Comunidade sem passado e com um presente vago. Qual futuro terá?

Livro. Foto: Reprodução

Maria Apparecida Urbano é historiadora, escritora, decoradora e considerada uma das mais respeitadas autoridades do Carnaval de São Paulo. Há mais de 40 anos começou a se interessar pelo samba e desenvolveu vários projetos, sendo a primeira carnavalesca da folia paulistana.

Dando sequência a série “Tbt SRzd” – gíria popular que significa “throwback Thursday”, traduzida do inglês, significa “quinta-feira do retorno” ou “quinta-feira do regresso” –, voltamos ao ano de 2012 para recordar um dos artigos que teve grande repercussão assinado pela então colunista do SRzd.

Maria Apparecida Urbano prestigia posse das Imperatrizes do Samba. Foto: Divulgação
Maria Apparecida Urbano prestigia posse das Imperatrizes do Samba. Foto: Divulgação

Comunidade sem passado e com um presente vago. Qual futuro terá?

Será que vocês sabem como começou o samba paulista? Estou perguntando porque existem pessoas que, por falta de conhecimento ou de pesquisas, cometem erros catastróficos, misturando informações sobre Rio de Janeiro e São Paulo, como se tudo fosse certo?

Admito que existam poucas informações sobre o surgimento do samba em nossa cidade. O que sabemos na realidade são as que nos foram passadas através dos tempos por aqueles que, ainda escravos, presenciaram e participaram dos batuques feitos em terreiros de senzalas, com instrumentos bem rudimentares, como, por exemplo, o tambu.

Os primeiros relatos sobre o surgimento do samba paulista, segundo as pesquisas de Mário de Andrade quando percorreu o interior do estado de São Paulo, são que, em diferentes cidades, depois da libertação dos escravos, os negros se reuniam em terreiros e faziam batuques. Sabemos, portanto, que o samba paulista teve seu início nos redutos negros. E que seu fortalecimento se deu na cidade de Pirapora do Bom Jesus, onde as comunidades negras saíam em romaria juntamente com os brancos vindos das diversas cidades, como São Paulo, Campinas, Capivari, Araraquara, Tietê, Piracicaba e se reuniam nos barracões cedidos pela Igreja para o descanso, na festa comemorativa ao Bom Jesus.

Desenho ilustra roda de samba. Foto: Reprodução de Internet
Desenho ilustra roda de samba. Foto: Reprodução de Internet

Nesses barracões, depois das obrigações com a Igreja, eram realizados os batuques, ao som da zambumba, caxeta e bumbo de couro. Os jongueiros faziam seus versos, dançando a umbigada, samba de roda e samba de bumbo. O batuque tinha como característica principal a umbigada – dança praticada pelos casais – que consistia numa batida forte do ventre um no outro. O “samba de roda” ou “samba paulista” é um batuque com ritmo apressado, contando com uma grande zambumba, marcando o compasso. As mulheres dançavam, sacudindo o corpo num gingado próprio e rítmico, enquanto os homens cantavam versos improvisados alusivos à festa, às pessoas e aos santos.

Essas manifestações, assistidas e documentadas por Mário de Andrade, às quais ele denominava também de “Samba rural”, por ter sido encontrado em cidades do interior, com acompanhamento da viola caipira, tocada pelos homens do campo, foram o início do nosso samba paulista.

Os redutos negros da capital de São Paulo se encontravam no Bixiga, Liberdade, Barra Funda e Jabaquara, onde eram feitos os batuques com a umbigada, samba de roda e samba de lenço.

Quem quiser ficar por dentro da história do samba em São Paulo, hoje já podem consultar livros como o de Wilson Rodrigues de Moraes que fez entrevistas com quem realmente conhecia e vivia o samba paulista. São sambistas do passado sobre os quais todos deveriam conhecer quem foram e o que fizeram, como por exemplo: Inocêncio Tobias, Pé Rachado, Chico Pinga, Elpídio Faria, Dona Eunice, Dona Olímpia, Dona Sinhá, entre tantos outros que ainda estão entre nós, e junto aos poderíamos colher ainda mais informações.

Esta é a diferença entre Rio de Janeiro e São Paulo: todos os grandes sambistas do Rio foram valorizados pela população por suas composições, que eram vendidas muitas vezes para artistas de rádio que faziam sucesso ou para a criação das primeiras escolas de samba.

Com a divulgação do turismo pela prefeitura que viu nos negros e em suas composições uma forma de valorização do Rio de Janeiro, o Carnaval se tornou uma grande atração, e a comunidade negra começou a ter e receber o seu devido valor.

Por outro lado, em São Paulo, quando a comunidade se reunia para fazer uma batucada, a polícia sempre estava alerta para quebrar os instrumentos e prender os que se alteravam. Ainda encontramos entre os sambistas mais antigos, aqueles que passaram por momentos difíceis. Convém mencionar o nosso grande compositor Osvaldinho da Cuíca, que pode confirmar esses ocorridos, entre outros tantos sambistas da época.

Osvaldinho da Cuíca. Foto: Divulgação
Osvaldinho da Cuíca. Foto: Divulgação

A maioria das agremiações tem hoje o seu departamento cultural e, ou departamento jovem. Seria interessante que fossem realizados encontros com sambistas da velha guarda, para palestras ou bate papo informal para que os velhos sambistas transmitissem aos mais jovens os seus conhecimentos e experiências. Assim não aconteceria mais que “sambistas” falassem em público, com base em dados tirados da internet com informações nem sempre muito confiáveis.

Outra coisa de suma importância seria fazer o histórico de cada escola, procurando-se saber se ainda há sambistas da época da fundação, como e por que do emblema do seu pavilhão, consultar a ata de fundação, saber quem foi o primeiro presidente, quem estava presente e assinou a ata, qual foi o primeiro enredo, quem foi o compositor ou compositores do samba-enredo, quem interpretou o samba na Avenida, saber se a escola teve carnavalesco, qual foi a sua classificação, e nos anos subsequentes. Isto é história de uma escola de samba. E uma comunidade sem passado, o presente é muito vago e o futuro como será?

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