Liesa em chamas: O que está por trás da maior crise da história do Carnaval carioca

Foto: Pixabay

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Quem será o novo presidente da Liesa? A agitação nos bastidores das escolas de samba do Rio é intensa.

O Carnaval é uma festa complexa que não se sustentará se presa a gambiarras. Para liberar dinheiro, grandes patrocinadores têm exigido cumprimento ao que chamam de compliance, normas legais e regulamentares, sem tolerância com desvios. O mundo mudou e quem desconsiderar estas novas práticas estará fora do jogo. É neste novo cenário que a política está sendo exercida.

Os dirigentes da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, a principal associação que organiza o Carnaval mais importante do país, não se entendem e a bateção de cabeça elevou a temperatura a um nível perigoso.

Dirigentes do Grupo Especial em última reunião plenária da Liesa que determinou virada de mesa. Foto: Reprodução/TV Globo

O clima está tenso. As labaredas aumentaram de intensidade depois da confusão da reunião plenária de junho, onde alguns presidentes defenderam a permanência da Imperatriz Leopoldinense no grupo de elite do Carnaval de 2020, mesmo com a agremiação tendo sido rebaixada pelo fraco desfile deste ano. A Imperatriz foi a penúltima colocada na apresentação e o Império Serrano, a última.

Inicialmente, Mangueira, Viradouro, Beija-Flor, Vila Isabel e Portela se mantiveram a favor do rebaixamento e diante do desrespeito ao regulamento, o presidente Jorge Castanheira disse que não ficaria mais no cargo. Com a repercussão negativa, outras três agremiações que haviam votado contra voltaram atrás e concordaram com o rebaixamento: Unidos da Tijuca, Paraíso do Tuiuti e União da Ilha.

O que está acontecendo cheira a golpe.

Neste início de julho, a Imperatriz subiu mais ainda o tom. Foi mal recebida a decisão da escola de processar a Liga e o seu presidente demissionário. Ela quer Jorge Castanheira fora da entidade por considerá-lo sem legitimidade para prosseguir após a renúncia.

“Como se vê, estamos diante de uma situação jurídica aberrante, onde um sujeito que juridicamente não é mais presidente da instituição continua factualmente exercendo os poderes decorrentes do cargo, violando assim não só o Estatuto Social da entidade, mas também a própria Lei”, diz a ação da Imperatriz, que pede a intervenção do Poder Judiciário primeiramente em caráter liminar, e depois, definitivo.

Desfile da Imperatriz de 2019. Foto: Riotur

Se dependesse unicamente da Imperatriz, Castanheira deixaria imediatamente a presidência. Na ação, a escola estipulou multa de R$ 500 mil, caso ele permaneça. A reivindicação judicial exige a “posse do vice-presidente, como determina o Estatuto, num prazo de cinco dias, também sob pena de mais R$ 500 mil, caso isso não ocorra”, diz um parágrafo da ação.

Rachel Valença. Foto: Nicolas Renato Photography
Rachel Valença. Foto: Nicolas Renato Photography

A comentarista Rachel Valença, do SRzd, alerta que “o presidente Jorge Castanheira pediu demissão por não concordar com a ‘virada de mesa’, que contrariava o Termo de Ajustamento de Conduta assinado por ele com o Ministério Público Estadual. Esta foi a razão de seu pedido de afastamento. Se três escolas mudaram seu voto e a ‘virada de mesa’ não se consumar, não vejo por que ele deva se afastar. O que está acontecendo cheira a golpe”, afirma.

Rachel lembra que a postura atual da Imperatriz não combina com a decisão inicial do seu principal dirigente, Luizinho Drumond. “O presidente de honra da Imperatriz declarou ao vivo pela TV, no calor da apuração, que acataria o rebaixamento. Depois mudou de opinião e buscou apoios para a ‘virada de mesa’. Diante do rigor do Ministério Público Estadual, que exigiu que fosse respeitado o Termo de Ajustamento de Conduta assinado no ano anterior, sob pena de multa pesada, a Imperatriz perdeu alguns apoios e parte para uma reação vergonhosa e descabida. Fatos como esse empobrecem o Carnaval e afastam os aficcionados. Uma pena que as escolas não enxerguem nada para além de seus interesses pecuniários e políticos.”

