Ana Carolina Garcia. Foto: SRzd

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

‘Pobres Criaturas’ é um dos títulos mais instigantes da temporada de prêmios

“Pobres Criaturas” é dirigido por Yorgos Lanthimos (Foto: Divulgação)

Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza no ano passado, “Pobres Criaturas” (Poor Things – 2023, Irlanda / Reino Unido / EUA) chega ao circuito comercial brasileiro nesta quinta-feira, dia 1o, como o longa-metragem mais ousado, e polêmico, de seu realizador, o grego Yorgos Lanthimos.

 

Baseado no livro “Poor Things: Episodes from the Early Life of Archibald McCandless M.D., Scottish Public Health Officer”, de Alasdair Gray, originalmente publicado em 1992, “Pobres Criaturas” conta a história de Bella Baxter (Emma Stone), jovem que vive reclusa na mansão do médico Godwin Baxter (Willem Dafoe). Utilizada como experimento ao ter o cérebro de seu filho recém-nascido transplantado para o seu corpo, Bella não apenas desconhece sua trajetória, como age de forma infantil, com aprendizados diários, acompanhados pelo aluno, até então crítico, de God, Max McCandles (Ramy Youssef). Com casamento arranjado com Max, Bella foge com o responsável por seu acordo pré-nupcial, Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo), conhecendo o mundo com seus próprios olhos, enfrentando o gradual processo de amadurecimento à medida que compreende os horrores do mundo real.

 

Alicerçado no roteiro bem elaborado de Tony McNamara, o longa se desenvolve sem pressa para apresentar ao espectador tanto as experiências do médico quanto à da “criatura” por quem nutre carinho paternal que o distancia, de certa forma, da Ciência. Muitas dessas experiências, ao lado de um homem inescrupuloso, Duncan, que conhece o amor com Bella, mas sem saber que tal sentimento seria um misto de salvação e punição. Neste ponto, um trecho do sucesso do Aerosmith, “Crazy”, resume bem a trajetória do personagem de Ruffalo, podendo ser aplicado a este texto, mesmo que o destino de Duncan não seja o túmulo propriamente dito: “Esse tipo de amor faz um homem virar um escravo. Esse tipo de amor manda um homem direto para o túmulo”.

 

Emma Stone e Mark Ruffalo em cena de “Pobres Criaturas” (Foto: Divulgação).

 

Popularmente conhecido como Bruce Banner / Hulk nos títulos do Universo Cinematográfico da Marvel (UCM), Ruffalo surge em cena com magistralidade, estabelecendo um jogo cênico esmerado com Emma Stone, o grande destaque de “Pobres Criaturas”, algo observado com afinco na sequência de dança. Enquanto Ruffalo passeia entre o oportunista de más intenções e o apaixonado enlouquecido, Stone compões Bella de maneira a esmiuçar a inocência da infância e os dramas, apostando na comicidade na maior parte do tempo. É uma composição genial da vencedora do Oscar de melhor atriz por “La La Land – Cantando Estações” (La La Land – 2016, EUA / Hong Kong), de Damien Chazelle, que se doa à personagem por completo, sem medo de julgamentos nem mesmo nas sequências mais explícitas.

 

No entanto, seria injusto citar apenas Stone e Ruffalo, pois Dafoe e Youssef também têm momentos de extrema importância para a trama, que brinca com elementos do Expressionismo Alemão e do Surrealismo Francês com desenvoltura, principalmente no que tange aos cenários, seus respectivos objetos e, necessário ressaltar, na bela fotografia de Robbie Ryan, que evoca a Hollywood clássica, especialmente os filmes de horror produzidos pela Universal Pictures, conhecida, nos anos 1920 e 1930, como a Casa dos Monstros.

 

Com a Searchlight Pictures, subsidiária da The Walt Disney Company, entre suas produtoras, “Pobres Criaturas” é uma espécie de coming-of-age movie sobre uma jovem sedenta por liberdade que precisa não apenas descobrir seu lugar no mundo, como também lidar com as mazelas da sociedade na qual está inserida. Isso é mostrado por Lanthimos de maneira a explorar o lado mais grotesco do ser humano, inclusive daquele que acredita ser possível “brincar de Deus” e subverter as leis da natureza. Afinal, Bella não é a única experiência de God. E, a partir do momento que se torna consciente do mundo ao redor, Bella decide se impor como humana e, sobretudo, como mulher, utilizando os ensinamentos de God para se salvar de um de seus maiores algozes. Obviamente, com humor refinado e sabor de castigo a quem merece, neste ponto específico, o da vingança, remetendo um pouco o espectador ao drama “A Pele que Habito” (La piel que habito – 2011, Espanha / EUA).

 

Tendo “Frankenstein” (Frankenstein – 1931, EUA), de James Whale, como grande inspiração, “Pobres Criaturas” é, no fim das contas, um dos títulos mais instigantes da atual temporada de premiações americana, mesmo exagerando na repetição de situações na temporada parisiense da protagonista.

 

* Indicado a 11 estatuetas do Oscar nas seguintes categorias: melhor filme; direção para Yorgos Lanthimos; atriz para Emma Stone; ator coadjuvante para Mark Ruffalo; roteiro adaptado para Tony McNamara; edição para Yorgos Mavropsaridis; trilha sonora para Jerskin Fendrix; cabelo e maquiagem para Nadia Stacey, Mark Coulier e Josh Weston; fotografia para Robbie Ryan; design de produção para James Price, Shona Heath e Zsuzsa Mihalek; e figurino para Holly Waddington.

 

Leia também:

–  Oscar 2024: ‘Oppenheimer’ lidera com 13 indicações

Comentários

 




    gl