Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Globo de Ouro 2021: ‘Nomadland’ e ‘Borat: Fita de Cinema Seguinte’ são os vencedores

Globo de Ouro 2021: cerimônia híbrida e sóbria (Foto: Divulgação / Crédito: HFPA Photographer).

A Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (Hollywood Foreign Press Association – HFPA) realizou na noite do último domingo, dia 28, a 78a cerimônia de entrega do Globo de Ouro, dividida em duas localidades distintas: o Rainbow Ballroom, em Nova York, sob o comando de Tina Fey, e o The Beverly Hilton Hotel, em Los Angeles, com Amy Poehler. E os grandes vencedores deste ano foram “Nomadland” (Idem – 2020) e “Borat: Fita de Cinema Seguinte” (Borat Subsequent Moviefilm: Delivery of Prodigious Bribe to American Regime for Make Benefit Once Glorious Nation of Kazakhstan – 2020), ambos com duas estatuetas, cada.

 

Um dos títulos mais comentados e cotados da temporada, “Nomadland” faz uma crítica aos Estados Unidos e recebeu os Globos de Ouro de melhor filme de drama e direção para Chloé Zhao, chinesa que tem construído uma carreira sólida em Hollywood, cujo próximo filme é o blockbuster da Marvel “Os Eternos” (The Eternals – 2021). “Nomadland” ainda concorria nas categorias de roteiro para Zhao e atriz em filme de drama para Francis MacDormand, que perdeu para Andra Day por “The United States vs. Billie Holiday” (Idem – 2021).

 

“Borat: Fita de Cinema Seguinte” é protagonizado e roteirizado por Sacha Baron Cohen (Foto: Divulgação / Crédito: Amazon Studios).

 

Produção original Amazon Studios, “Borat: Fita de Cinema Seguinte” recebeu dois Globos de Ouro, melhor filme de comédia / musical e ator em filme de comédia / musical para Sacha Baron Cohen, perdendo apenas o de atriz em filme de comédia / musical para Maria Bakalova – Cohen também disputou disputa a estatueta de ator coadjuvante por seu desempenho em “Os 7 de Chicago” (The Trial of the Chicago 7 – 2020), mas perdeu para Daniel Kaluuya por “Judas e o Messias Negro” (Judas and the Black Messias – 2021). Rodado durante a pandemia, o longa, dirigido por Jason Woliner, é um dos mais polêmicos do ano passado por criticar abertamente o governo do ex-presidente Donald Trump.

 

Primeira animação da Disney / Pixar protagonizada por um personagem negro, “Soul” (Idem – 2020) também venceu duas estatuetas: melhor animação e trilha sonora. Disponível na Disney+, o longa derrotou outros quatro títulos de peso, incluindo outro da mesma companhia, “Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica” (Onward – 2020).

 

Chadwick Boseman interpreta um trompetista em “A Voz Suprema do Blues” (Foto: Divulgação / Crédito: Netflix).

 

Eterno Rei T’Challa / Pantera Negra do Universo Cinematográfico da Marvel (UCM), Chadwick Boseman venceu o prêmio de melhor ator em filme de drama por “A Voz Suprema do Blues” (Ma Rainey’s Black Bottom – 2020), produção original Netflix que também rendeu uma indicação à Viola Davis na categoria de atriz em filme de drama. Falecido em agosto do ano passado, Boseman foi representado por sua esposa, Taylor Simone Ledward, que, bastante emocionada, fez um discurso de agradecimento, segundo ela, como o marido gostaria de ter feito.

 

Equilibrado, o resultado do Globo de Ouro chama a atenção não apenas por contar com três atores negros entre os vencedores, como também por não premiar o título que liderou a lista de indicados deste ano ao disputar seis categorias: “Mank” (Idem – 2020), de David Fincher. A derrota de “Mank” foi um balde de água fria na Netflix, que o produziu e distribuiu, colocando-o como uma de suas apostas nesta temporada que termina com a cerimônia do Oscar. Com isso, a gigante do streaming comemorou, nas categorias destinadas ao cinema, somente as estatuetas de Boseman e de Aaron Sorkin pelo roteiro de “Os 7 de Chicago”. Produzido pela Paramount Pictures e DreamWorks SKG, o longa distribuído pela Netflix concorria a outros quatro Globos de Ouro: filme de drama, direção para Sorkin, canção original por “Hear My Voice” para Daniel Pemberton e Celeste e a já citada de melhor ator coadjuvante para Sacha Baron Cohen.