Anderson Baltar. Foto: Divulgação/Felipe Araújo
Anderson Baltar. Foto: Divulgação/Felipe Araújo

O jornalista Anderson Baltar, da Rádio Arquibancada, que acompanha o Carnaval há anos, é outro que se preocupa com a credibilidade do espetáculo. “Para o bem do Carnaval, a Liesa não tem outra decisão a tomar, no próximo dia 10 de julho (plenária para decidir destino da escola de Ramos), que não seja a de cumprir o regulamento e rebaixar a Imperatriz Leopoldinense para a Série A. Em um quadro de extrema hostilidade da Prefeitura, fuga de patrocinadores e descrédito quanto aos resultados, os comandantes do Carnaval parecem, finalmente, estar minimamente sensíveis aos clamores da opinião pública. Tanto que dirigentes de três escolas mudaram seus votos e provocaram a convocação de uma nova plenária. Não há outro caminho: o desfile das escolas de samba precisa de credibilidade e, para tal, só há um caminho: o cumprimento do regulamento. O Grupo Especial precisa ser especial para todas as escolas e não apenas para algumas. Todas as 13 escolas têm de estar sujeitas ao risco do rebaixamento e à possibilidade de ser campeã. Para chegarmos a esse patamar, há um longo caminho. Mas o primeiro passo deve ser dado no dia 10.”

Ministério Público e a multa de R$ 750 mil

Caso a Liesa decida mesmo não rebaixar a Imperatriz, o Ministério Público retornará com disposição de cobrar a multa de R$ 750 mil pela terceira virada de mesa seguida no Carnaval.

Lembrando que, no meio do caminho, a Liesa terá que descascar outro abacaxi, já que sofreu derrota no Supremo Tribunal de Justiça, que negou um recurso da Liga no processo em que ela foi condenada, junto ao município do Rio, a ressarcir os cofres públicos, por não ter sido contratada por licitação.

Se o recurso da entidade não for levado em conta, segundo a decisão do Tribunal de Justiça, a Liesa terá que pagar R$ 4.796.039,75, mais juros e correção, arrecadados com a venda de ingressos no Carnaval de 1995. Atualizado, o valor ultrapassa R$ 83 milhões.

A profunda crise que vive o Carnaval do Rio de Janeiro ganha, a cada dia, contornos que flertam com o dramático. Nunca se viu na história da festa mais popular da cidade bastidores tão agitados como nos últimos dias, fruto do profundo racha que se estabeleceu entre os presidentes das escolas de samba.

Promotor Rodrigo Terra é o responsável pelo caso ‘virada de mesa’ no MPRJ. Foto: Reprodução

Os amantes da festa estão vivendo a expectativa da assembleia geral da Liesa, que será realizada na próxima quarta-feira (10), quando vai ser ratificada ou não a terceira virada de mesa consecutiva.

Há quem garanta, entre os defensores da Imperatriz, que o jogo foi perdido. Luizinho Drumond, patrono da rainha de Ramos, continua lutando pela permanência e, por isso, acionou a justiça questionando a legitimidade da reunião.

Ele tem o apoio de um grupo que se mostra a cada momento mais forte e coeso na busca pelo poder dentro da Liesa. Porém, diante da irredutibilidade do promotor de justiça Rodrigo Terra, da 2ª Promotoria de Tutela Coletiva do Direito do Consumidor do Ministério Público, e das reações contrárias das classes política, empresarial e, principalmente, da opinião pública, alguns integrantes do grupo de apoio à Imperatriz temem o fracasso da investida.

Mas para quem pensa que a agitação termina depois da reunião do dia 10, está fortemente enganado. Aliás, não é mais a virada de mesa que domina os debates entre os dirigentes neste momento. As articulações agora estão totalmente voltadas para a eleição da Liesa, que deve acontecer até o final do mês. O debate sobre a permanência da Imperatriz formou dois grupos tão divergentes dentro do colegiado que agora essa divisão está se refletindo na disputa eleitoral.

