Por dentro do barracão: Menos luxuosa e mais criativa, Vila Isabel mantém abre-alas gigantesco

Detalhes do barracão da Vila Isabel para o Carnaval 2020. Foto: SRzd

‘Este ano não vai ser igual aquele que passou’. Esqueçam o luxo da Vila Isabel de 2019. Para 2020, a azul e branco vem repaginada, com uma nova cara que dialoga com o enredo sobre Brasília – ou seria Brasil? Depois de exaltar Petrópolis com a riqueza que o tempo imperial propõe, a agremiação traz as marcas de um país criativo, original e artesanal em sua plástica do próximo desfile.

Por dentro do barracão, um trabalho com materiais mais alternativos e orgânicos, que dão ao tema a ‘brasilidade’ necessária. O luxo deu lugar ao artesanato, como evidenciado no quarto carro, feito em sua grande parte de bucha vegetal. O que não mudou de 2019 pra cá foi a imponência e a grandiosidade da escola. A Vila pode até não ganhar o Carnaval, mas assim como ano passado, sairá da Avenida com o título de maior alegoria do ano.

Detalhes do barracão da Vila Isabel para o Carnaval 2020. Foto: SRzd

CARNAVAL DA RESISTÊNCIA

O barracão da Vila impressiona, seja pela grandiosidade, pelas esculturas bem trabalhadas, ou pela drástica mudança em relação ao Carnaval passado. O luxo exacerbado de 2019 saiu de cena. Também pudera, o Brasil nem de longe é rico e imperial como Petrópolis. Brasília até pode ter seu encanto pela arquitetura, mas o visual é outro, o que refletiu na plástica da escola.

Para completar, a crise que assola os barracões da Cidade do Samba também chegou à Vila Isabel. O carnavalesco Edson Pereira fez questão de deixar claro as dificuldades que vem enfrentando e tirou o rótulo de ‘escola rica’ que a Vila ganhou após 2019.




“Se fosse pra definir em uma palavra, eu diria resistência. Porque a gente está vivendo um momento muito difícil, não só a Vila Isabel, como o Carnaval. Eu faço até um apelo para aqueles que amam o Carnaval: deixem de fazer esses comentários chulos e sem embasamento. O que a gente precisa é a acreditar, independente da sua escola. Não podemos diminuir o trabalho dos outros, temos que lutar para que a festa sobreviva”, pediu o carnavalesco Edson Pereira.

Detalhes do barracão da Vila Isabel para o Carnaval 2020. Foto: SRzd

Os torcedores da Vila, contudo, podem ficar tranquilos. Se não há ‘aquele’ luxo, há trabalhos artesanais bem interessantes que não deixarão a plástica da azul e branca cair em relação ao último Carnaval. “Não é justo eu falar de luxo em um momento como esse. Temos que, primeiro, pensar em sair dessa situação e salvar a festa. Mas cabe ao carnavalesco usar suas armas. Eu estou apelando para originalidade e criatividade, mas sem perder o volume, a cor, o brilho”, garantiu Edson Pereira.

Com vasta experiência no grupo de acesso, o carnavalesco sabe como ninguém superar a falta de verba. Na Série A, Edson tem trabalhos memoráveis na Unidos de Padre Miguel e foi campeão com a Viradouro em 2018.

“Eu já faço Carnaval há muito tempo e nunca foi diferente: sempre teve crise. Eu tenho uma experiência em relação a isso. Todo ano é uma crise diferente, quando não é financeira, é chuva. Mas a função do carnavalesco é driblar isso, fazer com que o Carnaval aconteça sem perder a qualidade. Eu digo que o Carnaval é igual a um feto: a gente gera ele por nove meses e só nasce na Avenida, mas só saberemos se ele vai nascer com saúde na hora. Não existe o pré-natal”, brincou o carnavalesco.

Detalhes do barracão da Vila Isabel para o Carnaval 2020. Foto: SRzd

FIQUE DE OLHO
ABRE-ALAS

Após uma plástica irretocável em 2019, a Vila repetirá fórmulas de sucesso em 2020. As alegorias continuarão grandiosas, trarão esculturas com movimentos e três carros utilizarão efeitos de água. A principal aposta continua sendo o abre-alas, xodó do carnavalesco. Com três acoplamentos e uma estética indígena, a alegoria passa dos 60 metros de comprimento e promete impacto na abertura do desfile.

