Carnaval/RJ

Carnaval 1997: trevas, luz e a explosão de Joãozinho Trinta, por Jorge Renato Ramos

Desfile da Viradouro de 1997. Foto: Reprodução

O carnaval de 1997 tem nome e sobrenome: “Joãozinho Trinta”. O mestre vinha de um péssimo resultado no ano anterior, um décimo terceiro lugar, com a mesma Viradouro, e, mais do que isso, ainda se recuperava das sequelas originadas de uma isquemia, ou acidente vascular isquêmico, ocorrido quando trabalhava no barracão da escola.”Eu renasci, você deveria experimentar uma isquemia também”, sugeriu Joãozinho Trinta a Max Lopes, na época na Estácio de Sá, referindo-se ao dia em que renasceu para a vida, sepultando a figura de temperamento difícil, mal-humorada, impaciente, tensa, fazendo surgir, no lugar, outra: dócil, serena, ponderada, que distribuía sorriso para todos.

À medida que detalhes do genial enredo “Trevas, luz – A explosão do universo” iam sendo revelados, a curiosidade de sambistas, jornalistas ou mesmo admiradores do trabalho de Joãozinho Trinta aumentava na mesma proporção. O “carro do nada”, antes mesmo do desfile, já dava sinais claros de que seria a sensação daquele carnaval. E o que seria o “carro do nada”. “Ninguém nunca viu o nada, por isso não há parâmetros de comparação. Ninguém sabe se é bonito ou feio”, contou o carnavalesco. “Quero ver os jurados analisarem uma alegoria que não significa nada. Não se sabe sequer se ela tem de ser feia ou bonita”, brincou Joãozinho.

Uma coincidência incrível marcaria o carnaval de 1997. A Unidos do Porto da Pedra e o Salgueiro apresentariam enredos idênticos, mas com abordagens diferentes. Enquanto a escola tijucana optou por explorar o tema de forma mais densa, baseando-se em estudos da consagrada psiquiatra Nise da Silveira, Mauro Quintaes, da Porto da Pedra, enveredou por um caminho mais light. “Eu quero que as pessoas entendam o que vou apresentar na Avenida”, contou o carnavalesco.

Enquanto a agremiação de São Gonçalo preferiu tratar o tema com leveza, superficialmente, a escola tijucana optou por um viés mais complexo, explorando a “trilha que divide a lucidez da insanidade”, como apontou Mário Borriello, carnavalesco do Salgueiro, o limiar entre a loucura e a genialidade. E a comparação entre os dois desfiles, de como cada escola trataria o tema, ficaria mais explícita pelo fato de ambas se apresentarem no mesmo dia.

Desde 1970, o querido Império Serrano, volta e meia, ou melhor, com frequência, se perde em decisões equivocadas, escolhas infelizes. Naquele ano de 1997 não seria diferente. “Menino de 47/De ti ninguém esquece” diz a letra do samba “Menino de 47”, de Tio Hélio e Nílton Campolino. Em vez de comemorar seu cinquentenário, reverenciar seus grandes nomes, sua história, o Reizinho de Madureira, ou melhor, seu então presidente Marquinhos dos Anéis, resolveu vender o enredo para que a escola servisse de outdoor para o parque temático “Beto Carrero World”.

Uma das decisões mais infelizes de sua história, talvez não tão infeliz quanto fecharem a porta da quadra na cara do seu ex-presidente, Jamil Salomão Maruf, o “Cheiroso”, presidente no último título da escola, em 1982, com o inesquecível “Bumbum Paticumbum Prugurundum”, um grande e apaixonado imperiano. Cheiroso morreria em 1995, desgostoso e magoado com o tratamento que a escola lhe dispensara. Houve uma cisão na escola. Dissidentes foram ameaçados de expulsão. “Eu sou um grande benemérito e ele, o que é? Um pixote”, desabafou Irani Santos Ferreira, que, por onze anos, presidiu o Império, com carnavais fantásticos no período, como “Os cinco bailes da história do Rio”.

Não bastasse todos os problemas, que resultariam em mais um rebaixamento da escola, o Império Serrano perderia, na véspera do carnaval, um de seus grandes baluartes: Mestre Fuleiro faleceria, aos 85 anos, de insuficiência respiratória. Em seu enterro, seus amigos, companheiros de longos anos, choravam sua partida, como Zacarias da Silva Avelar, sócio número dois da escola, e pai do atual presidente, Sandro Avelar, que estava inconformado com a perda do amigo: “Ele criou toda essa moçada que está aí no Império”. Já Tia Eulália disse: “Eu cantei, dancei e me diverti muito com ele. Vai deixar saudade”.

