Ator Ailton Graça assume presidência da mais antiga escola de samba de São Paulo

Aílton Graça. Foto: SRzd – Claudio L. Costa

O ator Ailton Graça, de 55 anos, assumiu nesta segunda-feira (2) a presidência da escola de samba mais antiga do Carnaval de São Paulo, a Lavapés, fundada em 1937.

Criado no samba, ele recebeu o pavilhão da escola das mãos da atual presidente, Rosemeire Marcondes, em evento realizado no Theatro Municipal, em comemoração ao Dia Nacional do Samba.

A escola de samba Lavapés surgiu na década de 1930 na baixada do bairro do Glicério, na região central de São Paulo, na rua do Lavapés, nome que posteriormente batizou a agremiação. Fundada por Deolinda Madre, conhecida como madrinha Eunice, é detentora de 20 títulos do Carnaval, sendo campeã de 1941 até 1958, e depois em 1961 e em 1964. A partir de agora vai se chamar Lavapés Pirata Negro.

“Eu tinha um grupo de amigos e uma escola de samba chamada Pirata Negro, que na verdade é um instituto. E, a gente estava correndo atrás de uma escola pra gente continuar trabalhando as narrativas pretas. E a nossa felicidade foi gigante quando nós encontramos a Lavapés. Então ficou, Lavapés Pirata Negro”, disse o ator ao G1.

A Lavapés que estava sem local para realizar os ensaios, conquistou um galpão, no bairro do Jabaquara, na Zona Sul da capital paulista.

“Para manter uma estrutura como esta gente vai precisar ter apoio e patrocinadores. Vamos precisar pagar alguns funcionários, porque isso não vai andar sozinho além de uma estrutura administrativa efetiva e eficaz pra gente dar continuidade ao seguimento instituto e dar continuidade à escola”, completou Graça.

Com forte ligação ao Carnaval e às manifestações culturais populares desde a juventude, tendo a bisavó como influenciadora, Ailton Graça desfilou como mestre-sala, na década de 1990, na Gaviões da Fiel e X-9 Paulistana.

Escola de Samba Lavapés em apresentação. Foto: Divulgação
Escola de Samba Lavapés em apresentação. Foto: Divulgação

Lavapés: Uma das mais belas histórias do Carnaval de São Paulo

Tudo começou com a dedicação de Deolinda Madre, mas que em função dos inúmeros afilhados era conhecida como “Madrinha Eunice”.  Filha de escravos, nasceu em 14 de outubro de 1909 em Piracicaba vindo a morar em São Paulo com doze anos. As notas musicais do jongo, samba rural e do batuque foram as bases de sua formação para que futuramente se tornasse um ícone do carnaval paulista.

Na capital, morou na Rua Tamandaré, residindo posteriormente nas ruas da Glória, Galvão Bueno e Barão de Iguape (onde foi instalada a quadra da agremiação). Tinha como companheiro o italiano Chico Pinga, um exímio cavaquinhista que ajudou também a fundar a Lavapés. A “Rainha Negra do Samba” falecia em 1995 deixando um imenso legado.

Escola de Samba Lavapés. Foto: Divulgação
Escola de Samba Lavapés. Foto: Divulgação

Uma inspiração carioca

Madrinha Eunice e Chico Pinga se conheceram na Festa de Pirapora, uma tradição que envolvia romarias, sambas e batuques de diversas partes do estado para a cidade de Pirapora do Bom Jesus.

Durante vários anos Dona Eunice manteve o costume de levar os integrantes da escola e sua família a famosa festa comemorada em 06 de agosto, que gira em torno da imagem que foi encontrada na região em 1725, aproximadamente, às margens do rio Tietê, e que passou a ser considerada milagrosa. Na capital paulista fez parte de um do bloco carnavalesco do Glicério, na década de 1930, chamado “Baianas Paulistas” que durou cerca de três anos, até que, em 1936, o casal foi passar uma temporada com familiares no Rio de Janeiro quando assistiram ao Carnaval da Praça Onze.

Encantada com o desfile da escola de samba vermelha e branca “Deixa Malhar” ela, então, reuniu alguns batuqueiros e 20 homens do bairro para desfilarem vestidos de baianas. Assim nascia a Lavapés. Dona Eunice escolheu as cores vermelho e branco, como eram as da escola que ela dissera ter gostado de ver no Rio de Janeiro e o símbolo adotado para a escola foi uma baiana, figura pela qual tinha grande admiração. Ela representaria a tradicional ala carnavalesca e as grandes matronas dos terreiros de grupos vindos da Bahia para o Rio de Janeiro e São Paulo.

O sonho que virou escola, que virou realidade

A escola foi considerada uma das mais fortes em sua época áurea e dela participaram vários sambistas que, mais tarde, fundariam e participariam de outras escolas da cidade. Entre eles, Carlão do Peruche (fundador da Unidos do Peruche, em 1956), Silval do Império (fundador da Império do Cambuci, em 1963), Chiclé e Mestre Thadeu (do Vai-Vai), os radialistas Moraes Sarmento e Evaristo de Carvalho, Mestre Lagrila e o multiartista Germano Mathias. A Lavapés passou por, praticamente, todos os espaços dedicados aos desfiles de carnaval desde sua fundação em 1937. Praça da Sé, Vale do Anhangabaú, Avenida São João, Tiradentes e até o sambódromo.

Bateria da escola de samba Lavapés em desfile de 1970 e ensaio em rua da Zona Leste. Foto: Divulgação
Bateria da escola de samba Lavapés em desfile de 1970 e ensaio em rua da Zona Leste. Foto: Divulgação

No final da década de 30 e década de 40, participava de disputas organizadas por comerciantes e rádios em diferentes pontos da cidade, sendo considerada a maior campeã deste período. Na década de 50, houve a unificação das disputas de agremiações carnavalescas na Praça da Sé e, entre escolas e cordões, a Lavapés foi tetracampeã (1950 a 1953) e também ganhou o campeonato em 1956.

Comandada até então por Rosemeire Marcondes, neta de Madrinha Eunice, e mesmo longe dos holofotes do sambódromo, a Lavapés sempre foi respeitada e admirada por todos, considerada a escola de coração pelos verdadeiros sambistas do Carnaval de São Paulo. A Lavapés tem verdadeiros guerreiros que honram seu pavilhão. Finalizamos com uma frase memorável da querida madrinha fundadora: “Lavapés teve começo, mas não terá fim”.

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