã, com uma montoeira de gente nas arquibancadas e na saudosa geral, para decidir quem seria a campeã de 1960. Não vingou. Quando propuseram declarar nulo o resultado e dividir o dinheiro com todas as escolas, Natal, que estava de chinelo, com o pescoço enrolado e todo enfaixado, devido à surra, à piaba que havia tomado no dia anterior, ponderou, de forma bem serena, mas muito sagaz e audaciosa: Vocês não veem que estamos destruindo a fraternidade que há entre nós?”. O Diretor do Departamento de Turismo, depois de dizer que os sambistas eram “extraordinários”, comentou: “Vocês são gente de bem e ajuizada como muito pouca gente consegue ser”. Daí o Natal, que era sagaz demais mesmo, vendo que o campeonato da Portela ia escorrendo pelo ralo, usou da sua inteligência e diplomacia extraordinárias e sugeriu então que as cinco primeiras agremiações fossem declaradas campeãs do carnaval de 1960. Ou seja, as quatro grandes e mais a Unidos da Capela. Eu queria que fossem as sete primeiras. Seria mais justo…, mas enfim… Ao ouvir a tal proposta, todo mundo aplaudiu. “Viva!”, “Bravo!”, “Êeeeee!”. Claro que as cinco primeiras aplaudiram mais. Pamplona me disse, lá pelos meados da década de 80, que o Nélson de Andrade, em protesto, rasgou o mandado de segurança que seria impetrado naquele mesmo dia e que ele, Nélson de Andrade, teria preferido decidir, continuar a porrada, porque, juridicamente, a vitória era certa.

– Meu irmão…, vou te falar…, peraí que vou dar mais um gole nesse chope aqui e beliscar esse galeto. Caramba… que história foi essa, hein? É por isso que falo: Natal, que nessa semana completam 115 anos de seu nascimento, é o personagem mais rico, o maior personagem da história dos desfiles e não tenho dúvida nenhuma disso, sem demérito algum para ninguém. O cara era brabo e sagaz demais mesmo. Fora a inteligência extraordinária.

– Pois é. Essa foi apenas uma dentre tantas e tantas histórias maravilhosas envolvendo Natal e as próprias escolas em geral. Então, filhão, senta que lá vem história.

– Vamos deixar a próxima ou as próximas histórias para depois e fechar essa conta aqui, porque o bar já está fechando e o garçom olhando de cara feia para a gente.

– Cara feia pra mim é fome! Paga essa conta aí, que a próxima é minha. Um abraço!

**** Todos os diálogos são, evidentemente, fictícios, mas absolutamente todas as histórias aqui relatadas são reais, extraídas dos livros “Apoteótico: os maiores carnavais de todos os tempos – 1960” (Jorge Renato Ramos), “Natal, o homem de um braço só” (Hiram Araújo e Amaury Jório) e “O encarnado e o branco” (Fernando Pamplona).

Sobre o autor

Natural de Padre Miguel, Jorge Renato Ramos é pesquisador, bacharel em Letras/Francês (UFRJ/UERJ) e autor da série de livros “Apoteótico: os maiores Carnavais de todos os tempos”.

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