Joãozinho Trinta. Foto: Divulgação

A Mangueira, por muito pouco, não falou de Chico Buarque já naquele ano de 1997. Anos antes, em 1992, Tom Jobim havia sugerido um enredo sobre o autor de “As Vitrines. “Sou tarada por ele (Chico Buarque). Imaginem a Ópera do malandro na avenida”, contou então Dona Neuma. A verde e rosa acabou optando por um enredo patrocinado, fazendo campanha para a candidatura do Rio como cidade sede dos jogos de 2004.

Já a Imperatriz Leopoldinense estava balançada entre falar de Belo Horizonte ou África, mais dois enredos caça-níqueis, prevalecendo, no final, a vontade da carnavalesca Rosa Magalhães em contar a história de Chiquinha Gonzaga. “A história de vida de Chiquinha Gonzaga é interessantíssima. Na comemoração dos seus 150 anos de nascimento, é bom lembrar que ela foi uma pioneira, uma mulher à frente do seu tempo. Ela foi uma mulher muito diferente para sua época. Quando mulher nem ia para a rua, ela trabalhava à noite, fazia campanha política, era abolicionista e republicana. Além disso, compôs a primeira música de carnaval”, explicou a carnavalesca. A escola tentava se descolar das acusações de fazer desfiles “frios”, “tecnicamente perfeitos”. Em sua defesa, alegava que estava em uma competição e que os desfiles técnicos não prejudicava a Imperatriz, sendo apenas argumento para os inimigos.

Quem já passou dos 30 (ou um pouco mais do que isso) lembra que uma das sensações da década de 90 foi o grupo É o Tchan, que dominava, não só as paradas de sucesso, como as aparições nos programas de TV. Era onipresente. Muito da força dessa presença se devia à sensualidade de suas dançarinas, a “Loura do Tchan”, Carla Perez, e a “Morena do Tchan”, Scheila Carvalho. Pegando uma deixa no sucesso do grupo, o Salgueiro convidou Carla Perez para ser madrinha de bateria da escola, o que causou o maior rebuliço, uma vez que o consagrado e premiadíssimo mestre de bateria salgueirense, Louro, foi contra, porque, segundo ele, prejudicaria a evolução da bateria, bem como do casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sidclei e Ana Paula. Prevaleceu o bom senso e a vontade do Mestre e Carla foi deslocada para desfilar em um carro alegórico.

Outra celebridade, dessa vez internacional, marcaria presença no carnaval carioca: o cantor porto-riquenho, ex-Menudo, que, naqueles idos de 1997, fazia sucesso no mundo todo com “Maria”, tema de abertura da novela das 19h da Globo, “Salsa e Merengue”. Em um visita ao barracão da Portela, como era esperado, causou enorme alvoroço, sendo assediado por várias mulheres. Ricky Martin mostrou-se bastante incomodado com o assédio feminino, o que gerou um comentário inusitado do colunista Fred Suter, no jornal “O Dia”: “Será que elas não sabem que ele é boiola?”. Anos mais tarde, Ricky Martin assumiria sua homossexualidade.

A Estácio, que, cinco anos antes, havia conquistado o título do carnaval carioca vivia numa pindaíba de dar dó. Sua quadra, antes disputadíssima, onde se realizava um dos grandes eventos do Rio, o “Pagode do Leão”, foi demolida para as obras do Teleporto. Sem quadra, sem renda, teve que se virar com doações de outras coirmãs, como Imperatriz e Mocidade, que cederam alguns carros alegóricos.

A Mocidade completaria a terceira parte de sua trilogia, iniciada em 1995, com o enredo “Padre Miguel, olhai por nós”, tendo, na sequência, o enredo campeão de 1996, “Criador e Criatura”. Enredo baseado no filme, produzido por Steven Spielberg, “Viagem insólita”, de 1987.

Martinho da Vila, 22 anos depois da censura a seu samba-enredo “Aruanã-Açu”, cortado da disputa por imposição de censores militares, teve outro samba eliminado, dessa vez por interferência do tráfico do Morro dos Macacos e do Pau da Bandeira, que estavam fechados com um samba de outra parceria. Na verdade, na final ficaram os dois sambas-de-enredo apoiados pelos morros.