 

Produção original Netflix, “Mank” é protagonizado por Gary Oldman (Foto: Divulgação / Crédito: Netflix).

 

Assim como “Mank”, “Meu Pai” (The Father – 2020), “Bela Vingança” (Promising Young Woman – 2020), “Hamilton” (Idem – 2020), “Palm Springs” (Idem – 2020), “A Festa de Formatura” (The Prom – 2020) e “Music” (Idem – 2021) também não receberam nenhuma estatueta. “Music”, por sinal, foi alvo de polêmica após a divulgação da lista de indicados devido às inúmeras críticas negativas recebidas.

 

Assumindo o tom sóbrio exigido pelo atual cenário de crise humanitária e econômica oriunda da sanitária, apesar de inserir poucos números de comediantes para conceder certa leveza, a cerimônia seguiu protocolos de segurança devido à Covid-19 – todos os apresentadores e membros da equipe foram testados. Com isso, o Globo de Ouro 2021 foi um evento híbrido que teve como convidados, tanto em Los Angeles quanto em Nova York, profissionais que trabalham na linha de frente da pandemia e, também, com serviços essenciais – mantendo distanciamento e usando máscara, acessório imprescindível para conter a disseminação do novo coronavírus. Foi uma maneira encontrada pela Associação para homenagear pessoas que têm se arriscado em prol do próximo há um ano. Neste contexto, os prêmios foram anunciados nos palcos, como nos anos anteriores, mas as celebridades indicadas participaram da festa direto de suas respectivas residências.

 

Mais do que a preocupação para com a pandemia, a HFPA realizou seu evento anual, um dos mais importantes do calendário hollywoodiano, enfrentando uma polêmica que a colocou em xeque, remetendo ao #OscarSoWhite, como foi apelidada a cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) em 2016. Há alguns dias, o LA Times publicou uma matéria sobre a Associação, afirmando, dentre outras coisas, que nenhum de seus 87 membros é negro.

 

A Associação se viu no olho do furacão desta nova polêmica devido à lista de indicados da premiação, que não conta com produções de elenco majoritariamente negro na disputa das categorias de melhor filme tanto de drama quanto de comédia / musical, o que levou à matéria do Los Angeles Times. Entre os títulos ignorados, alguns de destaque da atual temporada, como “Destacamento Blood” (Da 5 Bloods – 2020), “Uma Noite em Miami…” (One Night in Miami – 2020), “A Voz Suprema do Blues” (Ma Rainey’s Black Bottom – 2020) e “Judas e o Messias Negro”, o único dos quatro a ser lançado nas salas de exibição.

 

“Estamos totalmente comprometidos em garantir que nossa Associação reflita as comunidades em todo o mundo que amam o cinema, a TV e os artistas que os inspiram e educam. Entendemos que nós precisamos trazer membros negros, bem como membros de outras origens pouco representadas, e vamos trabalhar imediatamente para implementar um plano de ação para atingir esses objetivos o mais rápido possível”, disse a HFPA em declaração oficial ao Los Angeles Times na última quinta-feira, dia 25, enquanto recebia críticas de profissionais como Sterling K. Brown, Ava DuVernay, Judd Aparow, entre outros, nas redes sociais. Brown foi um dos apresentadores da noite e disse, no palco: “É bom ser negro no Globo de Ouro e votar no Globo de Ouro”.

 

Meher Tatna, Ali Sar e Helen Hoehne, respectivamente ex-presidente e atuais presidente e vice da HFPA (Foto: Divulgação / Crédito: HFPA Photographer).

 

A polêmica ganhou espaço durante a cerimônia do Globo de Ouro, inclusive por Fey e Poehler na abertura, numa tentativa da Associação em demonstrar vontade de implementar mudanças no futuro, seguindo os passos da AMPAS, que teve de se adaptar às novas demandas da sociedade e lidar com questões como representatividade, diversidade e inclusão não apenas no que tange aos indicados ao Oscar, como também ao seu quadro de membros, que é infinitamente superior ao da HFPA, pois engloba profissionais de diversas categorias da indústria cinematográfica. “Precisamos ter representação na nossa organização”, afirmou a jornalista indiana Meher Tatna, ex-presidente da HFPA, durante a cerimônia que angariou fundos para a Feeding America e Core. Tatna estava acompanhada da vice-presidente Helen Hoehne e do presidente Ali Sar.

