Tom político e crítico permanece nos sambas cariocas para o Carnaval 2020

Desfile Mangueira 2019. Foto: Leandro Milton/SRzd

Assim como tem acontecido nos últimos anos, a grande parte dos sambas-enredo das escolas cariocas trará novamente em 2020 o tom político e crítico, incluindo referências ao presidente Jair Bolsonaro e ao prefeito do Rio, Marcelo Crivella.

O samba da Mangueira, vencedora do Carnaval desse ano no Rio, traz uma menção indireta ao presidente e seu gesto de arma na mão, além de abordar a onda de conservadorismo dos últimos tempos. Vale lembrar que a Mangueira emocionou o público na Sapucaí esse ano e foi campeã trazendo os heróis esquecidos da história e a homenagem à vereadora Marielle Franco.

“A chegada de um novo grupo de carnavalescos com o perfil inovador e altamente politizado é um dos pilares para essa leva de sambas-enredo com pegada política”, afirma Marcelo Guedes, coordenador do Observatório do Carnaval da ESPM Rio. “Um exemplo disso é o Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira, que pela terceira vez consecutiva cria um enredo altamente politizado.”

Final da Mangueira 2019/2020. Foto: Thiago Mattos/Divulgação

O humor afiado e crítico de Marcelo Adnet sai dos roteiros de TV para o samba da São Clemente. Em parceria com os compositores André Carvalho, Pedro Machado, Gustavo Albuquerque, Gabriel Machado, Camilo Jorge, Luiz Carlos França e Raphael Candela, o enredo “O Conto Do Vigário” menciona a Lava-Jato, laranjas, o presídio de Bangu e até fake news na última eleição presidencial.

A Portela, que retratará a história dos índios, os primeiros habitantes do Rio, também levanta questões do universo político atual: “Índio pede paz, mas é de guerra. Nossa aldeia é sem partido ou facção. Não tem bispo, nem se curva a capitão… Pro imenso azul do céu nunca mais escurecer”.

A questão racial, com a história do primeiro palhaço negro do Brasil, Benjamin de Oliveira, está no enredo do Salgueiro. Já a Grande Rio abordará a intolerância religiosa com o enredo sobre o pai de santo Joãozinho da Gomeia, Mocidade e União da Ilha trazem os problemas sociais e a Tijuca problemas ambientais.

Torcida do samba campeão da Portela levou ‘cartazes de protesto’ na final. Foto: Reprodução

Para Marcelo Guedes, os novos carnavalescos, junto ao momento atual que vivemos e o posicionamento das escolas são fatores que tem levado as agremiações a optarem por sambas mais politizados nos últimos anos.

“Houve uma conjunção de quatro grandes fatores. O primeiro é a criação de um novo grupo de carnavalescos com o perfil totalmente diferente, inovador e altamente politizado. Outro grande motivador de todo esse processo é o atual momento que vivemos. A recessão, o não acreditar na cultura e no próprio Carnaval com a importância que eles têm em relação à diversos setores sociais e econômicos, e o próprio movimento religioso que hoje reside na nossa cidade leva a busca por enredos desse tipo”, lembra Guedes, que completa:

“O terceiro fator é o posicionamento de algumas escolas. Não podemos esquecer, por exemplo, que a São Clemente é uma escola que tem em sua tradição grandes enredos sobre movimentos sociais, ou seja, eu entendo que há um resgate de toda sua história. E não podemos esquecer também um quarto fator que são os próprios autores dos sambas com visões muito críticas sobre o cenário político e questões sociais e até ambientais”.

Marcelo Adnet encabeçou parceria campeã da São Clemente. Foto: Rafael Arantes/Divulgação

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