Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Oscar: AMPAS anuncia nova regra para a categoria de melhor filme

A 93a edição da cerimônia de entrega do Oscar será realizada no dia 25 de abril de 2021, no Dolby Theatre, em Los Angeles (Foto: Divulgação – Crédito: Richard Harbaugh / ©A.M.P.A.S.).

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) anunciou na última terça-feira, dia 08, nova regra de elegibilidade para a categoria de melhor filme do Oscar. Válida a partir de 2024, a regra prevê que pelo menos duas de quatro exigências, chamadas de “padrões” pela instituição, sejam seguidas para que o longa-metragem se torne elegível para concorrer à estatueta dourada.

 

“A abertura deve ser ampliada para refletir a diversidade da nossa população global tanto na criação de filmes quanto nas audiências que se conectam a eles. A Academia está empenhada em exercer um papel vital em ajudar a tornar isso uma realidade. Acreditamos que esses padrões de inclusão serão um catalisador para mudanças essenciais e duradouras em nossa indústria”, afirmaram David Rubin e Dawn Hudson, respectivamente, presidente e CEO da AMPAS, em comunicado oficial à imprensa.

 

David Rubin na 8a edição do Governors Awards, em 12 de novembro de 2016 (Foto: Divulgação / Crédito: Richard Harbaugh – ©A.M.P.A.S.).

De acordo com a Academia, os padrões são divididos em quatro, conforme dito acima, mas contêm subdivisões próprias. São eles:

“Padrão A: representação na tela, temas e narrativas.

Para atingir o Padrão A, o filme deve atender a UM dos seguintes critérios:

A1. Atores principais e coadjuvantes:

Pelo menos um dos atores principais ou atores coadjuvantes significativos é de um grupo racial ou étnico sub-representado:

  • Asiático
  • Hispânico / latino
  • Negro / Afro-americano
  • Indígena / Nativo Americano / Nativo do Alasca
  • Oriente Médio / Norte da África
  • Havaiano nativo ou outro ilhéu do Pacífico
  • Outra raça ou etnia sub-representada

A2. Elenco em geral:

Pelo menos 30% de todos os atores em papéis secundários e outros menores terão de ser de pelo menos dois dos seguintes grupos sub-representados:

  • Mulheres
  • Grupo racial ou étnico
  • LGBTQ +
  • Pessoas com deficiências cognitivas ou físicas, ou surdas ou com deficiência auditiva

A3. Enredo principal / assunto:

O(s) enredo(s) principal(is), tema ou narrativa do filme são centrados em um (ou mais) grupo sub-representado(s):

  • Mulheres
  • Grupo racial ou étnico
  • LGBTQ +
  • Pessoas com deficiências cognitivas ou físicas, ou surdas ou com deficiência auditiva

 

Padrão B: Liderança criativa e de equipe.

Para atingir o Padrão B, o filme deve atender a UM dos critérios abaixo:

B1. Liderança criativa e chefes de departamento:

Pelo menos dois dos seguintes cargos de liderança criativa e chefes de departamento – diretor de elenco, cineasta, compositor, figurinista, diretor, editor, cabeleireiro, maquiador, produtor, desenhista de produção, decorador de cenário, som, supervisor de efeitos visuais, escritor – são do seguintes grupos sub-representados:

  • Mulheres
  • Grupo racial ou étnico
  • LGBTQ +
  • Pessoas com deficiências cognitivas ou físicas, ou surdas ou com deficiência auditiva

Pelo menos uma dessas posições deve pertencer ao seguinte grupo racial ou étnico sub-representado:

  • Asiático
  • Hispânico / latino
  • Negro / Afro-americano
  • Indígena / Nativo Americano / Nativo do Alasca
  • Oriente Médio / Norte da África
  • Havaiano nativo ou outro ilhéu do Pacífico
  • Outra raça ou etnia sub-representada

B2. Outras funções importantes:

Pelo menos seis outros membros da equipe e cargos técnicos (excluindo Assistentes de Produção) têm de ser de um grupo racial ou étnico sub-representado. Essas posições incluem, mas não estão limitadas a Primeiro AD, Supervisor de Roteiro, etc.

