Responsabilidade, preconceito e maturidade: os desafios de uma mulher no comando de uma bateria

Festa da bateria da Imperatriz da Paulicéia. Foto: SRzd – Fausto D’Império

Tradicionalmente, as mulheres sempre tiveram destaque à frente de baterias de escolas de samba, principalmente no posto de rainha ou princesa. Atualmente, já se tornou comum ver mulheres tocando instrumentos nos desfiles e em inúmeras funções nas agremiações, mas ainda é raro encontrá-las comandando os ritmistas.

A Imperatriz da Paulicéia, agremiação do Grupo de Acesso de Bairros 1 da União das Escolas de Samba Paulistanas (Uesp), terá uma mulher no comando de sua bateria. Trata-se de Rafaella Rocha Azevedo.

Com 31 anos de idade, Rafaella iniciou a carreira de ritmista na X-9 Paulistana em 2007. Na Imperatriz, liderou os ritmistas da “Swing da Paulicéia” em 2015 e retornou para exercer a mesma função no último Carnaval.

Sua aparência engana. Com um olhar de apaixonada pela folia e um sorriso fácil de ser arrancado, ela está acostumada a carregar e ensinar a tocar instrumentos que pesam até 18kg na Avenida, mas ainda há quem duvide.

Ao SRzd, a “mestra” comentou sobre o desafio de ocupar um cargo historicamente delegada aos homens. Durante o bate-papo, ela relembrou sua trajetória e falou também sobre preconceito e o apoio que recebe dos amigos.

Festa da bateria da Imperatriz da Paulicéia. Foto: SRzd – Fausto D’Império

SRzd: Conte pra gente um pouco sobre o início de sua ligação com o Carnaval. Como despertou sua paixão pelo universo das escolas de samba?

Mestre Rafa: Comecei mais tarde do que gostaria. Se pudesse nascer de novo certamente já nasceria no samba. Sempre morei no mesmo prédio e próximo a data do Carnaval a X-9 Paulistana fazia um ensaio de rua gigante. Eu esperava boa parte do ano pra poder ver aquele ensaio do portão. Meus pais na época não gostavam nenhum pouco da ideia de eu ir para o samba, muito menos de fazer parte da escola, até que em 2007 finalmente eu consegui convencê-los e fui fazer a escolinha. Antigamente era bem mais complicado. Hoje a gente se esforça pra ser o mais didático possível com o ritmista. Naquela época o papo era muitíssimo mais curto: ou aprende ou não. Passava noites treinando na caixa de sapato, lembrar disso hoje é até engraçado. Passei nesses anos por alguns setores da escola, mas sem largar a bateria em nenhum deles. Depois de um tempo, percebi que era importante conhecer o Carnaval “fora de casa”, até pra crescer como ritmista e fui conhecendo lugares e tocando com amigos. Por isso é praticamente impossível conseguir lembrar cronologicamente os lugares onde desfilei. Graças a Deus a história é longa!

SRzd: Como você chegou ao posto de comandante da bateria?

Mestre Rafa: Em 2014 a “Pulsação Nota Mil”, bateria da X-9 Paulistana, era comandada pelo mestre Adamastor. Nesse ano eu recebi uma posição de destaque nos trabalhos do dia a dia da escola. Eu era como uma auxiliar de diretoria e algumas vezes por conflito de agenda, ficava à frente da bateria em apresentações. O Fabiano Melodia, que era do time de canto da X-9, já era um grande amigo nessa época e vislumbrou uma oportunidade de crescimento. Ele diz até hoje que viu futuro e que o empenho e dedicação com que eu levava o trabalho não poderiam ser desperdiçados e me convidou para ser mestra da bateria da Imperatriz da Pauliceia, naquela época sob uma administração diferente da que temos hoje. Levamos a bateria para a Avenida e entregamos a nota, mas por algumas questões, tive que me desligar do cargo. Anos depois, o convite veio da mesma pessoa, em um momento completamente diferente, tanto pra mim quanto pra escola (que estava com um novo corpo diretivo e um projeto muito maduro de crescimento no Carnaval). Aceitei.Foi ótimo, porque nesses três anos aprendi muitas coisas e tenho certeza que isso tem relação com o trabalho que temos construído.

Festa da bateria da Imperatriz da Paulicéia. Foto: SRzd – Fausto D’Império

SRzd: Qual o tamanho do desafio em comandar a bateria de uma escola de samba, função historicamente delegada aos homens?

Mestre Rafa: É um desafio, não tem como dizer que não. Acho que a função em si já carrega muita responsabilidade, independente de qualquer coisa. Sinto que a parte mais complicada dessa construção foi que, os caminhos, apesar de não serem fechados, eram mais estreitos (porque tive muitas pessoas boas na minha trajetória me ajudando). Mas sem querer parecer “clichê”, é exatamente o que mais me motiva. É uma responsabilidade que abre muito espaço pra julgamento, e as expectativas acabam sendo muito polarizadas (para o bem ou para o mal). É uma coisa gigante. Tem muita gente que confia em mim, no meu trabalho, mas eu sei que muitas fichas estão também no que essa chance que me foi confiada representa pras mulheres no samba. Sou muito agradecida e ao mesmo tempo muito consciente de que também é meu papel trabalhar pra que isso continue acontecendo e que os desafios sejam exclusivamente ligados ao ritmo para as futuras mestras de bateria.

SRzd: No curso de sua trajetória, já sofreu algum tipo de preconceito pela função que ocupa?

