Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Oscar 2021: cerimônia histórica repleta de acertos e tropeços

Maior estação de trem de Los Angeles, Union Station, sendo preparada para o Oscar 2021 (Foto: Divulgação – Crédito: Troy Harvey / ©A.M.P.A.S.).

No último domingo, dia 25, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) atingiu o objetivo de realizar uma cerimônia do Oscar guiada por questões como representatividade, diversidade e inclusão no que tange não apenas à acessibilidade, mas, principalmente, aos vencedores da estatueta dourada mais cobiçada do cinema mundial, premiando brancos (25 homens e oito mulheres), negros (quatro homens e quatro mulheres), latinos (dois homens e uma mulher) e três mulheres asiáticas. Ou seja, a instituição fez História e, neste sentido, se livrou das críticas negativas que a assombravam desde 2016, algo que teve a pandemia como facilitadora porque títulos previamente apontados como fortes concorrentes sequer chegaram ao circuito comercial e, portanto, não estavam elegíveis. Porém, a 93a cerimônia de entrega do Oscar também pode ser chamada de histórica por motivos que os produtores Jesse Collins, Stacy Sher e Steven Soderbergh só imaginaram em seus pesadelos.

 

Joaquin Phoenix apresenta o Oscar de melhor ator (Foto: Divulgação – Crédito: Todd Wawrychuk / ©A.M.P.A.S.).

 

A insistência da Academia em realizar o evento de forma presencial em meio à pandemia, impedindo a participação remota de vencedores no ambiente doméstico, levando indicados a locações distintas dentro e fora dos Estados Unidos foi um tiro no pé, principalmente se a mudança na ordem de entrega dos prêmios for levada em consideração, pois, pela primeira vez em décadas, a estatueta de melhor filme não foi anunciada por último. Isto aconteceu provavelmente devido à crença dos organizadores de que Chadwick Boseman seria consagrado como melhor ator por “A Voz Suprema do Blues” (Ma Rainey’s Black Bottom – 2020), possibilitando a merecida homenagem final ao astro que se despediu precocemente, no auge da carreira, vitimado pelo câncer em 28 de agosto de 2020. Na verdade, a maioria das apostas desta categoria era no eterno Rei T’Challa / Pantera Negra, tendo o peso de Oscar honorário mais do que de ator. Mas o anúncio do nome de Anthony Hopkins por sua performance em “Meu Pai” (The Father – 2020), feito por Joaquin Phoenix, vencedor do ano passado por “Coringa” (Joker – 2019), não apenas surpreendeu a todos, como também serviu como um balde de água fria na produção do Oscar, que terminou abruptamente, pois Hopkins não compareceu à cerimônia, agradecendo sua segunda estatueta em vídeo postado em redes sociais na segunda-feira, dia 26, e prestando uma homenagem ao colega do Universo Cinematográfico da Marvel (UCM).

 

Durante meses, os produtores anunciaram que o Oscar 2021 estava sendo concebido como uma produção cinematográfica, mas o evento não teve “cara” de filme nem de Oscar. Obviamente, o cenário pandêmico impôs uma abertura mais sóbria se comparada às edições anteriores, mas o que pôde ser observado após o monólogo de Regina King foi uma cerimônia totalmente desprovida de ritmo e incapaz de prender a atenção do espectador. E isto não pode ser atribuído à pandemia, mas às escolhas dos organizadores que, na busca por algo diferenciado, entregaram um evento cansativo e, por que não dizer, insosso, algo que poderia ter sido amenizado caso escalassem um apresentador oficial como no passado não tão distante assim.

 

A tradicional Union Station, em Los Angeles, foi escolhida como palco principal do Oscar 2021 (Foto: Divulgação – Crédito: Troy Harvey / ©A.M.P.A.S.).