B3. Composição geral da equipe:

Pelo menos 30% da equipe do filme têm de ser dos seguintes grupos sub-representados:

  • Mulheres
  • Grupo racial ou étnico
  • LGBTQ +
  • Pessoas com deficiências cognitivas ou físicas, ou surdas ou com deficiência auditiva

 

Padrão C: Acesso e oportunidades da indústria

Para atingir o Padrão C, o filme deve atender AMBOS os critérios abaixo:

C1. Aprendizagem remunerada e oportunidades de estágio:

A distribuidora ou financiadora do filme precisa pagar por aprendizagens ou estágios nos seguintes grupos sub-representados e que atendem aos critérios abaixo:

  • Mulheres
  • Grupo racial ou étnico
  • LGBTQ +
  • Pessoas com deficiências cognitivas ou físicas, ou surdas ou com deficiência auditiva

Os principais estúdios / distribuidores são obrigados a ter aprendizes / estagiários remunerados e contínuos, incluindo grupos sub-representados (também deve incluir grupos raciais ou étnicos) na maioria dos seguintes departamentos: produção / desenvolvimento, produção física, pós-produção, música, efeitos visuais, aquisições, negócios, distribuição, marketing e publicidade.

C2. Oportunidades de treinamento e desenvolvimento de habilidades (equipe):

A empresa de produção, distribuição e / ou financiamento do filme oferece oportunidades de treinamento e / ou trabalho para o desenvolvimento de habilidades para pessoas dos seguintes grupos sub-representados:

  • Mulheres
  • Grupo racial ou étnico
  • LGBTQ +
  • Pessoas com deficiências cognitivas ou físicas, ou surdas ou com deficiência auditiva

 

Padrão D: Desenvolvimento de público

Para atingir o Padrão D, o filme deve atender aos critérios abaixo:

D1. Representação em marketing, publicidade e distribuição:

O estúdio e / ou empresa de cinema precisa ter vários executivos seniores internos dentre os seguintes grupos sub-representados (deve incluir indivíduos de grupos raciais ou étnicos sub-representados) em suas equipes de marketing, publicidade e / ou distribuição:

  • Mulheres
  • Grupo racial ou étnico:

Asiático

Hispânico / latino

Negro / afro-americano

Indígena / Nativa americana / Nativa do Alasca

Oriente Médio / Norte da África

Havaiano nativo ou outro ilhéu do Pacífico

Outra raça ou etnia sub-representada

  • LGBTQ +
  • Pessoas com deficiências cognitivas ou físicas, ou surdas ou com deficiência auditiva”.

 

Definidos pelo Conselho Diretor, que criou uma força-tarefa liderada por DeVon Franklin e Jim Gianopulos, os padrões são similares aos de outras instituições, como o British Film Institute (BFI) e British Academy of Film and Television Arts (BAFTA), segundo comunicado oficial da AMPAS à imprensa, destacando que as decisões foram tomadas após consulta ao Sindicato de Produtores dos Estados Unidos (Producers Guild of America – PGA), responsável pelo PGA Awards, maior termômetro da categoria de melhor filme do Oscar. De acordo com a Academia, esta medida integra a nova fase de sua iniciativa em prol de equidade e inclusão, chamada de Academy Aperture 2025, anunciada em junho deste ano. À época, Dawn Hudson, CEO da AMPAS, afirmou que as regras da premiação seriam analisadas e, se necessário, alteradas “para garantir que todas as vozes sejam ouvidas e celebradas”.

 

Baseado numa história real, “Green Book – O Guia” recebeu três estatuetas, incluindo a de melhor filme (Foto: Divulgação – Crédito: Aaron Poole / ©A.M.P.A.S.).

