Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Mostra de Cinema de São Paulo: ‘Mosquito’

“Mosquito” é um dos selecionados da seção Competição Novos Diretores da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (Foto: Divulgação).

Na última temporada de premiações, o britânico Sam Mendes se destacou com “1917” (Idem – 2019), inspirado nas histórias de seu avô sobre a Primeira Guerra Mundial. Enquanto Mendes produzia sua obra-prima, o cineasta João Nuno Pinto trabalhava em outro drama sobre o conflito também chamado de Guerra das Trincheiras, baseado na experiência de seu avô, enviado à África com o exército português. Segundo longa-metragem de Pinto, “Mosquito” (Idem – 2020) é um dos selecionados da seção Competição Novos Diretores da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começa nesta quinta-feira, dia 22, em formato online devido à pandemia do novo coronavírus.

 

“Mosquito” é o segundo longa-metragem do diretor João Nuno Pinto (Foto: Divulgação).

Coprodução brasileira, portuguesa e francesa, “Mosquito” conta a história de Zacarias (João Nunes Monteiro), jovem de 17 anos que se alista sonhando em se tornar homem nos campos de batalha franceses, mas desembarca na África, onde contrai malária. Em Moçambique, Zacarias é deixado para trás, mas decide se aventurar na companhia de dois carregadores até encontrar o pelotão. No caminho, realidade e alucinações se misturam.

 

“Mosquito” começa tecendo uma crítica necessária e ferrenha à maneira na qual os negros eram tratados pelos portugueses em seu próprio país, como animais ou escravos, nunca como os seres humanos que de fato são. A crueza das sequências dos homens negros carregando brancos nas costas, bem como acorrentados, geram enorme impacto, pois é impossível não sentir incômodo ao assisti-las, principalmente por retratarem fatos do passado não tão distante assim. Neste contexto, há outra crítica, mas à colonização portuguesa que deixou cicatrizes em países africanos. O comportamento arrogante e monstruoso dos oficiais portugueses em relação à população local, inclusive no que tange às mulheres, tratadas como objetos sexuais e descartáveis, é condensado na figura do Sargento Justino (João Lagarto), defendido com garra pelo veterano ator que viverá Dom João VI em “Pedro” (2020), da brasileira Laís Bodanzky.

 

Enquanto João Lagarto surge como um leão em cena, João Nunes Monteiro constrói Zacarias de maneira a apresentar ao espectador a ânsia de um adolescente em se tornar homem perante a sociedade, lutando pelo seu país a quilômetros de casa. Neste sentido, “Mosquito” pode soar como um coming-of-age movie travestido de drama de guerra. No entanto, isto funciona graças à desenvoltura de Monteiro, que passeia entre realidade e alucinação com facilidade e rapidez num trabalho bastante complexo.

 

Conduzido com firmeza por João Nuno Pinto, responsável também pelo roteiro, assinado ao lado de Fernanda Polacow e Gonçalo Waddington, “Mosquito” transmite a importante mensagem de respeito ao próximo, antibelicista e anticolonialista. Tudo isso é apresentado de maneira quase didática, porém, calcado numa montagem que durante todo o tempo brinca com os elementos narrativos de forma a não permitir à plateia decifrar se o que está sendo mostrado é realidade ou ilusão. É um trabalho primoroso de Gustavo Giani, que, aliado à fotografia e direção de arte, demonstra o apuro técnico deste longa que levou quase 10 anos para ser concluído por seu diretor.

 

Remetendo um pouco a “Nascido em 4 de Julho” (Born ob The Fourth of July – 1989) no que diz respeito ao idealismo e aspirações de um garoto que nada conhece da vida e precisa crescer no inferno da guerra outrora romantizada por ele, “Mosquito” é um filme sobre amadurecimento, crueldade humana e a insignificância das insígnias face à natureza selvagem, que surge como instrumento de justiça aos olhos do espectador. Sem dúvida, um dos títulos mais interessantes da Mostra de São Paulo, sobretudo por levar o público à reflexão.

 

*A Mostra de Cinema de São Paulo acontece até o dia 04 de novembro, reunindo 198 títulos de 71 nacionalidades, disponibilizados na plataforma Mostra Play ao custo de R$ 6. Além disso, 30 produções serão oferecidas gratuitamente nas plataformas digitais Spcine Play e Sesc Digital, assim como sessões no Belas Artes Drive-in (Memorial da América Latina) e Cinesesc Drive-in (unidade Sesc Parque Dom Pedro II). Clique aqui para conferir a programação completa dos filmes da Mostra.

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