Mestre Jorjão. Foto: Reprodução
Mestre Jorjão teve passagem histórica pela Viradouro. Foto: Reprodução

Na segunda-feira de carnaval, por muito pouco Mauro Monteiro, comentarista da Globo, não tomou um sarrafo do presidente do Império, Marquinhos dos Anéis, que partiu, furioso, na direção da cabine da Globo, para tomar satisfação com o comentarista, tudo por conta de um comentário irôrico, feito por ele, durante a transmissão: “A única coisa que não é comportada neste desfile são os dois anéis do presidente da escola. Eu queria até dar uma sugestão para o Beto Carrero para, quando terminar o desfile, conferir as notas fiscais”. O então carnavalesco imperiano, Jerônimo Guimarães, jogou gasolina para apagar o incêndio: “Se tivesse sido chamado de ladrão, faria a mesma coisa”. Uma confusão do início ao fim, desde a escolha equivocada do enredo, até o seu final, melancólico, que resultaria em mais um rebaixamento do Império.

Sem um bom samba, sem um bom enredo, ainda tentando encontrar seu rumo após a saída de Joãozinho Trinta, cinco anos antes, restava ao presidente da escola, Farid Abraão David, tentar mexer com os brios dos componentes com um discurso enérgico, lembrando do longo tempo que a Beija-Flor não conquistava o campeonato: “Há catorze anos que a gente não ganha nada. Vamos tomar vergonha na cara!”.

Milton Cunha, o genial e irreverente comentarista de carnaval da Rede Globo, já naquela época não tinha papas na língua e, quando questionado sobre os desfiles das duas principais escolas da época, Mocidade e Imperatriz, fez algumas observações que, se fossem ditas hoje renderiam dias e dias de polêmica na internet: “Não gostei do desfile da Imperatriz. Cheira a mofo, a bolor e achei os carros da Mocidade muito assépticos, muito hospitalares”, disse ao jornal O Globo.

Durante o desfile da escola, Fernando Pamplona, o “Pai de todos”, mestre de vários carnavalescos, anunciou, durante a transmissão dos desfiles pela Rede Manchete, que aquele seria seu último carnaval como comentarista, após vários anos exercendo essa função na avenida, agradecendo a Adolpho Bloch, dono da emissora carioca, dizendo ainda que jamais, em tempo algum, fora impedido de dar qualquer opinião que fosse no período em que trabalhou nas transmissões da extinta rede de TV carioca.

Uma mariposa voava entre os componentes da Unidos do Viradouro, que se preparava para entrar na avenida, por volta das 20h53, quando resolveu pousar, escolhendo, dentre tantos, o ombro de Joãozinho Trinta. Alguns diretores, afoitos, correram para espantá-la de lá, sabe-se lá por que motivo, mas foram interrompidos pelo carnavalesco, que não permitiu que a tirassem de seu ombro: “Vai trazer sorte!”, disse, trazendo a lembrança do ano de 1976, quando um arco-íris surgiu no horizonte justo na hora do desfile da Beija-Flor, que acabaria campeã, com o enredo “Sonhar com rei dá leão”.

Na apuração do Acesso, um dos maiores escândalos da história dos desfiles. A Tradição, que desfilou com um número inferior ao mínimo de baianas e sem a fantasia da bateria, com seus ritmistas tendo que ir para a Avenida apenas com calça e camisa brancas, inacreditavelmente recebeu 10 de ponta a ponta. Com os descartes, terminou empatada com a São Clemente e a Caprichosos. Como empataram em todos critérios de desempate, coube a um cara ou coroa decidir quem faria companhia à Tradição no acesso ao Especial. A Caprichosos teve melhor sorte e subiu. A São Clemente, que havia feito o melhor desfile do ano, ficou de fora, em uma das maiores injustiças da história dos desfiles.

Ninguém duvida de que, em que pese o enorme sucesso do carro do “nada”, a grande sensação do carnaval de 1997 foi a “paradinha funk” da bateria de Mestre Jorjão, da Viradouro. O mais interessante é que, segundo ele, não era uma paradinha funk, mas sim algo inspirado na batida do Olodum. “Certo dia, em casa, cheguei à conclusão de que a apresentação das baterias havia se tornado uma grande mesmice e, por isto, decidi inovar, com essa batida Olodum. Apostei para ver!”.

Essas e outras dezenas de histórias estão presentes nas páginas do livro “Apoteótico – 1967”, da coletânea “Os maiores carnavais de todos os tempos”. Conheça outros livros da coleção, referentes aos carnavais de 1960, 1963, 1964, 1969, 1992 e 1993”, à venda no site do Clube de Autores: www.clubedeautores.com.br. Leia 15 páginas grátis: bit.ly/apoteotico1997

Sobre o autor

Natural de Padre Miguel, Jorge Renato Ramos é pesquisador, bacharel em Letras/Francês (UFRJ/UERJ) e autor da série de livros “Apoteótico: os maiores Carnavais de todos os tempos”.

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