Racismo no Carnaval carioca: deputado aponta motivo de crise e sambistas negros comentam

Comissão de frente do Tuiuti de 2018 criticou a escravidão e saiu aclamada da passarela. Foto: Henrique Matos

Enquanto as escolas de samba lutam por verba para seus desfiles, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) ‘chutou o pau da barraca’ em artigo publicado, mês passado, no Mídia Ninja. Sem “meias-palavras”, o parlamentar apontou o motivo que impede o poder público e privado de investir financeiramente na festa: o racismo. O SRzd conversou com negros do Carnaval para saber a opinião deles e se concordam com a tese defendida por Jean.

No texto, o deputado afirma que “a elite que tradicionalmente controlou o poder sempre viu com maus olhos todos os costumes associados aos pretos”, dentre eles, a folia. O psolista deu exemplos de festas estrangeiras que têm investimento público e privado por serem queridas pelos mais abastados da sociedade.

Na Câmara desde 2011, Jean Wyllys foi reeleito para o cargo em 2018. Foto: Reprodução

“Alguém consegue imaginar que o governo alemão iria deixar a míngua a sua Oktoberfest? Ou que a Espanha viraria as costas para sua tradicional festa do tomate? Claro que não! Porque esses eventos fazem parte da tradição cultural desses povos, remontam a uma valorização de costumes regionais e da própria gente que trabalha ali”, escreveu Jean.

Segundo o parlamentar, para esconder o racismo, a elite critica a relação da folia carioca com o jogo do bicho: “Não estamos falando só da gestão tenebrosa de Crivella à frente da prefeitura, mas de um pensamento amplamente disseminado. Há quem prefira dizer que a questão gira em torno do envolvimento de bicheiros. Mascaram o seu desdém atípico com o samba de sentimento anticorrupção”.

Evelyn Bastos: “É difícil pra eles aceitarem que a festa do Carnaval, a maior do mundo, é de origem negra”

Evelyn Bastos no desfile da Mangueira de 2018. Foto: Leandro Milton/SRzd

Rainha de bateria da Mangueira, Evelyn Bastos é uma das figuras carnavalescas que mais dá a cara a tapa quando o assunto é política. Ela disse ao SRzd que os racistas não assumem o preconceito, mas no fundo não conseguem aceitar a ideia de que o maior espetáculo da Terra foi formado por negros.

“O samba e o Carnaval ganharam uma visão mundial que ninguém imaginou que ganhariam, até porque o ritmo foi criminalizado no início. Para muita gente que é racista, é difícil aceitar que a festa do Carnaval, a maior do mundo, é de origem negra. Além do mais, esse preconceito se expande. Não é só da parte racial, é também religiosa. No geral, os que são contra o Carnaval são aqueles que tem algum tipo de preconceito.”

Para a majestade da verde e rosa, que vai para o sétimo ano a frente da bateria Tem Que Respeitar Meu Tamborim, a festa consegue vencer os problemas e na passarela, o mundo aplaude os desfilantes: “A gente tem uma grandiosidade que é maior do que isso. A hora que o mundo olha para favela é quando estamos na Marquês de Sapucaí. É a hora de uma valorização não só cultural, mas também de quem faz a festa”.

João Vitor Araújo: “Tem gente que vai pra lá, mas depois diz que as mulheres que passam na Avenida são putas ou prostitutas”

João Vitor Araújo no barracão da Unidos de Padre Miguel, onde é carnavalesco. Foto: Divulgação.

Carnavalesco da Unidos de Padre Miguel pelo segundo ano consecutivo, João Vitor Araújo concordou com o artigo de Jean Wyllys. Para o artista, a elite gosta de aproveitar as mordomias, mas não dá a mínima para as agremiações e ainda critica os desfilantes.

“É uma festa que sempre foi vista com maus olhos pela elite. Eles gostam de aproveitar o champagne e as mordomias que o camarote pode proporcionar, mas não prestam atenção na mensagem que as escolas se propõem. Tem gente que vai pra lá, come e bebe, mas depois diz que as mulheres que passam na Avenida são putas ou prostitutas e que todos os componentes e passistas são vagabundos. Mal sabem eles o que representa para economia a nossa festa.”

Ele também lamentou que ninguém ainda tenha tomado a frente para resolver esses problemas: “Esse tipo de discriminação a festa sofre desde o início. Temos Tia Ciata como exemplo. Ela usava sua casa como reduto de bambas. Promovia os rituais de candomblé na parte da frente, para despistar a polícia, e na parte de trás, o samba comia solto. Infelizmente, nós vivemos em um país onde as pessoas são hipócritas e temos aquela nossa herança de escravocrata, que diz que Carnaval é festa de preto e favelado”.

Anderson Morango: “Se eu fosse um Lázaro Ramos da vida, o Carnaval bateria palma pra mim”

Anderson Morango é o primeiro homem porta-bandeira da Sapucaí. Foto: Ewerton Pereira

Terceira porta-bandeira da Acadêmicos do Sossego, Anderson Morango será o primeiro homem a empunhar um pavilhão na Marquês de Sapucaí. A quebra do tabu também gera preconceito. Contudo, ele acredita que ser negro não é o principal motivo da intolerância.

“Preconceito que eu sofro no Carnaval não é nem por eu ser negro, mas sim por eu estar em um lugar ocupado por mulheres e ser um homem, gay e não ser um artista famoso. Se eu fosse um Lázaro Ramos da vida, o Carnaval bateria palma pra mim, por ser uma pessoa bem sucedida e artista”, afirmou.

Para Morango, pode haver racismo na folia carioca, mas ele acredita que a crise financeira se dá por questão religiosa: “Realmente há um racismo que muitas vezes tentam velar, não só no Carnaval, como em todos os âmbitos da sociedade. Agora, a crise acredito que esteja mais ligada a uma questão religiosa. Pode ser que haja algum racismo velado, porém, eu vejo mais como preconceito religioso”.

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