Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

Festival do Rio 2021: ‘Slalom – Até o Limite’

“Slalom – Até o Limite” marca a estreia de Charlène Favier na direção de longas-metragens (Foto: Divulgação).

Não são poucos os filmes que abordam a descoberta da sexualidade e o assédio sofrido por jovens em ambientes que deveriam lhe conceder total segurança. Mas quando o assédio ultrapassa a barreira da violência sexual, o misto de sentimentos se torna inevitável, bem como o trauma que acompanhará a vítima por toda a vida. Este é o fio condutor de “Slalom – Até o Limite” (Slalom – 2019, Bélgica/ França), um dos títulos selecionados da edição especial do Festival do Rio 2021, realizada em parceria com a Rede Telecine, responsável por exibir os longas tanto em sua grade quanto em sua plataforma de streaming até o próximo dia 31.

 

Exibido no Festival de Cannes 2020, “Slalom – Até o Limite” conta a história de Lyz (Noée Abita), garota de 15 anos que nutre o sonho de seguir carreira profissional no esqui. Conciliando escola e treinos exaustivos, a jovem se vê numa situação delicada após o afastamento da mãe, que trabalha em outra cidade e a deixou sob os cuidados do técnico Fred (Jérémie Renier). Com o tempo, a relação treinador / atleta ganha outra dimensão, colocando Lyz sob pressão constante e a abalando cada vez mais emocionalmente.

 

Jérémie Renier e Noée Abita em cena de “Slalom – Até o Limite” (Foto: Divulgação).

 

Contando com fotografia que explora as belas locações, tornando-as parte essencial da narrativa para transmitir tanto a sensação de opressão quanto o vazio da vida de Lyz, sistematicamente negligenciada pelos pais, o longa se desenvolve de maneira a preparar a plateia para toda a complexidade das agressões, morais e físicas impostas por Fred à Lyz. Isto é apresentado sem rodeios graças à condução de Charlène Favier. Estreante na direção de longas-metragens, Favier equilibra firmeza e sensibilidade na abordagem de temas bastante complexos. É um trabalho muito verdadeiro, alicerçado num roteiro que não tem nenhuma intenção de levantar bandeiras, mas, sim, de levar o espectador à reflexão acerca do que é mostrado na tela, sobretudo em seu final.

 

No entanto, o grande trunfo deste longa é a comunhão de seu elenco, que tem como destaques Noée Abita e Jérémie Renier. Numa decisão acertada, a dupla tenta a todo instante fugir dos clichês inerentes às figuras da vítima e do agressor. Com isso, o espectador é apresentado gradualmente ao ambiente dos treinos, à vulnerabilidade da jovem e, por que não dizer, ao despertar da atração física em ambos, mas sem relativizar as ações violentas de um homem adulto para com a menor de idade por quem deveria zelar. Neste sentido, o lobo, que vez ou outra surge na neve, assume o papel de observador do lado mais animalesco do ser humano que age em prol de seus instintos sexuais, totalmente desprovido de ética.

 

Utilizando a câmera para aproximar o espectador da ação, “Slalom – Até o Limite” é uma produção forte que deixa em segundo plano a construção da carreira profissional de Lyz para abordar seu crescimento pessoal em meio à dor, física e emocional, imposta pela realidade à qual está inserida, sobretudo por não ter o amparo familiar. Por esta razão, a sequência final é tão impactante, pois coloca ascensão e queda lado a lado e na mesma intensidade.

 

* “Slalom – Até o Limite” estreia no circuito comercial no próximo dia 22.

 

Leia também:

Festival do Rio ganha edição especial no Telecine

 

Assista ao trailer oficial legendado:

Comentários

 




    gl