 

Recebendo duras críticas desde o Oscar 2016, chamado de “#OscarSoWhite” (“Oscar tão branco”, uma tradução literal), a AMPAS buscou caminhos para aumentar os índices de representatividade, diversidade e inclusão tanto em seu quadro de membros quanto no Oscar. Mas, no segundo, depende de mudanças drásticas na própria indústria cinematográfica. Tais mudanças vêm acontecendo gradativa e discretamente, mas sem o reflexo necessário na premiação da Academia, que, desta vez, decidiu impor suas próprias condições não somente para modificar de fato o cenário, mas para se ajustar às novas exigências da sociedade, evitando, assim, mais críticas negativas após o anúncio dos indicados ao Oscar e, até mesmo, dos vencedores – vide a polêmica causada pela vitória de “Green Book – O Guia” (Green Book – 2018) em 2019.

 

No entanto, a nova regra de elegibilidade para a categoria de melhor filme, a principal do Oscar, colocou, mais uma vez, a Academia no centro de algo que ela mesma tenta evitar: polêmica. Isto se deve ao fato de que, para muitos, o filme deve ser analisado e, consequentemente, premiado, pelo que ele é. Não pela raça, etnia e/ou gênero de quem o realiza, por exemplo. Esta discussão já começou em Hollywood e certamente ganhará força nos próximos anos e edições, acirrando os ânimos de parte da comunidade hollywoodiana, que alegará que esta regra impedirá a participação de diversos projetos na corrida por uma vaga entre os finalistas do Oscar.

 

Cynthia Erivo se apresenta com a foto de Harriet Tubman no telão (Foto: Divulgação – Crédito: Blaine Ohigashi / ©A.M.P.A.S.).

 

Esta movimentação da AMPAS pôde ser observada na última cerimônia do Oscar, realizada em 09 de fevereiro deste ano, calcada no tom inclusivo e, também, de autocrítica, pois a todo instante os apresentadores lembraram a falta de representatividade na História da instituição. Isto ficou evidente logo nos primeiros minutos da festa, ainda durante a performance de Janelle Monáe, sendo corroborado pela homenagem à Harriet Tubman ao mostrar sua imagem no telão durante a apresentação musical de Cynthia Erivo, indicada ao Oscar de melhor atriz por interpretar a ex-escrava e ativista em “Harriet” (Idem – 2019). Apesar disso, os produtores derraparam ao convidar Shia LaBeouf para entregar o prêmio de melhor curta em live-action ao lado de Zack Gottsagen, ator que entrou para a História como o primeiro apresentador com Síndrome de Down do Oscar. Esnobado pela Academia por “Honey Boy” (Idem – 2019), filme inspirado na sua vida, LaBeouf demonstrou impaciência para com o colega, com quem contracenou em “O Falcão Manteiga de Amendoim” (The Peanut Butter Falcon – 2019), e recebeu inúmeras críticas.

 

É importante lembrar que, em abril deste ano, a Academia anunciou o afrouxamento da “Regra Dois, Elegibilidade” para o Oscar 2021 devido ao impacto da pandemia do novo Coronavírus (Covid-19) sobre a indústria cinematográfica, tornando elegíveis, apenas para a próxima edição, títulos lançados diretamente no streaming sem a necessidade de exibição comercial em Los Angeles por pelo menos sete dias consecutivos e três sessões diárias. Com isso, a AMPAS começará de fato a endurecer as regras nas edições 94 (2022) e 95 (2023), mas as mesmas serão enviadas por formulário confidencial.

 

Adiada em decorrência da pandemia, a cerimônia do Oscar 2021 será realizada em 25 de abril, no Dolby Theatre, em Los Angeles. Com isso, todo o cronograma da AMPAS foi modificado, sobretudo no que tange ao período de elegibilidade, que foi estendido até 28 de fevereiro de 2021, data outrora escolhida para a realização da maior festa da indústria hollywoodiana. A lista de indicados ao Oscar será divulgada em 15 de março.

 

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