 

Maior estação de trem de Los Angeles, a Union Station recebeu a cerimônia propriamente dita, seguindo protocolo de segurança instituído nos sets de filmagens devido à classificação de produção cinematográfica. Tal protocolo incluiu, entre outras coisas, testagem em todos os envolvidos e rodízio de convidados no auditório, desinfetado durante os intervalos. Mas a não obrigatoriedade de máscaras pelos presentes durante a transmissão televisiva soou como hipocrisia e, até mesmo, como mensagem equivocada de volta à normalidade de outrora, baseada no bordão “o show tem que continuar”. De fato, tem, mas sem precipitação para não colocar as pessoas em risco. Neste ponto, vale lembrar a bronca de Tom Cruise em membros de sua equipe no set de “Missão: Impossível 7” (Mission: Impossible 7 – 2021), divulgado pelo The Sun no final do ano passado.

 

Movido pela preocupação com os efeitos da crise econômica que impactou Hollywood como jamais visto, colocando profissionais de diversos departamentos em situação delicada, o desabafo furioso de Cruise, que é um dos produtores do filme e, portanto, responsável pela segurança de todos no set, procede, pois ainda não há previsão de retorno totalmente seguro às atividades cotidianas. Isto, infelizmente, inclui as salas de exibição, locais fechados e propícios para a disseminação do novo coronavírus. E o lucro necessário para manter a indústria de pé é obtido nas salas, que, para funcionarem com lotação máxima, como antes, precisam que a pandemia esteja sob controle para que o público se sinta seguro para voltar a frequentá-las. Enquanto isso não acontece, o cinema vê o streaming crescer e se beneficiar justamente por ser fonte primária de entretenimento seguro neste cenário pandêmico que mais parece um filme de terror e ficção-científica.

 

O crescimento do streaming se refletiu na lista de indicados ao Oscar deste ano, repleta de produções originais de plataformas digitais como Amazon e Netflix, que conquistou sete estatuetas, ocupando a primeira posição do ranking das companhias, inclusive ultrapassando a Walt Disney Company e a Warner Bros., que venceram cinco e três estatuetas, respectivamente, cada. Mas o fato de tais produções não vencerem categorias importantes (filme, direção e atores, principais e coadjuvantes) serviu como recado da AMPAS ao streaming, prevalecendo o modelo tradicional de cinema, calcado na experiência proporcionada pelas salas de exibição, locais historicamente de socialização. E quando a pandemia acabar, a parcela da população que tem cumprido o isolamento social, saindo de casa somente para atividades essenciais, estará ávida por retomar antigos hábitos culturais e de consumo. Com isso, o modelo tradicional de cinema ressurgirá como uma Fênix, ainda mais forte, contrariando a sensação de “extinção” que tomou a todos de assalto quando a Covid-19 se alastrou pelo mundo, impondo interrupções e adiamentos em efeito dominó à indústria cinematográfica, coexistindo pacificamente com as plataformas digitais tal qual no passado, quando a televisão e o videocassete eram considerados ameaças que não se concretizaram. Afinal, nada substitui a tela grande do cinema.

 

No futuro, a 93a cerimônia de entrega do Oscar será lembrada pelo resultado diverso e inclusivo há tempos cobrado pela sociedade, guiada pela sobriedade exigida pela pandemia, mas também pelos tropeços oriundos da busca desesperada dos produtores em realizar uma edição capaz de romper com a tradição para manter o formato presencial, transmitindo a mensagem de normalidade para atender, também, aos pedidos dos exibidores, que têm sofrido com a crise econômica originada pela sanitária. Sem títulos de grande apelo comercial na disputa pelo Golden Boy, o evento não conquistou o telespectador em sua totalidade, causando certa estranheza em alguns momentos, o que pode explicar a queda vertiginosa de audiência, 58,3%, de acordo com a Variety. E isto é um sinal claro da necessidade de repensar o show do próximo ano para atrair novamente o público, sobretudo a fatia mais jovem, que tem perdido o interesse pelo Oscar há algum tempo.

 

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