Os mais cotados

A grande maioria da plenária entende que a melhor saída para a enrascada que se meteu o Carnaval do Rio após os fatídicos acidentes de 2017 na pista de desfiles seria a permanência do atual gestor. As tentativas de demover Castanheira da decisão de sair são infinitas, mas o presidente da Liesa está irredutível e não dá qualquer sinal de recuo. O antagonismo formado é tão profundo que Castanheira sabe que é praticamente impossível conduzir a Liesa com tal formação. A agência dá sinais que implodiu.

A partir daí começam a formar cenários na busca pelo poder que geram reflexos fora da Liesa. A disputa passa a ser acompanhada de perto e, em alguns casos até com protagonismos, por integrantes da Lierj, entidade da Série A que tenta estender o alcance ao comando do Grupo Especial; pela rede hoteleira da cidade, diretamente interessada nos rumos da Liesa; pela TV Globo, detentora dos direitos de transmissão; pelo prefeito Marcelo Crivella e pelo governador Wilson Witzel. Os dois já até se anteciparam e forçam nos bastidores uma privatização do Carnaval como solução para o imbróglio.

Rodrigo Pacheco. Foto: Eduardo Hollanda

Todos esses desdobramentos passam também pelo patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, Rogério Andrade, que, segundo se comenta nos bastidores, vem se articulando há algum tempo com outros dirigentes do Grupo Especial e da Série A na tentativa de ter o controle do comando da festa. Se isso for confirmado, inevitavelmente, poderá diminuir a influência inegável de Aniz Abrahão David, o Anísio, e de Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, tradicionais mandatários dos desfiles. Na esteira das tais articulações de Rogério Andrade surge o nome de Rodrigo Pacheco, atual vice-presidente da Mocidade, como pretendente ao posto de presidente da Liesa. Sob a batuta de Andrade, Pacheco contaria com os apoios da própria Mocidade, Salgueiro, Estácio e Imperatriz.

Outro nome que surge e agrada ao grupo de Rogério é de Renato Marins, o Thor, presidente da Tuiuti. Ele tradicionalmente sempre foi muito ligado a Anísio e poderia ser um elo de aproximação entre os dois patronos, mas há quem diga que essa aproximação é impossível e que não seria uma surpresa ver Thor se aliando a Rogério Andrade. Grande Rio e Império Serrano ainda não decidiram, mas não negam que há conversações para uma adesão ao mesmo grupo.

Já o patrono da Beija-Flor não esconde que desde 2016 tenta fazer da ex-presidente do Salgueiro, Regina Celi, a gestora da Liesa, mas é fato também que esta possibilidade quase não está encontrando apoio dentro do colegiado. Isso revela o quanto Anísio está saindo esvaziado deste processo.

A terceira possibilidade, considerada por muitos como a mais forte, está sendo apresentada agora ao cenário. Capitão Guimarães tira da manga o nome do atual presidente da Vila Isabel, Fernando Fernandes, como o candidato capaz de concentrar os votos cativados por ele ao longo dos anos. Jorge Castanheira sempre foi um conciliador dentro da Liesa e essa postura gerou aproximação de várias escolas ao grupo de Guimarães, como Mangueira, Portela, Viradouro, Tijuca, União da Ilha, além da própria Vila. Votam também na eleição da Liesa todos os diretores da entidade e os representantes dos conselhos deliberativo e fiscal, além de sócios beneméritos e grandes beneméritos. Esse colégio eleitoral foi praticamente todo montado por Guimarães e, por isso, o candidato dele tem grandes possibilidades de ser o próximo presidente da entidade. O pleito não tem data marcada, mas é uma tendência acontecer no dia 23 de julho, dia do aniversário de 35 anos da Liesa.

O pesquisador Haroldo Costa sintetizou a vontade do folião: “O samba e os sambistas merecem respeito, assim como todos que torcem por suas escolas. A Liesa e o poder público têm que encontrar uma solução ética urgente.”

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