“Grandiosidade é algo que me pertence. Quando eu sonho com Carnaval, eu sonho com algo inesperado, grandioso. E o Brasil e o Carnaval são grandiosos. Por isso o título ‘Gigante pela própria natureza’. A gente precisa entender que somos enormes. Além disso, há uma cobrança muito grande. A gente ano passado fez um abre-alas grandioso e a gente não pode andar pra trás”, explicou Edson Pereira.




Detalhes do barracão da Vila Isabel para o Carnaval 2020. Foto: SRzd

Outro carro que chama atenção é o segundo, que representa o Sul do Brasil. Dois touros articulados ‘puxam’ a alegoria, que traz esculturas de gaúchos com violões e outras referências à região, como o chimarrão. O quarto carro, que aborda o Nordeste, sintetiza o trabalho artesanal e original da Vila Isabel. A alegoria é forrada em bucha vegetal e decorada com bambu, bagaço de cana e galho seco.

“São materiais mais baratos e orgânicos. Estamos abusando disso, até porque o enredo permite. Falar de Brasil sem falar da criatividade do brasileiro não existe. Nesse carro, optamos por esses materiais para trazer esse aspecto nordestino, artesanal”, disse Edson, que também contou ter usado bastante capim e flores artificiais no projeto.

Sobre as 28 alas que a Vila Isabel levará para a Avenida, o carnavalesco prometeu ‘opulência criativa’: “São técnicas que eu venho aprimorando. Eu prezo muito por volume e cor. E não esperem menos que 2019. A gente estudou pra isso. As fantasias têm o mesmo volume. Não são tão luxuosas, mas são mais criativas, através de técnicas que vão suprir essa falta de riqueza”.

Detalhes do barracão da Vila Isabel para o Carnaval 2020. Foto: SRzd

O DESFILE

Primeiro setor: “Eu abro o Carnaval com um preâmbulo, antecipo o que seria o ‘Gigante’ do enredo, que, no meu entender, é o nosso povo. Pra falar do povo brasileiro, temos que falar do índio, o dono dessa terra. E como todo brasileiro, o índio já saía pra ganhar seu pão de cada dia. E esse brasileiro sonha. Esse índio, então, vai para sua lida diária, entra nessa canoa, e ela se transforma em uma jaçanã, pássaro típico do nosso país. Ele sobrevoa o Brasil para mostrar ao índio quem somos nós, da junção de culturas, da pluralidade do nosso povo. No final, essa ave pousa e se transforma num mapa de Brasília, que tem forma de uma ave, com Asa Sul e Asa Norte”.

Segundo setor: “A gente traz o Sul, onde mostramos as primeiras batalhas do Brasil, o grande celeiro que nosso país é de importação e exportação, essa característica do sulista que vence desafios, cruza fronteiras com bandeirantes”.

Terceiro setor: “Falamos do Sudeste, onde tem a origem principal de JK, que é Minas Gerais. Falamos da cultura do samba, do caboclo, do nosso bairro de Noel, dos praianos, do carioca em si também”.

Quarto setor: “Falamos dos nordestinos, também um pouco dos candangos e como eles se direcionavam para a construção de um novo Brasil, da sua força bruta, da sua esperança, da fé”.

Quinto setor: “A gente fecha o Carnaval com a síntese do que é Brasília, uma esperança para o povo brasileiro”.

Detalhes do barracão da Vila Isabel para o Carnaval 2020. Foto: SRzd

FICHA TÉCNICA

Enredo: Gigante pela própria natureza – Jaçanã e um índio chamado Brasil
Carnavalesco: Edson Pereira
Posição: 2ª a desfilar na segunda-feira de Grupo Especial, 23 de fevereiro
Alegorias: 5
Tripés: 1
Alas: 28
Componentes: 2700

Acompanhe a série ‘Por dentro do barracão’

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