Carnaval/RJ

Salto pro futuro! Alternativas de reinvenção do Carnaval para pôr fim à ‘era fax’, por Jorge Renato Ramos

Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Foto: Cezar Loureiro/Riotur

“Mas chegou o carnaval e ela não desfilou…”. Pois é, agora, de forma oficial, a LIESA confirmou o que todos esperavam: não haverá desfiles das escolas de samba no carnaval de 2021. Decisão acertada, na verdade, era a única decisão a ser tomada face à pandemia que já ceifou a vida de 140.000 brasileiros, dentre eles David Corrêa, maior compositor de sambas-de-enredo da Portela. Questão de respeito, empatia e, principalmente, bom senso.
Desfiles de escolas de samba estão diretamente ligados à participação do público nas arquibancadas, nas frisas ou camarotes. A reação do povão à apresentação de uma escola é um termômetro para avaliar o quanto ela passou bem ou mal, em alguns casos. Durante bons anos, havia um prêmio no Estandarte de Ouro destinado à escola que melhor se comunicou com o público. Este é a alma de um desfile. Sem ele, podem passar pela Avenida alegorias sensacionais, de extremo bom gosto, componentes empolgados, uma bateria cadenciada e um samba-enredo antológico, que o espetáculo estará incompleto. Sem alma. Nem que alguém batesse o pé para que houvesse desfiles, mesmo sem público, em 2021, isso não seria possível, pelo motivo exposto, sem citar o aspecto financeiro: a arrecadação com a venda de ingressos é fundamental para que haja o espetáculo.

Decidida essa questão, acertadamente, passa-se a pensar em possibilidades, alternativas, soluções. Dentre elas, para mim, a mais urgente: como dar suporte às centenas de pessoas que vivem, ou sobrevivem, do carnaval. “São escultores, são pintores, bordadeiras. São carpinteiros, vidraceiros, costureiras. Figurinista, desenhista e artesão, gente empenhada em construir a ilusão…”. Gente que vive, muitas vezes, com a possibilidade real de receberem um calote e ficarem sem ver o pagamento de seu trabalho, agora, pelo visto, não haverá chance alguma de serem remunerados, de alguma forma, enquanto durar a pandemia, ou alguém sabe de alguma escola que esteja dando suporte aos funcionários que trabalham em suas quadras ou barracões? Se há, é motivo de aplauso, mas desconheço até o momento. Essa deveria ser a questão principal a ser debatida no momento, acredito. Prover meios, recursos, para que essas pessoas não fiquem desamparadas.

Mesmo na adversidade, há a possibilidade de se enxergar novos caminhos, soluções, de sairmos mais fortalecidos. Um bom momento, pelas limitações que o cenário exige, de reflexão. Que aproveitem esse hiato para que sejam discutidos novos rumos para os desfiles ou mesmo para as escolas. A cada ano, o desinteresse do grande público aumenta gradativamente. Os desfiles de escolas de samba, aceitem ou não, estão em processo de franca decadência há tempos. Sambas-de-enredo são solenemente ignorados ou esquecidos rapidamente, mesmo pelos fanáticos pela festa, como eu e você, talvez. É a hora de haver uma reaproximação com o grande público. E qual o melhor canal para isso? A internet, Youtube, redes sociais em geral. Parece estranho falar em algo desse tipo, sendo que, até ontem, a LIESA utilizava fax para compras de ingressos, mas é necessário, urgente até, dar um salto do período jurássico para os dias de hoje. Questão de sobrevivência.

Dentro desse cenário, uma opção, na verdade, uma sugestão: se não há a possibilidade de haver desfiles reais em fevereiro, por que não haver desfiles virtuais. Para quem não sabe, o carnaval virtual, que já existe, é um imenso celeiro de talentos, como a talentosa dupla de carnavalescos da Grande Rio, Gabriel Haddad e Leonardo Bora; também vieram de lá Tarcísio Zanon, da campeã Viradouro, e Jorge Silveira, que assinou belíssimos carnavais na São Clemente. Não tem que ser oito ou oitenta. A informação, na internet se propaga com muito mais velocidade e é isso que as escolas precisam: dialogar com um número maior de pessoas, viralizar talvez, quem sabe e essa é uma boa oportunidade de alcançar um público que, até agora, se mantém indiferente a qualquer assunto relacionado às escolas de samba do Rio de Janeiro. Reconquistar um por um, no laço, um número próximo daquelas pessoas que um dia acompanhavam, assiduamente, ensaios, que brigavam por uma fantasia, por um lugar na bateria. Hoje é um cata-cata em várias escolas por baianas, ritmistas ou até mesmo componentes. Momento de reflexão sim, mas de atitude e de oportunidade, mesmo nesse cenário sombrio. Que as escolas de samba do Rio de Janeiro sejam uma centelha de luz na escuridão ou mesmo um farol a guiar o caminho de muitos.

Uma chance ímpar de reformular conceitos, regras, regulamentos obsoletos, que estão engessados há anos, de matar de inveja os velhinhos da International Board. Se houver, como acredito que haverá, desfiles no meio do ano, que sejam feitos dentro de um formato diferente, respeitando, é claro, o que não pode, nem deve mudar, como o fato do desfile ser linear, distribuído em alas etc, porém, o que der para ser mexido, alterado, até mesmo para revitalizar algo que caiu na mesmice, no marasmo há anos, deve ser feito. Que o clube, bem restrito, que manda, desmanda, comanda esse negócio, tenha a humildade de consultar pessoas que podem contribuir para a evolução da festa. Seminários, rodas de debate, de conversa ou mesmo consultas. Que desçam de seus pedestais e enxerguem que, sim, há gente que entende dessa bagaça mais do que eles, ou, no mínimo, a mesma coisa e que pode contribuir para o bem de todos e felicidade geral da nação sambista.

O relógio está correndo, o tempo não para, já dizia o poeta, e as escolas estão na inércia, na dúvida, certeza nenhuma de nada. Não dá para esperar por cura, vacina, imunidade de rebanho, o que for, para, então, começarem a agir, a fazer algo de positivo, tomarem uma ação, mínima que seja. É para hoje, para ontem. “Quem tem fome, tem pressa” era o lema de Betinho (homenageado pelo Império Serrano em 1996) na campanha da Ação da Cidadania contra a fome. Quem vive do carnaval está desamparado no momento, talvez no pior momento da vida de quase todos nós, e é nisso, repito, que a LIESA, as escolas devem focar nesse primeiro momento. Posteriormente, reitero, devem agir para que as agremiações mantenham a visibilidade, já que, por meses, não ocuparão o espaço nas tvs que, desse período até fevereiro, ocupariam, ou até mesmo, como disse, alcançar um novo público, novos horizontes.

Sobre o autor

Natural de Padre Miguel, Jorge Renato Ramos é pesquisador, bacharel em Letras/Francês (UFRJ/UERJ) e autor da série de livros “Apoteótico: os maiores Carnavais de todos os tempos”.










Comentários

 




    gl