Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Oscar 2021: ‘Nomadland’ é o grande vencedor

Frances McDormand e Chloé Zhao recebem o Oscar de melhor filme por “Nomadland” (Foto: Divulgação – Crédito: Todd Wawrychuk / ©A.M.P.A.S.).

Realizada no último domingo, dia 25, pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) na Union Station, em Los Angeles, com locações secundárias em Londres e Paris, a cerimônia do Oscar deste ano teve como grande vencedor “Nomadland” (Idem – 2020), que conquistou três das seis estatuetas às quais concorria: melhor filme, direção para Chloé Zhao e atriz para Frances McDormand – Zhao e McDormand também receberam o Golden Boy como produtoras.

 

Chloé Zhao se tornou a segunda mulher a vencer a estatueta do Oscar de melhor direção (Foto: Divulgação – Crédito: Todd Wawrychuk / ©A.M.P.A.S.).

 

O Oscar 2021 entrou para a História da Academia não apenas pelo fato de não concentrar a cerimônia em locação única, permitindo que indicados de outros países participassem remotamente, algo inicialmente vetado pela produção, mas, principalmente, por ser o mais diverso e inclusivo de todos os tempos. Isto é resultado da implementação das mudanças impostas pelas novas demandas da sociedade, sobretudo no que tange às questões de diversidade, representatividade e inclusão, algo que ganhou força após as críticas ao Oscar 2016, chamado de “#OscarSoWhite” (Oscar tão branco, em tradução literal). E esta edição será lembrada, dentre tantas outras coisas, por premiar a primeira cineasta chinesa com a estatueta de melhor direção, Zhao. Esta é a segunda vez que uma mulher vence a categoria. Em 2010, a americana Kathryn Bigelow foi a primeira cineasta a ser agraciada com este Golden Boy por “Guerra ao Terror” (The Hurt Locker – 2008).

 

Com uma temática bastante atual, “Nomadland” era considerado o favorito da noite, assim como sua realizadora, mas a vitória de Frances McDormand não era tida como certa, pois a atriz não ganhou os principais termômetros de atores, o Globo de Ouro de atriz em filme de drama e o Actor, do SAG Awards, respectivamente concedidos pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (Holywood Foreign Press Association – HFPA) e pelo Sindicato dos Atores (Screen Actors Guild – SAG). McDormand é uma das profissionais mais reconhecidas pela AMPAS, pois esta é a sua terceira estatueta do Oscar de melhor atriz – as outras duas foram por “Fargo: Uma Comédia de Erros” (Fargo – 1996) e “Três Anúncios Para um Crime” (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri – 2017). Este ano, o Globo de Ouro ficou com Andra Day por “The United States vs. Billie Holiday” (Idem – 2021), e o Actor com Viola Davis por “A Voz Suprema do Blues” (Ma Rainey’s Black Bottom – 2020).

 

Atriz negra mais vezes indicada ao prêmio da Academia, quatro ao todo, vencendo apenas o de melhor atriz coadjuvante por “Um Limite Entre Nós” (Fences – 2016), Davis era a favorita na disputa, da mesma maneira que seu colega de cena, Chadwick Boseman, era o nome mais forte da corrida pela estatueta de ator, sobretudo por ter vencido o Globo de Ouro de melhor ator em filme de drama e o Actor. Além disso, havia forte comoção em torno da sua indicação devido à morte precoce, em agosto do ano passado, no auge da carreira, em decorrência do câncer. Eterno Rei T’Challa / Pantera Negra, Boseman perdeu a estatueta para Anthony Hopkins por “Meu Pai” (The Father – 2020), que surpreendeu ao vencer a categoria de roteiro adaptado, que tinha “Nomadland” como título favorito. Aos 83 anos de idade, Hopkins, que não compareceu à cerimônia, se tornou o profissional mais velho a vencer esta estatueta, que é a sua segunda – a primeira foi por “O Silêncio dos Inocentes” (The Silence of the Lambs – 1991).

 

Daniel Kaluuya agradece o prêmio de melhor ator coadjuvante por “Judas e o Messias Negro” (Foto: Divulgação – Crédito: Todd Wawrychuk / ©A.M.P.A.S.).