 

Vencedora de sete Globos de Ouro, sendo três de melhor atriz em filme de drama, Jane Fonda recebeu o Cecil B. DeMille Award, prêmio especial concedido pela HFPA aos profissionais de cinema pelo conjunto da obra. Aos 83 anos de idade, a atriz fez questão de receber seu prêmio pessoalmente, no palco do The Beverly Hilton Hotel, com um discurso de agradecimento pautado na importância de representatividade, diversidade e inclusão, afirmando que Hollywood é uma “comunidade de contadores de histórias” e, como tal, precisa olhar além da superfície, permitindo que todos os setores sejam incluídos em histórias que “podem mudar as pessoas”. “Em toda a nossa diversidade, nós somos humanos em primeiro lugar”, afirmou a atriz conhecida por seu engajamento político.

 

Veterano da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) e criador de inúmeros programas de televisão, Norman Lear também foi homenageado pela Associação pelo conjunto da obra, mas com o Carol Burnett Award, prêmio entregue pela primeira vez em 2019 e voltado exclusivamente para profissionais de televisão. Aos 98 anos de idade, Lear, que nunca foi agraciado com o Globo de Ouro, lembrou da atriz e comediante que empresta o nome ao prêmio, agradecendo à HFPA, aos colegas com quem trabalhou ao longo da carreira e à família.

 

O Globo de Ouro é considerado o segundo prêmio mais importante para a indústria hollywoodiana e um grande termômetro para o Oscar, apesar de seu resultado não impactar diretamente o da cerimônia realizada pela AMPAS, influenciando apenas nas campanhas dos indicados. Ao contrário do que acontece com as premiações dos sindicatos, que exercem influência significativa no Oscar, pois boa parte dos integrantes do Sindicato dos Diretores dos Estados Unidos (Directors Guild of America – DGA) e do Sindicato dos Atores (Screen Actors Guild – SAG), por exemplo, são membros com direito a voto da AMPAS.

 

Confira a lista completa de vencedores:

Melhor filme – drama:

– “Nomadland”.

Melhor filme – comédia / musical:

– “Borat: Fita de Cinema Seguinte”.

Melhor ator – drama:

– Chadwick Boseman – “A Voz Suprema do Blues”.

Melhor atriz – drama:

– Andra Day – “The United States vs. Billie Holiday”.

Melhor ator – comédia / musical:

– Sacha Baron Cohen – “Borat: Fita de Cinema Seguinte”.

Melhor atriz – comédia / musical:

– Rosamund Pike – “Eu Me Importo” (I Care a Lot – 2020).

Melhor ator coadjuvante:

– Daniel Kaluuya – “Judas e o Messias Negro”.

Melhor atriz coadjuvante:

– Jodie Foster – “The Mauritanian” (Idem – 2021).

Melhor direção:

– Chloé Zhao – “Nomadland”.

Melhor roteiro:

– Aaron Sorkin – “Os 7 de Chicago”.

Melhor canção original:

– “Io Si (Seen)”, de “Rosa e Momo” (La vita davanti a sé – 2020, Itália) – Diane Warren, Laura Pausini e Niccolò Agliardi.

Melhor trilha sonora original:

– Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste – “Soul”.

Melhor animação:

– “Soul”.

Melhor filme estrangeiro:

– “Minari” (Idem – 2020, EUA / Coreia do Sul).

Melhor série de TV – drama:

– “The Crown” (Idem – desde 2016).

Melhor série de TV – comédia / musical:

– “Schitt’s Creek” (Idem – 2015 – 2020).

Melhor minissérie / telefilme:

– “O Gambito da Rainha” (The Queen’s Gambit – 2020).

Melhor ator em série de TV – drama:

– Josh O’Connor – “The Crown”.

Melhor atriz em série de TV – drama:

– Emma Corrin – “The Crown”.

Melhor ator em série de TV – comédia / musical:

– Jason Sudeikis – “Ted Lasso” (Idem – desde 2020).

Melhor atriz em série de TV – comédia / musical:

– Catherine O’Hara – “Schitt’s Creek”.

Melhor ator em minissérie / telefilme:

– Mark Ruffalo – “I Know This Much Is True” (Idem – 2020).

Melhor atriz em minissérie / telefilme:

– Anya Taylor-Joy – “O Gambito da Rainha”.

Melhor ator coadjuvante em série de TV / minissérie / telefilme:

– John Boyega – “Small Axe” (Idem – 2020).

Melhor atriz coadjuvante em série de TV / minissérie / telefilme:

– Gillian Anderson – “The Crown”.

Cecil B. DeMille Award:

– Jane Fonda.

Carol Burnett Award:

– Norman Lear.

 

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