Jurado de samba-enredo responde crítica de compositor da Vila Isabel

Unidos de Vila Isabel. Foto: Juliana Dias/SRzd

André Diniz é um dos autores do samba deste ano da Unidos de Vila Isabel, em homenagem ao sambista e presidente de honra da escola, o cantor e compositor Martinho da Vila. Para os jurados do concurso carioca, mereceu três notas 10 e dois 9,9.

A trilha do enredo Canta, canta, minha gente! A Vila é de Martinho ainda leva a assinatura de Evandro Bocão, Dudu Nobre, Professor Waldimir, Marcelo Valença, Leno Dias e Mauro Speranza.

Na noite das Campeãs do Rio, no último sábado (30), Diniz foi perguntado pela reportagem do SRzd sobre falta de criatividade. O termo foi usado pelo jurado Alfredo Del Penho para tirar um décimo da obra. André Diniz é um dos mais premiados autores de samba-enredo da folia carioca e não concordou com o julgador.

Del Penho, em contato com a reportagem do portal, detalhou que: “O nível dos sambas-enredo é altíssimo e no julgamento busco avaliar com diferentes notas os sambas que acredito terem sido os melhores do ano, e os outros que, apesar de serem excelentes, penso estar em outros patamares. O problema é que em um julgamento tão parelho, um décimo perdido é entendido por alguns como uma avaliação ruim, o que não deveria ser assim.

Sobre a expressão ‘falta de criatividade’, alguns pontos devem ser considerados: o samba pode ser muito interessante em um aspecto, e ser menos em outro. Pode inclusive ter uma letra exuberante e uma melodia mediana, ou vice-versa. Na relação com outros sambas do mesmo ano, um determinado desenvolvimento pode ser mais ou menos bem avaliado, e o todo, o samba em sua integralidade é considerado na nota final”.

Especificamente em relação à obra da Vila, argumentou a penalização ao avaliar a melodia: “Deixei claro que atribuí um décimo a menos pro samba da Vila Isabel de 2022, citado na matéria anterior, por falta de criatividade no desenvolvimento da melodia, ou seja, em um aspecto específico. Achei ideia de estruturar o samba como os do Martinho da Vila excelente. O próprio Martinho escreve sobre isso no livro abre alas. Em sambas antológicos do próprio Martinho como ‘Raízes’, ‘Iaiá do Cais Dourado’, ‘Pra Tudo Se Acabar Na Quarta Feira’, ‘Quatro Séculos de Modas e Costumes’ ele traz soluções melódicas interessantíssimas mesmo quando usa a estrutura de repetição, e é assim também quando busca trazer a cadência do partido alto para o samba enredo. Em ‘A Vila Canta o Brasil, Celeiro do Mundo’, um dos grandes sambas dos últimos tempos, e que tem na parceria Martinho e André Diniz, um dos autores do samba de 2022, a melodia é riquíssima! Na minha opinião, no samba deste ano faltou o um bom desenvolvimento da melodia, inclusive como mestre Martinho fez em incontáveis sambas que tem o mesmo estilo. Por conta disso não achei justo colocar este samba no patamar dos que eu considerei que deveriam levar a nota máxima”.

“Sobre os outros sambas citados na matéria do SRzd, acredito que os compositores do samba da Viradouro tiveram uma ideia brilhante ao escrever o samba em formato de carta. Penso que foi uma contribuição belíssima para o carnaval, e espero que reverbere nos próximos anos. Porém, outros aspectos do samba me fizeram julgar que não deveria estar junto com os que levaram nota dez. O mesmo aconteceu com o samba da Tijuca. A ótima abordagem do enredo na letra foi levada em conta na avaliação bem como os desenhos melódicos criativos em termos de altura de nota, porém, o aspecto da relação sincopada definidora do samba fez com que eu atribuísse um décimo a menos.

Levo sempre em consideração a inventividade dos compositores, a escolha de como contar o enredo, a busca de caminhos interessantes para isso, e acredito que os compositores devam ser premiados por seu trabalho. Tenho plena consciência do impacto do julgamento inclusive em orientações para o Carnaval seguinte. Justamente por isso sempre me pergunto: o que estou escrevendo tem um viés propositivo? O que escrevo poderia impactar negativamente nas orientações para feitura de um novo samba?”, explicou.

‘Seria igualmente injusto dar 10 para todas as escolas’

O jurado ainda acrescenta compreender a insatisfação daqueles que não recebem a melhor nota em determinado quesito, mas defende seu comprometimento com o julgamento.

“É natural como julgador que o meu trabalho seja criticado e, sendo o samba enredo uma paixão profunda das pessoas, certamente muitas pessoas discordarão do meu ou de qualquer julgamento, seja esse com muitas ou poucas notas 10. O que eu garanto é que, como julgador, sempre me comprometi a me dedicar ao máximo, conhecer a história do gênero, vivenciar o samba e buscar fazer um julgamento justo independente da escola, do compositor ou do enredo. Ouço sambas de enredo o ano inteiro, canto sambas de enredo em shows e rodas, acompanho as disputas, escrevo as partituras antecipadamente, avalio cada um dos aspectos sei o quanto é duro depois de um ano de trabalho receber uma nota diferente da esperada. Infelizmente a decepção dos participantes é quase inevitável, e seria igualmente injusto dar 10 para todas as escolas”, e conclui:  “Acho muito importante o espaço de diálogo entre julgadores, compositores e outras pessoas que fazem o nosso Carnaval. A direção da Liesa, além de dar absoluta autonomia no julgamento, abriu esse espaço, e acho que todos só temos a ganhar com isso. Obrigado também ao SRzd por abrir esse canal”, encerra Del Penho.

Entre os doze sambas de enredo do Grupo Especial do Rio neste ano, apenas o da Beija-Flor de Nilópolis recebeu cinco notas dez, gabaritando no quesito.

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