 

Se as categorias de atores principais surpreenderam em seus resultados, o mesmo não pode ser dito sobre as de coadjuvantes, pois Daniel Kaluuya e Yuh-jung Youn, primeira coreana a conquistar o Oscar, saíram da Union Station com suas respectivas estatuetas por “Judas e o Messias Negro” (Judas and the Black Messiah – 2021) e “Minari – Em Busca da Felicidade” (Idem – 2020). Também foram previsíveis os prêmios de animação para “Soul” (Idem – 2020), de Pete Docter e Kemp Powers, e o de filme internacional para “Druk – Mais uma Rodada” (Druk – 2020, Dinamarca), de Thomas Vinterberg, que disse, em seu discurso de agradecimento, ter perdido o controle da própria vida e que era muito grato à equipe por “salvar” o filme, rodado durante o seu período de luto pela filha, falecida num acidente de carro quatro dias após o início das filmagens. Indicado também ao prêmio de direção, Vinterberg, bastante emocionado, lembrou que a tragédia foi causada porque a pessoa ao volante estava usando o celular e que o longa foi feito para a jovem, que, pouco antes da tragédia, havia demonstrado entusiasmo pelo projeto.

 

Regina King na cerimônia do Oscar 2021 (Foto: Divulgação – Crédito: Todd Wawrychuk / ©A.M.P.A.S.).

Quebrando a tradição de encerrar a noite com a categoria de melhor filme, a cerimônia deste ano não teve o glamour de outrora em decorrência da pandemia e, conforme dito anteriormente, utilizou como palco principal a Union Station, maior estação de trem de Los Angeles, que manteve seu funcionamento normal, cedendo espaços específicos para a festa da Academia. O evento começou mostrando a entrada de Regina King carregando a estatueta de roteiro original que seria entregue à Emerald Fennell por “Bela Vingança” (Promising Young Woman – 2020), a única recebida pelo filme. A atriz e, agora, cineasta, uma vez que estreou na função de diretora em “Uma Noite em Miami…” (One Night in Miami – 2020), citou o momento difícil da pandemia e, também, o longa brasileiro “Cidade de Deus” (2002), segundo King, referência para os irmãos Keith e Kenneth Lucas, dois dos quatro roteiristas indicados por “Judas e o Messias Negro”.

 

Líder de indicações nesta edição, 10 ao todo, inclusive a de melhor filme, “Mank” (Idem – 2020) venceu somente os prêmios de design de produção e fotografia – dos oito indicados a filme, “Os 7 de Chicago” (The Trial of the Chicago 7 – 2020), de Aaron Sorkin, foi o único a não conquistar nenhuma estatueta. Dirigido por David Fincher, “Mank” é uma produção original Netflix, empresa que há anos tenta ganhar o prêmio principal e tem se destacado nas listas de indicados. Nesta edição, a gigante do streaming somou o maior número de estatuetas, sete, mas isto não significa a tão esperada aceitação por parte dos membros da AMPAS, que, ao concederem o Golden Boy de melhor filme e direção a “Nomadland” e os de atores, principais e coadjuvantes, a outros títulos concebidos para a tela grande, deram o mesmo recado dos anos anteriores: as plataformas digitais podem pleitear o espaço e concorrer ao Oscar, ganhando algumas estatuetas, mas, no final, o que prevalece é o modelo tradicional, calcado na experiência das salas de exibição, responsáveis pelo lucro que mantém as engrenagens da indústria funcionando.

 

Presidida pelo diretor de elenco David Rubin, a AMPAS apresentou o Jean Hersholt Humanitarian Award durante a cerimônia do Oscar pela primeira vez desde 2009. Nos últimos anos, o prêmio humanitário foi entregue no Governors Awards, evento separado que condensa os Oscars especiais. Este ano, o Jean Hersholt Humanitarian Award foi concedido a Tyler Perry e à organização Motion Picture and Television Fund. Casa do Oscar, o Dolby Theatre serviu de palco para a entrega do prêmio à organização, tendo Bryan Cranston como apresentador e responsável por homenagear, também, profissionais de saúde que estão na linha de frente da Covid-19. Já Tyler Perry, recebeu sua estatueta especial na Union Station das mãos de Viola Davis.

