Ana Carolina Garcia. Foto: SRzd

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

‘Nostalgia’: volta para casa

“Nostalgia” é dirigido por Mario Martone (Foto: Divulgação).

“Nostalgia” é baseado no livro homônimo de Ermanno Rea (Foto: Divulgação).

Comemorando mais uma edição do Festival do Rio, um dos eventos mais importantes da cidade, os cinéfilos cariocas também têm outros títulos à sua disposição no circuito exibidor, dentre eles, o drama “Nostalgia” (Nostalgia – 2022, Itália / França), que entra em cartaz nesta quinta-feira, dia 05.

Baseado no livro homônimo de Ermanno Rea, “Nostalgia” mostra o retorno de Felice Lasco (Pierfrancesco Favino) à sua cidade natal, Nápoles, marcada por episódios de violência. Afastado há 40 anos, Felice é obrigado a voltar para reencontrar a mãe idosa que vive em condições precárias, inclusive de saúde. Reatando laços com a mãe, ele é confrontado por fantasmas do passado, colocando-se numa situação cada vez mais arriscada.

Utilizando a relação entre mãe e filho como fio condutor de sua trama, abordando a importância do afeto e do acolhimento especialmente para idosos vulneráveis, o longa se desenvolve sem pressa para apresentar as diversas camadas ao espectador. E o faz de maneira a explorar as mais variadas emoções do protagonista, assim como a cidade na qual a história é ambientada, inclusive no que tange às consequências do cenário violento sobre a população constantemente amedrontada que tem no padre da paróquia local seu porto seguro.

Dirigido por Mario Martone, “Nostalgia” é uma produção sobre o acerto de contas com o passado, que ultrapassa a barreira da relação familiar para se tornar um drama sobre o tormento do remorso e a necessidade virar a página para seguir em frente. Isso funciona graças à atuação de Favino, que constrói seu personagem de maneira a esmiuçar sua dor e anseios por meio de detalhes. É uma interpretação contida, mas potente, que cresce sobretudo na segunda metade do longa, quando o lado mais obscuro de seu passado o confronta diretamente, condensado na figura do melhor amigo de adolescência, a quem considerava irmão, e atual chefe do crime no bairro de Rione Sanità.

Conectando passado e presente por meio de flashbacks inseridos com maestria pela montagem de Jacopo Quadri, “Nostalgia” mostra como a visita ao passado interfere no presente do protagonista, que precisa encontrar seu próprio lugar em meio às lembranças e a insistência em permanecer numa cidade em que não é bem-vindo, bastante diferente daquele que guia suas memórias de adolescência. E isso é conduzido por Martone com cuidado, mas de forma um tanto repetitiva para conceder ao espectador a sensação de aprisionamento do protagonista, o que pode cansar a plateia em alguns momentos. Contudo, nada que enfraqueça a potência narrativa desse longa indicado à Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2022.

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