Mestre Rafa: Preconceito a gente sofre sempre, só por ser mulher e não só no Carnaval. Não tenho a ilusão de que essa situação vai mudar tão rápido, apesar de buscar isso todos os dias. Tenho a mesma atitude que tive a primeira vez: sigo em frente. Enquanto esse tipo de atitude não me derrubar, certamente vai ser combustível, não só pra mim, mas pra várias outras mulheres que tem um potencial incrível e que, assim como eu, não precisam provar nada pra ninguém além de eu mesma.

SRzd: Quais são suas referências no segmento?

Mestre Rafa: Muitas pessoas passaram na minha vida e ensinaram um caminhão de coisas, desde uma batida de caixa até afinação. A parte mais importante de ter referências é conseguir ter a maturidade de equilibrar as coisas que cabem pro que acredito, mas não posso deixar de citar alguns nomes chave pra minha formação, como o Adamastor, Moleza, Zoinho, Allan, Vitor da Candelária e a dupla Fábio e Kito, que além de referências, me deram uma oportunidade de ouro pra construir meu caminho.

SRzd: Vamos falar um pouco de você. Na sua visão, qual a principal característica da mestre Rafa no comando do ritmo?

Mestre Rafa: Chatice. Claro que é sempre difícil falar sobre si mesma, mas isso é consenso. Sei que sou bastante rígida e exigente, mas sei que é um modelo de trabalho que se sustenta, porque gera comprometimento dos ritmistas. Cobro principalmente presença, porque sei que ritmo e técnica são elementos que se trabalhados com paciência, evoluem em qualquer pessoa. Gosto de saber o nome de cada um, de onde vem, o que faz, do que gosta. Isso é bem mais fácil porque tenho uma bateria em menor contingente, mas acho importante criar algum tipo de empatia com o ritmista. Não adianta só cobrar e esquecer que lidamos com pessoas a todo o momento – e essas têm problemas mas também alegrias. Sempre me esforço muito pro espaço da minha bateria ser um momento de alegria pras pessoas, porque o astral elevado é energia compartilhada e sei que essa energia tem que vir muitas vezes de mim.

Festa da bateria da Imperatriz da Paulicéia. Foto: SRzd – Fausto D’Império

SRzd: Agora vamos falar de ritmo. Quais as principais características da sua batucada?

Mestre Rafa: Acho que a mais importante característica do trabalho que estamos construindo diz respeito ao andamento. Até onde couber e se adequar à escola, gostaria de usar um andamento mais cadenciado. Os timbais são fruto do meu gosto pessoal, acho que somam muito no molho de uma bateria. Acredito também na importância do surdo de terceira (principalmente por ser meu instrumento base) e busco o equilíbrio entre andamento e desenhos. A característica que mais quero alcançar, no entanto, ainda vai exigir muito trabalho e vai ser em cima das caixas. Acho que é o instrumento mais importante em uma bateria, é quem leva a qualidade rítmica para outro patamar e de fato ajuda a construir uma identidade.

SRzd: Você comentou sobre a sua forma de lidar com os ritmistas. Fale um pouco sobre os componentes de sua bateria. Qual o perfil dos integrantes? Quem são seus diretores?

Mestre Rafa: Tenho majoritariamente jovens na minha bateria, principalmente universitários, por conta de trabalhos que desempenhei com baterias universitárias, como workshops e julgamentos. No entanto não gosto de dividir assim, quero sempre ajudar a construir o samba dentro de cada um, apostando nos talentos que vejo e buscando ajustar da melhor maneira cada uma das dificuldades que eles apresentam. Isso acaba acontecendo também com o meu corpo de diretores. Hoje trabalho com o Pedro, Daniel, Gabriel, Molejo, Gustavo, Arnaldo, Murilo, Thiago e Sara. São todos tiros que, com um pouquinho de trabalho, tenho certeza que vão ser certeiros.

SRzd: Sobre o comprometimento que você fez questão de ressaltar a importância, qual o cronograma de ensaios para o Carnaval? Com quais frequências ocorrem?

Mestre Rafa: Nossos ensaios gerais acontecem às quintas, das 20h às 22h, na quadra do Bloco Chorões da Tia Gê. Uma vez por mês teremos, também, um ensaio de rua, aos domingos à tarde.

Imperatriz da Paulicéia participa da Festa Literária da Penha (Flipenha). Foto: SRzd – Fabio Capeleti

SRzd: O que podemos esperar do ritmo para o desfile de 2020?

Mestre Rafa: Podem esperar muito trabalho, astral, e “swing” para trazer a nota mais um ano para a escola e honrar todas as fichas que colocam no nosso trabalho.

SRzd: Qual o sonho da mestre Rafa no Carnaval?

Mestre Rafa: No momento, meu maior sonho é cruzar a linha amarela com a minha bateria no Anhembi.

SRzd: Para finalizar, deixe uma mensagem final.

Mestre Rafa: Gostaria de agradecer o espaço dado pelo SRzd tanto nessa entrevista, quanto na nossa festa. É muito gratificante saber que os passos de formiga que damos estão chegando ao lugar que planejamos. Queria também deixar um recado pras mulheres que, assim como eu, tem o ritmo na alma: a permanência e força de ultrapassar barreiras é o que deixa o caminho mais fácil para as mulheres que virão. Um dia não teremos mais problemas com gênero, e uma mulher vai poder falar sobre seu trabalho sem se preocupar com agradar ou com parecer melhor que qualquer homem.

Imperatriz da Paulicéia 2020

No Carnaval de 2020 a Imperatriz da Paulicéia será a segunda escola a desfilar na segunda-feira, 24 de fevereiro, pelo Grupo de Acesso de Bairros 1 da União das Escolas de Samba Paulistanas (Uesp).

A trilha sonora do enredo “Sua Majestade a Coroa” é assinada por J.Velloso, Cláudio Russo, Marquinho Beija-Flor e Júlio do Cavaco. Clique aqui para ouvir.

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