 

Os produtores do Oscar 2021, Jesse Collins, Stacy Sher e Steven Soderbergh, no tapete vermelho da Union Station (Foto: Divulgação – Crédito: Matt Petit / ©A.M.P.A.S.).

 

Produzida por Jesse Collins, Stacey Sher e Steven Soderbergh, a 93a cerimônia de entrega do Oscar enfrentou obstáculos para que pudesse ser realizada, sobretudo no que tange à pandemia de Covid-19, que afetou a indústria cinematográfica como jamais visto, impondo interrupções de atividades e adiamentos de estreias – muitos filmes anteriormente cotados para este Oscar ainda nem chegaram ao circuito exibidor. Dentre os obstáculos, a criação de um ambiente seguro para todos os envolvidos no evento, que manteve o formato presencial apesar das inúmeras críticas e, não bastasse, permitiu que indicados e convidados ficassem sem máscaras na plateia durante a exibição televisiva, sendo obrigados a colocar o acessório tanto nos intervalos comerciais quanto nas áreas secundárias da cerimônia, uma vez que houve rodízio no auditório. No entanto, no quesito distanciamento, a escolha da Union Station em detrimento do Dolby Theatre causou certa estranheza, pois no tradicional teatro há mais espaço que no auditório da estação.

 

Gravando com antecedência os números musicais, exibindo-os no especial “Oscars: Into the Spotlight”, a Academia realizou o primeiro grande evento presencial desde o início da pandemia, lembrando as vítimas da Covid-19, inclusive anônimas e de todas as nacionalidades, no segmento In Memoriam. No decorrer de pouco mais de três horas, a AMPAS fez o possível para transmitir ao telespectador a sensação de volta à normalidade ou, pelo menos, de proximidade deste momento tão esperado por todos. Com isso, o Oscar 2021 funcionou como uma espécie de recado ao público, que se afastou das salas de exibição no último ano devido ao risco representado pelo novo coronavírus, pedindo sua volta aos cinemas, algo pleiteado pelos exibidores nas últimas semanas.

 

Confira a lista completa de vencedores:

Melhor filme:

– “Nomadland”.

Melhor direção:

– Chloé Zhao – “Nomadland”.

Melhor ator:

– Anthony Hopkins – “Meu Pai”.

Melhor atriz:

– Frances McDormand – “Nomadland”.

Melhor ator coadjuvante:

– Daniel Kaluuya – “Judas e o Messias Negro”.

Melhor atriz coadjuvante:

– Yuh-jung Youn – “Minari – Em Busca da Felicidade”.

Melhor roteiro original:

– Emerald Fennell – “Bela Vingança”.

Melhor roteiro adaptado:

– Christopher Hampton e Florian Zeller – “Meu Pai”.

Melhor animação:

– “Soul”.

Melhor filme internacional:

– “Druk – Mais Uma Rodada”.

Melhor fotografia:

– “Mank”.

Melhor edição (montagem):

– “O Som do Silêncio” (Sound of Metal – 2020).

Melhor design de produção:

– “Mank”.

Melhor figurino:

– “A Voz Suprema do Blues”.

Melhor maquiagem e cabelo:

– “A Voz Suprema do Blues”.

Melhor trilha sonora:

– “Soul”.

Melhor canção original:

– “Fight for You”, de “Judas e o Messias Negro” – H.E.R., Dernst Emile II e Tiara Thomas.

Melhor som:

– “O Som do Silêncio”.

Melhores efeitos visuais:

– “Tenet” (Idem – 2020).

Melhor documentário:

– “Professor Polvo” (My Octopus Teacher – 2020).

Melhor documentário (curta):

– “Colette” (Idem – 2020).

Melhor animação (curta):

– “Se Algo Acontecer… Te Amo” (If Anything Happens I Love You – 2020).

Melhor curta:

– “Two Distant Strangers” (Idem – 2020).

Jean Hersholt Humanitarian Award:

– Tyler Perry.

– Motion Picture and Television Fund.

 

Confira a galeria de fotos oficiais do Oscar 2021:

 

 

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